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Com uma agressiva política de atração de empresas estrangeiras e a expansão do Canal do Panamá, o país deve crescer este ano mais de 6%. Uma taxa menor do que obteve nos últimos anos, mas quase o dobro do previsto para a média da América Latina

No imponente edifício do shopping Soho Mall, na Cidade do Panamá, ainda se ouve o barulho de máquinas e homens trabalhando, mas já é possível visitar lojas de algumas das grifes mais conceituadas do planeta, como Burberry, Prada e Carolina Herrera. Inaugurado oficialmente há um mês, o complexo — que inclui um hotel e escritórios — é o segundo centro de vendas de artigos de luxo na cidade e reflete o impressionante crescimento do país nos últimos anos. Apesar da crise que assola as maiores economias da região, o PIB do Panamá fechou 2014 com alta de 6,3% e deve repetir o resultado este ano, segundo estimativas da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal).

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O bom desempenho é resultado da combinação entre o gigantesco projeto de ampliação do Canal do Panamá, investimento de US$ 5,2 bilhões e cerca de 100 mil empregos diretos e indiretos, e uma política agressiva de atração de multinacionais. Com isenção de impostos para empresas e seus empregados estrangeiros, o Panamá conseguiu atrair, desde 2007, mais de 100 sedes regionais de companhias de variados portes e áreas de atuação, como P&G, Otis, ABB, Adidas, Hyundai e Philips. No ano passado, a dinamarquesa Maersk, por exemplo, deixou São Paulo para concentrar a gestão de suas operações latino-americanas no país.

“Faz muito sentido estar em um local onde se pode conectar com o mundo todo. Além disso, é um país com crescimento sustentado e economia dolarizada. Não precisamos ficar todo o tempo verificando como está o real ou o peso”, diz a gerente da Philips Lighting para o norte da América Latina, Nadia Cáceres. A empresa transferiu sua sede da Colômbia em dezembro de 2013, atraída pelas condições oferecidas pelo programa Sede de Empresas Multinacionais (SEM). “Os expatriados não pagam impostos e, por isso, é mais fácil atrair gente qualificada”, explica ela, que é natural do Panamá.



Além das vantagens tributárias, o país conta com uma boa infraestrutura financiada pelos norte-americanos, responsáveis pela construção do canal há 100 anos. Além de dois grandes portos, um em cada Oceano, há cinco cabos submarinos de fibra ótica que garantem boa qualidade nas comunicações. Considerado um dos principais hubs marítimos do continente, com grande movimentação de carga ao longo do Canal do Panamá, o país vem ganhando também importância no transporte aéreo, com o esforço para transformar o Aeroporto Internacional de Tucumen em um centro distribuidor de passageiros pelas Américas, com mais de 130 voos diários para 24 países.

Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censo (Inec) mostram crescimento expressivo no investimento direto, que bateu US$ 4,6 bilhões em 2013 (alta de 71% com relação a 2010), e no PIB per capita, que subiu de US$ 6,9 mil para US$ 8,7 mil no mesmo período. A atração de empresas tem gerado grandes oportunidades para a construção civil, como se nota pela quantidade de edifícios em construção na capital, a maioria arranha-céus no estilo Dubai. O desemprego, porém, embora baixo (3,5%), vem apresentando alta desde 2011, quando bateu no piso de 2,9%.

Apesar de melhores do que as médias da região, os indicadores de desemprego e PIB sugerem uma desaceleração do crescimento e apresentam desafios para os próximos anos, dizem especialistas. O país chegou a registrar crescimento superior a 10% nos dois primeiros anos da década. Com o fim das obras previsto para este ano, cerca de 8,6 mil trabalhadores diretos serão desmobilizados. Além disso, a Zona Franca de Colón, no porto localizado no Oceano Atlântico, tem sofrido impactos da crise econômica de seu maior cliente, a Venezuela.

O país espera manter o ritmo de crescimento com um plano de investimentos de US$ 6,3 bilhões em infraestrutura nos próximos cinco anos, que poderia manter ocupada parte da mão de obra que será dispensada das obras do canal. Na lista de projetos, estão a ampliação da linha 1 e a construção de uma nova linha de metrô e um sistema de transporte de massa para Panamá Oeste, um dos centros de negócios que surgiram na esteira do desenvolvimento dos últimos anos. Além disso, projeta US$ 1,2 bilhão em incentivos à produção agropecuária e na construção de novas linhas de transmissão de energia, um dos principais gargalos logísticos do país.

O principal motor da economia, porém, deve continuar sendo o transporte marítimo. Atualmente, a logística representa 26% do PIB do país, diz o vice-presidente de Desenvolvimento Comercial da estatal Canal de Panamá, Oscar Bazán. A Canal de Panamá tem uma receita anual de US$ 2,6 bilhões com as tarifas cobradas sobre os navios que cruzam os 80 quilômetros do canal, que varia entre US$ 78 e US$ 80 por TEU (medida de capacidade de transporte de contêineres). No ano passado, o lucro foi de US$ 950 milhões.

Ao fim da obra, diz Bazán, a empresa planeja construir um pátio logístico e um terminal de gás natural liquefeito (GNL), para distribuição entre os países importadores da região, como o Chile. “Com as novas eclusas, o canal poderá ser usado como uma rota para o GNL. Hoje, os navios não podem passar aqui”, comenta o executivo. O país prepara ainda a licitação de um novo terminal portuário na capital, chamado Porto Corozal. O terminal atual, chamado Porto de Balboa, é operado pela Hutchison Whampoa, originária de Hong Kong. A licitação deve ser realizada ainda este ano e já tem como interessada a APM Terminals, do grupo Maersk.

Na última sexta-feira, operários da obra de expansão do Canal do Panamá começaram as escavações do trecho que vai ligar o terceiro conjunto de eclusas na região de Miraflores, na capital do país, ao Oceano Pacífico. O cronograma atual prevê que, em setembro, a nova instalação seja alagada. Antes, ainda este mês, procedimento semelhante será feito na outra ponta do canal, às margens do Atlântico. Com a inauguração do projeto, prevista para abril do ano que vem, o país espera ampliar suas receitas e atrair novas empresas.

Novas eclusas começam a ser alagadas este mês

Todos os números referentes à obra são superlativos: são 4,4 milhões de toneladas de cimento, 192 mil toneladas de aço e, hoje, 8,6 mil trabalhadores — durante o pico, chegaram a 10 mil. O investimento de US$ 5,2 bilhões vai permitir a passagem de navios com até 50 metros de largura, contra os 32 metros atuais. A expectativa é ampliar a capacidade do canal dos atuais 38 a 42 navios por dia para até 54 navios por dia. Para isso, a estatal Canal de Panamá criou uma espécie de programa de fidelidade, no qual as tarifas são inversamente proporcionais ao tamanho do navio.

“Acreditamos que, do Brasil, o que está acima de Recife, pode usar o canal para chegar ao mercado asiático”, diz o vice-presidente de desenvolvimento de negócios da companhia, Oscar Bazán, citando mineradoras com atividades na Amazônia como clientes que podem elevar a utilização. Há expectativa também de um aumento no fluxo de soja brasileira, que começa a ser escoada pelo corredor Norte.

A movimentação de contêineres, porém, deve permanecer nas rotas atuais (da Ásia ao Porto de Santos pelo sul da África), avalia Julián Fernandez, gerente-geral de desenvolvimento de negócios da APM Terminals. “É uma rota competitiva”, diz.

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