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A ideia de mensurar tudo, incluindo os valores do pecado, é ter uma leitura mais precisa das riquezas de cada país

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Como porta-voz da Associação Nacional de Clubes de Sexo da Espanha, José Roca já ouviu todo tipo de pergunta estranha, mas raramente ficou tão desconcertado como quando uma agência de estatísticas do governo ligou no final do ano passado.

Em tom sincero, um estatístico lhe perguntou se ele sabia o preço médio de um programa com uma prostituta na Espanha e o custo típico de um quarto num bordel espanhol.

Jose Roca, porta-voz da Associação Nacional dos Clubes de Sexo da Espanha, que foi questionado por uma agência de estatísticas do governo
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Jose Roca, porta-voz da Associação Nacional dos Clubes de Sexo da Espanha, que foi questionado por uma agência de estatísticas do governo

"Ele até mesmo fez perguntas idiotas como quanta energia é consumida por uma boate", contou Roca, cujo grupo com sede em Valência representa centenas de clubes alternativos pela Espanha.

"Pensei que fosse piada. Estava tão incrédulo que até solicitei o envio de um e-mail para garantir que era sério".

As perguntas não eram trote, mas parte de uma nova tentativa de mensurar o tamanho da economia espanhola. Em setembro, todos os países da União Europeia (UE) serão obrigados a fazer a contabilização completa do comércio com sexo, drogas e outros empreendimentos clandestinos como parte de uma reforma dos indicadores econômicos da Eurostat, o gabinete de estatísticas da UE.

A ideia de contabilizar tudo, incluindo os valores do pecado, é ter uma leitura mais precisa do produto interno bruto de cada país. Como o PIB é um número muito importante – a ponto de influenciar a política nacional ou significar o sucesso ou o fracasso de políticos – a União Europeia busca números que "reflitam melhor o ambiente econômico", afirmou Vincent Bourgeais, porta-voz da Eurostat.

Com os governos da UE obrigados a reduzir a dívida pública a uma porcentagem de suas economias, as mudanças também devem melhorar a aparência da taxa de crescimento da Espanha à Suécia, possivelmente também tornando menos fúnebre o coeficiente de endividamento.

Além dos indicadores ligados aos vícios, outros serão recalibrados, tais como pesquisa e desenvolvimento e contribuições para instituições de caridade. Tais valores certamente vão elevar muito mais o tamanho do PIB do que qualquer ganho registrado com a prostituição ou a produção de cocaína.

Ainda assim, contabilizar prostitutas e heroína pode acrescentar bilhões à economia. E enquanto alguns países da zona do euro tentam escapar da recessão de quase cinco anos, qualquer bocadinho conta.

"Segundo meus cálculos, a prostituição gera perto de 20 bilhões de euros" na Espanha anualmente, afirmou Roca. "Os espanhóis costumam frequentar boates e existe muito turismo", por exemplo, de clientes franceses logo ali do outro lado da fronteira.

A cifra de Roca fica perto da estimativa de 18 bilhões de euros do governo que seriam gerados pelo comércio legal de sexo na nação. Para Roca, se a quantia for acrescida ao PIB, "logicamente a Espanha vai se beneficiar".

Medir economia clandestina não é ciência exata

Tecnicamente, informar a atividade econômica dos mercados negros é exigência há muito tempo segundo as normas da União Europeia. Porém, mensurar a economia clandestina não chega a ser uma ciência exata. Somente alguns países, tais como Holanda, Itália e Alemanha, tentaram fazer um levantamento completo.

As novas regras da União Europeia vão exigir que todos os 28 países do bloco redobrem esforços, mesmo que isso signifique questionar proprietários de bordéis ou registrar toneladas de cocaína apreendidas de traficantes de drogas.

"As agências são capazes de coletar informação, mas essa não tem sido particularmente precisa porque estamos falando de atividades que todos tentam esconder", disse Gian Paolo Oneto, diretor de contabilidade nacional da Istat, agência nacional de estatísticas da Itália.

"Tais regras afirmam que o PIB deveria incluir tudo, até mesmo os tomates plantados na sua horta", acrescentou Oneto. "Às vezes, porém, só podemos estimar. Não dá para sair por aí contando tomates".

