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Salários da agricultura não compensam para os trabalhadores que recebem seguro-desemprego do governo, obrigando empresas do setor a importar mão de obra

Uma trabalhadora colhe frutos na Fazenda Maravilha em Odemira, Portugal
Patricia De Melo Moreira/The New York Times
Uma trabalhadora colhe frutos na Fazenda Maravilha em Odemira, Portugal

Portugal pode ter um índice de 15% de desemprego, mas isso não significa que a Reiter Affiliated Companies, empresa americana de produção de frutas, possa encontrar pessoas da região para a colheita em sua fazenda de 76 hectares na região.

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No ano passado, a empresa, também conhecida como RAC, iniciou uma campanha de recrutamento e contratou 40 portugueses. A metade abandonou após o primeiro dia. Por volta do final de semana, não sobrou nenhum.

"Eles queriam um emprego, mas esse não era o que procuravam, porque basicamente era trabalho demais por muito pouco dinheiro", declarou Arnulfo Murillo, gerente de produção da fazenda. "A agricultura aqui não é mais difícil que nos Estados Unidos, porém, a grande diferença é que estar desempregado nos Estados Unidos é bem mais difícil e, de forma alguma, uma alternativa interessante".

Assim, a empresa acabou contratando um terço de sua mão de obra da Tailândia – 160 de 450 funcionários – uma alternativa mais cara, mas que preencheu suas necessidades.

Trabalho agrícola não é interessante

As razões pelas quais o trabalho agrícola não é interessante para os portugueses são complexas, mas resumem-se a um simples fato: não são interessantes economicamente. Essa situação revela muito sobre os desafios que o país – assim como grande parte da Europa – enfrenta na luta para ganhar ímpeto econômico e para promover oportunidades de trabalho, especialmente para a geração mais jovem.

Portugal emergiu do seu resgate financeiro de 78 bilhões de euros (cerca de US$ 106 bilhões) em maio com mudanças na economia e nos benefícios sociais que não só alteraram o mercado de trabalho como também forçaram indústrias importantes a trilharem um terreno novo e incerto.

Para o setor agrícola, que representa aproximadamente 2,4% da produção econômica do país, o problema de encontrar mão de obra foi exacerbado pelos subsídios da União Europeia que valorizam mais a alta produção em detrimento da alta remuneração, pela combinação do salário mínimo português com os ainda grandes benefícios do seguro-desemprego e, sobretudo, pelo problema de imagem.

José Alberto Guerreiro, prefeito socialista do município de Odemira, sede da fazenda da RAC, disse que a escassez da mão de obra era um verdadeiro problema para as fazendas da região. Segundo ele, os jovens preferiam depender dos empregos do turismo no verão ou conseguir empregos melhores no estrangeiro a trabalhar em uma fazenda, que tem "baixa reputação em Portugal, como um trabalho do passado em vez de do futuro".

Salário mínimo baixo e benefícios generosos aos desempregados afastam os portugueses do trabalho agrícola
Patricia De Melo Moreira/The New York Times
Salário mínimo baixo e benefícios generosos aos desempregados afastam os portugueses do trabalho agrícola

Apoio demais aos desempregados

De qualquer modo, "Portugal tem um sistema de apoio ao desempregado que, financeiramente, tanto faz trabalhar ou não", Guerreiro disse. "Você precisa entender que nossa geração jovem foi educada para esperar o seu lugar ao sol – certamente não para acabar fazendo trabalho manual nos campos".

Laura Miquelino, de 32 anos de Odemira, está desempregada há um ano. Mesmo assim, conforme revelou, ela só trabalharia em uma fazenda por um salário mais elevado. Apenas os gastos com o combustível do trajeto de 16 quilômetros consumiriam boa parte do seu ordenado, ela contou.

"O governo português estabeleceu um salário mínimo que realmente não incentiva esse tipo de atividade, ou seja, pouco dinheiro por um trabalho duro e demorado", disse Miquelino, que antes trabalhava em uma creche.

Como parte dos termos do seu resgate financeiro, o governo reduziu para 18 meses o período de solicitação do seguro-desemprego, quase a metade do que era antes. Agora, está oferecendo isenção do pagamento da seguridade social às empresas que contratem novos empregados.

Contudo, essas medidas não criaram incentivo o bastante para muitos jovens portugueses. Os subsídios agrícolas da União Europeia agravaram o problema porque reduziram a pressão para reformar o setor agrícola e para reforçar sua lucratividade, segundo Catarina Santos Ferreira, advogada trabalhista da ABBC, empresa de advocacia portuguesa.

