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Sob efeito da desaceleração econômica e da Operação Lava Jato, mercado de máquinas para construção civil busca alternativas para evitar tombo nas vendas em 2014

Baixa atividade no setor da construção civil já contamina outros ramos
Reuters
Baixa atividade no setor da construção civil já contamina outros ramos

Garantia estendida, consórcios e financiamento com bancos de montadoras: essas são algumas das estratégias que vêm sendo reforçadas pelas empresas de máquinas pesadas para construção civil para tentar sobreviver à crise que se instaurou no setor a partir do final do ano passado. Assim como as montadoras de automóveis, as grandes fabricantes de máquinas buscam oferecer facilidades de compra a um cliente que sofre com a falta de crédito e de encomendas e com os impactos da Operação Lava Jato sobre as maiores construtoras brasileiras. Os números variam de empresa para empresa, mas a expectativa de queda nas vendas em 2015 é sempre superior a 30%.

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A crise do setor chega após um período de explosão nas vendas, quando compradores tiveram que lidar com filas para adquirir equipamentos, que motivou a abertura de uma série de novas fábricas no Brasil. “Há 10 anos, tínhamos um mercado crescente e apenas 10 marcas. Hoje, são 40. Muita gente abriu fábrica esperando grande crescimento”, diz Roque Reis, responsável pela área comercial da Case Construction na América Latina. Ele lembra que, em 2009, o mercado projetava vendas de 40 mil máquinas em 2014. Foram pouco mais de 25 mil.

Não há estatísticas consolidadas sobre a capacidade ociosa no setor, mas é consenso que os estoques estão elevados e pressionam os preços para baixo, apesar do aumento de custos no último ano. A grande maioria das fábricas opera com níveis reduzidos de utilização. Uma das últimas companhias a chegar ao Brasil, a coreana Hyundai, por exemplo, produziu apenas 2 mil unidades desde que inaugurou a fábrica de Itatiaia (RJ), em abril de 2013 — o equivalente a apenas 2/3 da capacidade instalada anual.

Na feira M&T Expo, a maior da América Latina dedicada ao segmento, a companhia lançou uma promoção de garantia estendida, dobrando o período para 3 mil horas de uso, em uma tentativa de atrair clientes. “As oscilações do mercado reduzem a segurança no investimento. Nos próximos dois anos, pelo menos, não vamos investir na expansão”, reconhece Felipe Cavalieri, presidente da BMC Hyundai no Brasil. A unidade de Itatiaia custou à empresa US$ 200 milhões e foi projetada para chegar às 5 mil unidades por ano.

A maior oferta de financiamento pelos bancos próprios das montadoras é outra alternativa que vem ganhando força neste momento de crise. Na Case Construction, o financiamento próprio já responde por 60% das vendas, um crescimento de 50% com relação ao verificado no ano passado. A empresa reforçou ainda o incentivo ao consórcio para a aquisição de máquinas: a meta é fechar 2015 com 900 contratos fechados, quase o dobro dos 580 do ano passado e seis vezes os 150 de 2013. “Os clientes tem tido dificuldade para aprovar financiamento, porque está todo mundo alavancado. O consórcio funciona como uma poupança e não aparece como dívida no balanço”, explica Reis.

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A chinesa Liugong, última fabricante a iniciar atividades no país, em Mogi Guaçu (SP) também trabalha em uma solução financeira para atrair os clientes. Inaugurada em março, a fábrica tem investimentos de R$ 100 milhões e capacidade para produzir, neste momento, 600 unidades por ano. Mas opera abaixo da capacidade, admite Vander Freitas, diretor de operações da cadeia de suprimento da empresa. “Estamos trabalhando em uma solução caseira de financiamento, em parceria com bancos brasileiros e chineses para atuar como banco de montadora”, adianta o executivo.