Club Paradise, perto da fronteira com La Jonquera, Espanha
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Club Paradise, perto da fronteira com La Jonquera, Espanha

Como a matemática pode ser inexata, economistas costumam ser cautelosos em relação a tais mensurações. A Itália detém um lugar nos anais da contabilidade criativa pelo "il sorpasso" (a ultrapassagem), de 1987, quando o governo recalculou o PIB para incluir a economia do mercado negro.

As cifras eram tão elevadas, incluindo estimativas de evasão fiscal e trabalhadores ilegais, que praticamente da noite para o dia o país superou a Grã-Bretanha como a quinta maior economia do mundo.

Agora, enquanto a Itália luta para fugir da recessão e opera sob uma das maiores dívidas públicas do mundo desenvolvido, o país vai passar a contabilizar álcool e tabaco contrabandeados. Oneto não quis fazer previsões, mas observou que o mercado negro total italiano já respondia por 15% da economia de 1,5 trilhão de euros do país.

Contudo, disse que sua agência não chegaria ao ponto de incluir um dos maiores possíveis reforçadores da economia, os negócios conduzidos pela máfia italiana, a qual deve gerar perto de 180 bilhões de euros de receita anual, equivalentes a 7% do PIB. "É muito difícil definir claramente a máfia", afirmou.

Para a maioria dos governos, a atividade ilegal pode responder por pouco mais do que um erro de arredondamento. Na Holanda, conhecida pelos distritos destinados à prostituição e cafeterias de maconha, essa atividade responde por 0,4% do PIB.

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O maior impulso às cifras do PIB virá de algo que não gera prazer: uma revisão da Eurostat permitindo aos governos contabilizar pesquisa e desenvolvimento como investimentos e não como custos. Viveiros do capitalismo da tecnologia de ponta, Finlândia e Suécia poderiam aumentar o tamanho de suas economias em até 5%, segundo a organização.

De acordo com estimativas da Eurostat, no caso de Itália, Irlanda, Portugal e Espanha, que lutam para superar a recessão, o PIB poderia subir até 2%, enquanto Alemanha e França poderiam ver expansões de até 3%. Já no caso da Grã-Bretanha, o crescimento poderia ser de três a 4%.

A Agência Nacional de Estatísticas do Reino Unido anunciou recentemente que começaria a contabilizar o vício pela primeira vez na economia do país, que está saindo da recessão.

A agência começou retrocedendo cinco anos na recontagem. Em 2009, o único ano cujos registros já foram contabilizados, prostituição e drogas, como cocaína, heroína, maconha, ecstasy e anfetaminas, acrescentaram quase dez bilhões de libras ao PIB britânico, correspondendo a 0,7%.

Em outros países, a questão transcende os números

A agência de estatísticas francesa se recusa a incluir drogas e serviços sexuais com a preocupação de que a prostituição, por exemplo, geralmente provem da escravidão sexual e não deveria receber um verniz de legitimidade econômica.

Para algumas pessoas, tais argumentos morais terminam por questionar o próprio conceito de PIB, estatística cujo valor tem sido filosoficamente criticado desde pelo menos a década de 1960. Robert F. Kennedy, falando em 1968, quando disputava a presidência dos Estados Unidos, avaliou a maneira pela qual o país media sucesso e lamentou que ele contabilizasse "tudo, menos o que faz a vida valer a pena".

Até economistas que valorizam o PIB como forma de medir o padrão de vida contestam a sensatez de tentar mensurar a decadência. "Se você pensa que drogas e prostituição não melhoram necessariamente a qualidade de vida de um país, então sua inclusão enfraquece o PIB como maneira de mensurar o bem-estar", afirmou Simon Tilford, subdiretor do Centro para a Reforma Europeia, Londres.

Lá em Valência, Roca, representante das boates de sexo, suspeitava que a Espanha poderia usar os novos dados para dourar o PIB com propósito político, ainda que a nação rasteje lentamente para sair de uma recessão há três anos.

Já as agências de estatísticas afirmam que, independentemente da melhora dos coeficientes, não será fácil pagar o serviço da dívida pública porque os governos não podem cobrar impostos de atividade ilegal. Nesse caso, Roca diz não entender o propósito. "Essa coisa toda é uma burrice enorme".

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