Quando a remuneração é bem baixa e as pessoas estão no seguro-desemprego, parece bem natural que elas prefiram receber o benefício, ficar em casa e não ter um trabalho duro" - Catarina Santos Ferreira, advogada da ABBC

"Os subsídios europeus deveriam ser usados para reestruturar as atividades agrícolas de forma que permitissem que as fazendas pagassem salários mais altos, mas não foi isso o que aconteceu", declarou Santos Ferreira. "Quando a remuneração é bem baixa e as pessoas estão no seguro-desemprego, parece bem natural que elas prefiram receber o benefício, ficar em casa e não ter um trabalho duro".

Mão de obra tailandesa

A RAC recorreu à importação da mão de obra da Ásia há três anos, bem no auge da crise econômica portuguesa.

Trazer os trabalhadores tailandeses exige documentações e prova de que a RAC não conseguiu encontrar trabalhadores locais. Recrutar um coletor tailandês custa a RAC quase 2.000 euros a mais por ano em relação à contratação da mão de obra local, já que a empresa custeia a viagem de ida e volta para a Tailândia e oferece alojamento, onde os trabalhadores dividem quartos com quatro ou seis beliches.

Mesmo assim, é interessante economicamente para a empresa. O retorno do investimento é alto porque os tailandeses trabalham de forma muito rápida e cuidadosa, sem amassar as framboesas delicadas, segundo Eduardo Lopez, californiano que dirige as operações da RAC em Portugal.

A RAC paga aos coletores de frutas o salário mínimo de Portugal, equivalente a US$ 770 (cerca de R$ 1.700) por mês. Mas também oferece um sistema de bonificação por produção extra, e os tailandeses aproveitam totalmente. No ano passado, os trabalhadores tailandeses ganharam um salário bruto mensal de cerca de US$ 1.440 (em torno R$ 3.100, aproximadamente US$ 135 (R$ 300) a mais que a média dos coletores de fruta da fazenda.

"Os tailandeses até nos pediram para suspender o horário de almoço para poderem trabalhar por mais tempo, mas isso é contra as leis trabalhistas portuguesas", Lopez disse. "Fizemos um esforço real para contratar mais pessoas da região, porém, isso nos trouxe muita decepção".

Hoje, quase 100 funcionários são portugueses, 50 dos quais colhem framboesas. O restante são os técnicos ou os que trabalham na administração. Além dos trabalhadores tailandeses, os outros são, em grande parte, do Leste Europeu, mas também de países como Brasil, Marrocos e Nepal.

Empresas de agricultura importam mão de obra de lugares tão distantes como a Tailândia
Patricia De Melo Moreira/The New York Times
Empresas de agricultura importam mão de obra de lugares tão distantes como a Tailândia

Trabalhadores de todas as partes

Murillo, gerente de produção de frutas da fazenda, é mexicano, mas veio parar em Portugal porque conseguiu trabalho legalizado aqui, segundo ele, após uma década nas fazendas da Califórnia como trabalhador clandestino – e uma vez até mesmo foi deportado de volta ao México pelas autoridades americanas. "A minha experiência de trabalho nos EUA é parecida com o trabalho por aqui, no sentido de que nenhum americano quer estar nos campos da Califórnia", contou.

Sunil Pun, coletor de frutas nepalês, disse que muitos nepaleses também se mudavam para Portugal porque era relativamente fácil ganhar o visto de trabalho. Pun anteriormente trabalhou em uma fazenda de frangos na Polônia. "A remuneração é melhor no nordeste da Europa, mas o tratamento aqui é mais igualitário e existe menos racismo", declarou.

Paul Doleman, consultor agrícola holandês que trabalha em Portugal há 25 anos, disse que a dependência de Portugal dos trabalhadores estrangeiros havia aumentado mesmo antes dos anos de crise. Na região de Odemira, mais de 60% dos 5.000 trabalhadores rurais agora são estrangeiros, estimou. Ele argumentou que o governo português deveria promover mais treinamento vocacional, inclusive "garantindo que a agricultura seja valorizada como profissão e não vista como a pior de todas as opções".

Refletindo esse ponto de vista, Carlos Bernardino, engenheiro químico e membro eleito da assembleia local de Odemira, disse, "Todos aqui querem trabalhar na administração pública, mas não conheço ninguém que queira trabalhar na agricultura".

Os tailandeses trabalham cerca de oito meses nas fazendas de framboesas e depois normalmente retornam à Tailândia durante o intervalo de inverno de Portugal, para passar um tempo com os familiares e para o cultivo de arroz.

"Os tailandeses trabalham bem rápido e demonstram verdadeiro respeito, mesmo com as dificuldades com a língua", declarou Nedyalko Valkanov, supervisor de produção búlgaro da fazenda RAC, que disse ter aprendido um pouco de tailandês para melhorar as comunicações.

Maria Graça Mateus Ricardo, uma das coletoras de fruta da fazenda portuguesa, disse que estava acostumada a trabalhar ao lado dos estrangeiros, mas mesmo assim se irritava porque "nosso governo dá subsídios para as empresas estrangeiras investirem em Portugal, mas então essas empresas trazem trabalhadores do exterior".

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