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Segundo Cristina Kirchner, o governo tem intenção de negociar com todos os credores; milhares de simpatizantes do governo fazem protesto em frente à embaixada dos Estados Unidos

Reuters

Manifestantes protestam em Buenos Aires em apoio ao governo e contra decisão da justiça dos EUA
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Manifestantes protestam em Buenos Aires em apoio ao governo e contra decisão da justiça dos EUA

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse nesta sexta-feira (20) que o governo quer negociar com todos os credores, em meio a expectativas de que o país está pronto para iniciar conversas com detentores de bônus que se recusaram a participar da reestruturação da dívida.

"Queremos pagar 100% dos credores", afirmou ela em discurso no dia da bandeira na Argentina. O comentário provocou forte contração nos spreads de risco do país. Manifestantes foram para as ruas para dar apoio ao governo.

O país trava uma batalha de 12 anos na justiça dos Estados Unidos com credores que não participaram das reestruturações de 2005 e 2010, nas quais mais de 90% dos detentores aceitaram reduzir para um terço o valor original dos títulos.

E até então, a Argentina vinha se negando a negociar com credores que ficaram de fora da reestruturação. A presidente chegou a classificá-los como "abutres" que buscam levar vantagem da crise de dívida soberana de 2002, que levou milhões de argentinos de classe média para a pobreza.

Nesta sexta-feira, o tom mais duro de Cristina desapareceu do discurso. "A Argentina quer ter um diálogo", disse ela.

Leia também : Argentina diz ser impossível pagar dívida em junho e deve dar calote

Além do reflexo no mercado financeiro, o discurso de Cristina e o endurecimento da justiça norte-americana provocaram protestos na capital argentina. Cerca de 2 mil pessoas se reuniram nesta sexta-feira na área próxima a embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires.

O próximo pagamento da dívida reestruturada deve ocorrer em 30 de junho. Se a Argentina não fizer o pagamento a tempo, teria um período de carência de 30 dias antes de cair em default técnico, o calote.

"Eu dei instruções ao nosso Ministério da Economia e para os nossos advogados pedirem à justiça para gerar as condições para se chegar a um acordo que seja benéfico e igualitário para 100% dos credores", afirmou a presidente.

As ações argentinas negociadas nos Estados Unidos subiram com os comentários. O índice do Bank of New York de ADRs argentinas subiu mais de 6,6%. No entanto, na semana, o índice avançou 1,2%.

Os spreads de risco argentinos encolheram mais de 100 pontos-base em relação aos títulos da dívida dos EUA, de acordo com o JP Morgan Emerging Markets Bond Index Plus (EMBI+), que no geral ficou em 284 pontos-base sobre os Treasuries.

Reservas menores

A motivação da presidente argentina é resolver o litígio e permanecer o ano e meio restante no cargo sem o tumulto financeiro que iria acompanhar um default.

Cristina está constitucionalmente impedida de buscar um terceiro mandato na eleição presidencial marcada para outubro de 2015.

Os principais candidatos à sucessão de Cristina dizem que pretendem seguir políticas mais favoráveis ​​ao investimento. O governo dela ampliou o papel do Estado na terceira maior economia da América Latina, com pesados controles cambiais, barreiras de importação, impostos sobre a exportação de grãos de soja e controles sobre milho e embarques de trigo.

O impasse nos tribunais norte-americanos tem impedido o país de acessar o mercado de títulos global. O financiamento externo é necessário para melhorar a infraestrutura agrícola da Argentina e estimular a economia que enfrenta alta inflação e diminuição das reservas do banco central para mínimos em oito anos de US$ 28,5 bilhões.

O valor das reservas não é muito, considerando os quase US$ 6 bilhões em pagamentos de dívidas que o governo enfrenta este ano e os cerca de US$ 10 bilhões em 2015, de acordo com o Ministério da Economia.

Além disso, a Argentina fechou acordo de US$ 5 bilhões de compensação com a espanhola Repsol pela nacionalização em 2012 da sua subsidiária argentina YPF e concordou em pagar US$ 9,7 bilhões em dívidas vencidas com Clube de credores de Paris.

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