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Líderes do bloco se encontram na Argentina em meio a inquietações em relação à saúde das duas principais economias do grupo

O Brasil vai assumir a presidência do Mercosul prometendo "agitar" o bloco econômico, porém em meio a preocupações com a lentidão nas relações comerciais regionais e com o futuro das principais economias do grupo.

Os presidentes dos países do bloco se reúnem pela 47ª vez nesta quarta-feira na cidade argentina de Paraná, a cerca de 500 quilômetros de Buenos Aires.

"Estamos todos atentos ao que ocorrerá no Brasil. O país está crescendo menos e por isso preocupa. Mas temos uma enorme expectativa em relação às medidas da nova equipe econômica brasileira", disse o economista argentino Miguel Angel Broda, em entrevista ao canal de TV 26, de Buenos Aires.

A expectativa entre os definidos como "ortodoxos" é que o novo ministro da Fazenda do Brasil, Joaquim Levy, conduza o país para uma maior abertura da economia e leve o Mercosul a se aproximar da Aliança do Pacífico – união de livre comércio que reúne Chile, Colômbia, Peru e México.

"Se Levy arrumar a economia brasileira, e ela voltar a crescer, favorecerá também a Argentina", disse Broda.

Para ele e para os economistas Orlando Ferreres e Marcelo Elizondo, ouvidos pela BBC Brasil, o comportamento da economia e da politica brasileira influenciam toda a região.

"O Brasil é a maior economia regional e uma das maiores do planeta e é claro que tudo que nele acontece afeta os demais países", disse Elizondo.

Para Ferreres, "não há dúvidas de que o menor crescimento econômico do Brasil e o menor crescimento da Argentina afetam o Mercosul como um todo".

'Agito'

Na tentativa de reativar a relação bilateral e o bloco, serão anunciados nesta reunião algumas medidas – como uma "cadeia produtiva" para a produção de brinquedos com selo do Mercosul. É uma forma, admitiram negociadores, de tentar "combater a concorrência chinesa" neste e em outros setores industriais.

Nesse encontro devem ser feitos ainda outros anúncios, como o início de um processo de possível acordo comercial do Mercosul com o Líbano e a Tunísia e a placa comum de automóveis do Mercosul – uma forma de aumentar o controle contra carros roubados, segundo negociadores. No caso do Brasil, a medida entra em vigor para carros novos a partir de 2016.

"Queremos agitar o Mercosul durante a presidência do Brasil. Levar o Mercosul para a rua", disse um assessor do governo Dilma.

Esta reunião será a última presidida pela presidente Cristina Kirchner, que em dezembro próximo passará a faixa ao sucessor.

O encontro também conta com a Bolívia. O país presidido por Evo Morales – primeiro a chegar à cidade – ainda aguarda a aprovação dos Congressos do Brasil e do Paraguai para se incorporar ao bloco.

A ocasião será ainda o início da despedida do presidente uruguaio José Mujica. Em março ele passa a faixa para Tabaré Vázquez, que é mais favorável que Mujica ao Mercosul.

Vázquez defende que o bloco "se abra comercialmente e mais rapidamente" ao mundo, como deixou claro durante sua primeira gestão presidencial, quando ameaçou um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.

A Aliança do Pacífico tem mostrado, segundo críticos do Mercosul, resultados econômicos "mais satisfatórios" que o bloco do Cone Sul.

Motor falho

O comércio entre Brasil e Argentina caiu cerca de 27% este ano, na comparação com os 11 meses do ano passado.

Os dois países são os principais motores econômicos do Mercosul – que reúne ainda Paraguai e Uruguai, economias menores, e a Venezuela, afetada pela queda no preço do petróleo e desafios políticos internos.

"O volume interno do comércio do Mercosul caiu este ano mais de 20%. Nós sabemos que é resultado do menor crescimento", reconheceu um assessor do governo brasileiro, que não quis ser identificado.

Outro auxiliar do governo da presidente Dilma Rousseff atribuiu a retração às barreiras comerciais impostas pela Argentina, que afetam principalmente os produtos industriais brasileiros destinados ao mercado vizinho.

O setor automotivo responde por mais de 50% do comércio bilateral, segundo assessores brasileiros que acompanham o assunto.

Além do menor ritmo da economia brasileira, o escândalo que envolve a Petrobras também passou a ser assunto entre investidores e analistas.

Na segunda-feira, as ações da companhia brasileira registraram queda de quase 15% na Bolsa de Buenos Aires, segundo jornais econômicos argentinos.