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A principal rua da cidade, Elk Avenue, foi enfeitada com ofurôs ao ar livre, caixa de areia, luzes de show e palco

NYT

Os operários não tiveram descanso nesta cidade dedicada ao esqui, bucólica e distante. As ruas foram pintadas de azul, bem como os postes de luz. Adereços azuis e cercas foram trazidos, deixando o lugar quase irreconhecível. E à medida que se davam os retoques finais para uma festa de três dias, muitos residentes explodiam de raiva, amaldiçoando a prefeitura por aprovar um acordo por debaixo dos panos que deixou uma cervejaria gigante transformá-la num anúncio vivo em troca de US$ 500 mil.

"Isso é um erro", disse David Rothman, de 55 anos, que se mudou para Crested Butte 20 anos atrás, a respeito da decisão de deixar a Anheuser-Busch assumir a cidade para filmar um comercial de cerveja. "Sinceramente, é vulgar e de mau gosto."

No dia cinco de setembro, a empresa despachou mil jovens para um final de semana ao estilo rave, proeza criada para anunciar a Bud Light. A principal rua da cidade, Elk Avenue, foi enfeitada com ofurôs ao ar livre, caixa de areia, luzes de show e palco. Restaurantes e hotéis perderam boa parte da identificação, recebendo em seu lugar guarda-sóis e propagandas com a marca da cerveja. Quando a filmagem começou, a bebida rolava solta, o acesso à rua principal foi restringido às pessoas com braceletes dados pela cervejaria e a Crested Butte, linda e rodeada por montanhas, foi rebatizada como "Um Lugar Qualquer, EUA".

"Esta cidade foi construída justamente para esse tipo de evento", afirmou Nick Kelly, porta-voz da Anheuser-Busch. "Nada disso!", dizem muitos moradores. Não apenas eles são contra a decisão de alugar a cidade como também contestam o sigilo envolvendo o acordo. A notícia do contrato vazou no final de agosto. Depois de uma reunião turbulenta e uma reação adversa enorme da comunidade, a cervejaria dobrou a oferta em dinheiro, que originalmente era de US$ 250 mil.

"É uma porta perigosa de se abrir para a nossa pequena comunidade", declarou Eliot Rosenberg, de 26 anos, mecânico de motocicletas que costuma rodar com o prefeito, mas o criticou por se "deixar levar pelo dinheiro". "Quem é que virá bater à nossa porta agora que sabem que estamos abertos a ceder por meio milhão de dólares?"

Outro crítico é Tim Wirth, ex-senador que agora mora aqui. "O governo municipal não foi eleito para transformar a cidade em boteco de fim de semana, usando recursos públicos e propriedade pública", ele escreveu em carta à câmara municipal.

As autoridades municipais disseram ter recebido bem a receita e os empregos criados pelo evento. O orçamento anual de Crested Butte é de apenas US$ 10 milhões, e os US$ 500 mil da Anheuser-Busch, que a empresa chama de doação, serão destinados a um projeto importante a ser determinado. Quanto a manter os planos em segredo, o prefeito, Aaron Huckstep, alegou temer que a notícia do evento trouxesse uma enxurrada de forasteiros.

Uma parte do moradores da cidade parecem estar estafados de tanto anúncio de cerveja no local
Reuters
Uma parte do moradores da cidade parecem estar estafados de tanto anúncio de cerveja no local

Em seu escritório acima de uma pizzaria, Huckstep, de chinelo e shorts, se desculpou pelo sigilo, mas defendeu a decisão de aprovar o evento. "Não é todo dia que uma empresa o procura e diz: 'Queremos doar meio milhão à comunidade. Queremos contratar operários locais. Queremos trabalhar com seus bares e restaurantes'", ele argumentou.

Ele e outros moradores afirmaram que o evento geraria uma muito necessária infusão de dinheiro durante a época de transição, quando os visitantes de verão já foram embora e os de inverno ainda não chegaram. A população permanente é de apenas 1.500 habitantes, e muitas pessoas têm dois ou três empregos para sobreviver. Como em muitas cidades de veraneio, casas acessíveis são cada vez mais raras, segundo dados da prefeitura.

"Crested Butte é um ótimo lugar para se morar", afirmou Jim Schmidt, vereador que ajudou a aprovar o evento. A cervejaria prometeu contratar 300 moradores. "Não há dúvida que isso vai botar muita gente para trabalhar", ele disse.

But Rothman, ex-diretor de escola que também fundou o Festival de Música de Crested Butte, disse que "esse tipo de coisa não combina com um lugar que tenta se vender como um belo ambiente natural".

Os participantes da festa foram selecionados a partir de um grupo de mais de 150 mil pessoas que enviaram vídeo à Anheuser-Busch demonstrando que estavam "dispostos a tudo".

"Esse é um fim de semana muito devagar para os negócios, e estamos trazendo milhares de clientes", afirmou Kelly, o porta-voz da cervejaria.

Críticos do evento afirmaram temer que ele fosse o começo de uma mudança cultural que terminaria estragando a personalidade sossegada da cidade. Muitos moradores são pessoas que trocaram vidas agitadas por esta comunidade comedida. Aqui, as pessoas circulam em bicicletas de selim largo que ninguém pensa em prender com cadeado.

"Nós escolhemos morar aqui", afirmou Troy Wildman, de 50 anos, cozinheiro cujo salário depende da temporada turística. "Prefiro comer feijão o tempo todo a morar em Dallas (Texas)".

Os moradores afirmam se orgulhar do espírito livre da cidade e também do fato de ela não ser Aspen nem Vail, cidades de veraneio maiores e chiques que, para as pessoas daqui, perderam o espírito de vilarejo. "Nós queremos proteger este lugar", afirmou Cassie Byrne, de 22 anos, moradora cujos avós começaram a vir para cá na década de 60. "Não gostamos de grandes empresas, queremos que fique em escala local".

Huckstep afirmou que o evento seria uma experiência de aprendizado – uma forma de tomar decisões sobre planos de crescimento.

"Em escala micro, você se pergunta 'Qual é o grande problema?'", questionou o prefeito. Ainda segundo ele, "é uma preocupação legítima as pessoas dizerem que valorizam a qualidade de vida, e que temem que isso se perca com a ocorrência desses eventos".

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