A falta de crédito é apontada em pesquisa sobre o setor como o segundo maior problema este momento, perdendo apenas para o atraso de pagamentos. É resultado das restrições ao crédito tanto pelo recuo do BNDES como financiador quanto pelos respingos da Operação Lava Jato na percepção de risco do setor de construção civil, principal cliente do segmento. A paralisação de obras da Petrobras também contribui. “Há um ano, a Petrobras estava com 40% das minhas máquinas. Hoje, não tem nenhuma”, diz um empresário de locação de equipamentos, que preferiu não se identificar.

Representante do varejo, o presidente da revendedora Tracbel, Luiz Gustavo de Magalhães Pereira, diz que a tendência de postergação de compras de máquinas novas levou a um investimento maior no pós-vendas. “A frota atual terá uma utilização maior e vai precisar de mais manutenção”, argumenta. Além disso, a empresa buscou parcerias com fabricantes de equipamentos para outros setores, como mineração e agregados da construção civil, para diversificar a carteira de clientes. “Estou no setor há 19 anos e este é o primeiro em que fazemos projeção de queda nas vendas”, comenta o executivo.

O pacote de concessões anunciado esta semana pelo governo é visto como uma luz no fim do túnel, mas com resultados apenas no médio prazo. A percepção geral é que, primeiro, os estoques serão desovados. A retomada da capacidade de produção só deve ocorrer em meados do ano que vem. O segmento produz os equipamentos necessários para grandes obras civis, como escavadeiras, motoniveladoras, pás carregadeiras, além de máquinas para concreto, guindastes e equipamentos para mineração. Nos últimos dois anos, foi beneficiado por um programa do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA) para modernizar a frota de pequenos municípios, que encomendou quase 10 mil máquinas.

O programa é citado por Cavalieri como a principal motivação para o investimento da Hyundai no Brasil. No pico, a empresa chegou a produzir 800 unidades em um mês, com uma força de trabalho de 700 pessoas. Com a crise, o número de trabalhadores foi reduzido a 400. “Depois de cinco anos de crescimento constante, estamos passando por um período de ajuste do mercado. Mas não é o primeiro e nem será o último”, resume Afrânio Chueire, presidente da Volvo CE para a América Latina.

Alternativa mais próxima, AL também vê queda nas vendas

A exportação para outros países na América Latina é citada pelas principais empresas do segmento como uma das alternativas para driblar a crise no país. Estatísticas apresentadas durante a M&T Expo, porém, mostram recuo das vendas também em países vizinhos. Este ano, segundo projeções da Case Construction, as vendas na região ficarão em 17,5 mil unidades, queda de 2,6% com relação a 2014 e de 41% com relação ao recorde de 2011.

A retração é provocada, principalmente, pela crise financeira da Argentina e na Venezuela, dois dos principais mercados. Ainda assim, as filiais brasileiras começam a tentar deslocar produtos vendidos no continente por outras unidades no mundo. “Nossa estratégia este ano é investir no mercado hispânico”, diz Afrânio Chueire, presidente da Volvo CE para a América Latina. Segundo ele, o Brasil continua líder na região, mas com uma fatia menor do que a verificada nos últimos anos.

Até abril deste ano, segundo estatísticas apresentadas pela Volvo, o mercado brasileiro ficou com 45% das vendas regionais, contra os 55% registrados no início da década. “Todos os países dependentes de commodities estão sofrendo, mas Colômbia e Peru, por exemplo, vêm num patamar de crescimento interessante, com grandes investimentos em infraestrutura”, analisa Roque Reis, da Case Construction. Até um ano atrás, diz ele, todas as vendas na região vinham de fábricas nos Estados Unidos. “Agora, estamos trabalhando para fornecer das fábricas brasileiras.”

A BMC Hyundai realizou recentemente o primeiro embarque de equipamentos brasileiros para o Uruguai. “A exportação é uma alternativa, mas também um desafio enorme, porque a competitividade aqui é bem menor do que na Coreia”, comenta Felipe Cavalieri, presidente da filial brasileira da companhia. Com a desvalorização do real, porém, os produtos nacionais começam a ganhar alguma margem na comparação com exportações de regiões mais distantes.

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