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Segundo o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, o tucano José Serra está correto porque o que falta, desde 1964, é planejamento de longo prazo e reformas estruturais

Ex-governador José Serra (PSDB)  foi eleito, em 2014, senador por São Paulo
30-Set2014/Divulgação
Ex-governador José Serra (PSDB) foi eleito, em 2014, senador por São Paulo

O senador José Serra (PSDB-SP) acredita que falta ao Brasil uma discussão sobre os rumos da economia, inclusive por parte de seus pares. Para o tucano, "a oposição precisa passar da crítica para a discussão de rumos" e o país carece de um planejamento de longo prazo, como teve o governo militar.

"Um exemplo: 1964, golpe militar. A inflação estava 100% ao ano. Fizeram políticas de curto prazo, com série de medidas e reformas, mas havia um projeto de curto e longo prazo que funcionou", ressaltou Serra.

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Após uma breve palestra sobre a economia brasileira, o político disse, em conferência telefônica com jornalistas nesta quinta-feira (22), que as medidas adotadas  pela nova equipe econômica (corte de gastos e aumentos de impostos) são para o curto prazo e citou como exemplo o governo militar (1964-1985).

"Dilma está fazendo o que disse que não faria: corrigindo seus erros. Estou surpreso com o pacote de medidas, que é bem-sucedido no sentido de dar sinais positivos ao mercado. Mas eu não quero ficar elogiando a Dilma", disse Serra. Apesar desse breve elogio, Serra classificou as medidas de ineptas porque atuam apenas no curto prazo.

O economista e professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo concorda com Serra, mas corrige o índice de inflação informado por ele. Segundo o economista, em 1964, a inflação era de 84% ao ano.

"Estamos [Belluzzo e Serra] em lados opostos, mas ele está correto. O governo militar pensou a economia no longo prazo ao criar o Plano de Ação Econômica do Governo [PAEG], do Roberto Campos [ministro do Planejamento do governo Castello Branco]. Fizeram reforma tributária, fiscal, tarifária e reforçaram a capacidade industrial. Mas é preciso lembrar que naquele momento a economia internacional vivia anos de ouro [1948 até meados de 1970] e o governo soube aproveitar. Hoje, o momento é outro, de dificuldades para todos", explica o economista.

Belluzzo dá exemplos atuais de países que trabalham a economia com planejamento estrutural de longo prazo. "Coreia do Sul e China são bem-sucedidos, mesmo estando em lados opostos. As políticas deles são estruturais e o desepenho econômico muito bom."

Para Serra, o ajuste fiscal anunciado por Joaquim Levy, ministro da Fazenda, espanta por sua modéstia. "A questão fiscal estava deteriorando as condições do País, o que levaria a queda do grau de investimento e a uma maior dificuldade em buscar recursos paro estado. Há um imenso apoio da indústria, especialmente do mercado financeiro", avaliou Serra.

Belluzzo discorda nesse ponto. "O problema é que quem manda no Brasil são os macroeconomistas. Perdemos a cultura de debater as políticas públicas, as reformas necessárias. Estão entregando o poder de comandar a economia para o mercado financeiro, infelizmente."

José Serra foi ministro do Planejamento e da Saúde do governo Fernando Henrique Cardoso (de 1995 até 2012).

Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e foi consultor pessoal de economia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff no início do primeiro mandato. Belluzzo também foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda durante o governo de José Sarney.

Veja como são as medidas anunciada por Levy

O minstro Joaquim Levy anunciou dia 19 de janeiro quatro medidas para compor o prometido ajuste fiscal. Segundo ele, o objetivo dessas medidas é aumentar a confiança na economia. Elas devem gerar um aumento da arrecadação em R$ 20,6 bilhões. 

Uma delas equipara por decreto o atacadista ao industrial para o efeito de incidência no IPI no setor de cosméticos. (Com efeito da medida de junho a dezembro de 2015 e incremento de R$ 381 milhões na arrecadação.) A outra, é o reajuste da alíquota do PIS/Cofins sobre a importação, de 9,25% para 11,75%. (O impacto a partir de junho deste ano deve ser de R$ 700 milhões.)

Por último, decreto altera a incidência do PIS/Cofins e Cide sobre combustíveis: o aumento das duas alíquotas juntas será de R$ 0,22 para gasolina e de R$ 0,15 para o diesel. Os efeitos financeiros estão na ordem de R$ 2,2 bilhões na arrecadação.

Em dezembro, o governo anunciou a alteração, por meio de Medida Provisória, de benefício previdenciários, como o seguro-desemprego, pensão por morte, auxílio-doença, abono salarial e auxílio-defeso (para trabalhadores que fazem pesca artesanal). As mudanças economizariam R$ 18 bilhões, segundo o governo.