Tamanho do texto

Com os custos trabalhistas subindo na China, empresas dos Estados Unidos olham para o país vizinho com avidez

NYT

Jason Sauey os chama de lemingues – todas as empresas americanas que correram para a China para fabricar coisas como brinquedos e escovas de privada, somente para agora pesquisar alternativas no México e nos Estados Unidos.

Réplicas de pássaros em fábrica de Salti­llo, no México
NYT
Réplicas de pássaros em fábrica de Salti­llo, no México

Sua empresa de plásticos de propriedade familiar, Flambeau, quase cometeu o mesmo erro em 2004, quando os concorrentes que recorriam à China cortaram os preços e ganharam participação no mercado.

A Flambeau resistiu com sua fábrica no centro do México. E agora a empresa – que produz ioiôs Duncan, chamarizes para caça, estojos plásticos e uma série de artigos industriais – está embolsando a recompensa, disse Sauey.

Leia mais:  A poucos dias da Copa, lojas fazem saldão de produtos do Fuleco

A receita da fábrica mexicana cresceu 80% desde 2010, segundo os registros da companhia, levando à busca por uma segunda instalação nos arredores da Cidade do México. E no ano passado, uma dúzia de firmas procurou a Flambeau e pediu ofertas em projetos na casa de dezenas de milhões de dólares para objetos como estojos para smartphones e autopeças.

"Estão todos procurando um modelo novo", afirmou Sauey em seu escritório em Middlefield, Ohio. "A questão não se resume ao custo; tem a ver com a velocidade da resposta e com a qualidade".

Operários mexicanos cada vez mais procurados

Com os custos trabalhistas subindo rapidamente na China, fabricantes americanos de todos os tamanhos olham para o México com o que os economistas afirmam ser uma avidez não enxergada desde os primeiros anos do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) na década de 1990. De cidades fronteiriças como Tijuana às planícies centrais onde fábricas novas ocupam terras agrícolas, os operários mexicanos são cada vez mais procurados.

O comércio americano com o México cresceu quase 30% desde 2010, somando US$ 507 bilhões anuais, e o investimento estrangeiro direto no país bateu o recorde no ano passado, alcançando os US$ 35 bilhões. Nos últimos anos, produtos manufaturados mexicanos tiveram uma participação maior no mercado importador dos Estados Unidos, resultando numa alta de 14%, segundo o Fundo Monetário Internacional, enquanto a participação da China caiu.

"Quando os salários chineses dobram a intervalos de poucos anos, todo o cálculo muda", afirmou Christopher Wilson economista do Instituto México, do Centro Internacional Woodrow Wilson para Acadêmicos, em Washington. "O México se tornou o lugar mais competitivo para fabricar artigos para o mercado americano, é claro, e também virou um dos locais mais competitivos para fabricar alguns produtos para o mundo inteiro".

Muitas empresas americanas estão se expandindo no México – incluindo marcas conhecidas como Caterpillar, Chrysler, Stanley Black & Decker e Callaway Golf –, acrescentando bilhões de dólares em investimentos e ajudando a estimular a integração econômica que os presidentes Barack Obama e Enrique Peña Nieto descreveram como vital para o crescimento.

Enquanto isso acontece, algumas empresas estão deixando a China e rumando para o México visando fabricar uma série de produtos, tais como fones de ouvido (Plantronics), bambolês (Hoopnotica), escovas para privada (Casabella), churrasqueiras e móveis para ambientes externos (Meco Corp.), suprimentos médicos (DJO Global) e armários industriais (Viasystems Group).

Vizinhos costumam dividir mais a produção

E embora em alguns casos a mudança para o México esteja ligada a cortes de empregos nos EUA, economistas dizem que a economia americana ganha mais terceirizando a fabricação no México do que na China porque vizinhos costumam dividir mais a produção. Quase 40 por cento das peças encontradas nas importações mexicanas vinham originalmente dos Estados Unidos, contra apenas 4% das importações chinesas, segundo o Bureau of Economic Research, grupo de pesquisa particular.

Ioiôs fabricados pela Dunca­n em uma fábrica da Flamb, em Saltillo, México
NYT
Ioiôs fabricados pela Dunca­n em uma fábrica da Flamb, em Saltillo, México

Tais comparações parecem ter enfraquecido parte da zombaria que as empresas americanas ouviram ao mudar a produção para o México na década de 1990. E mesmo assim, para a relação econômica atingir seu potencial pleno, especialistas, autoridades e executivos argumentam que os EUA precisam tornar a eficácia comercial tão importante quanto a segurança na fronteira.

As longas esperas na fronteira continuam frustrando muitas empresas. Ao mesmo tempo, o México precisa superar problemas antigos, tais como educação, crime organizado e corrupção.

Entretanto, para cada Flambeau bem-sucedida, parece haver uma KidCo, outro fabricante do Meio-Oeste, que desistiu de tentar mudar a produção da China para o México no ano passado.

"É mais conveniente voar para o México do que para a China", disse Ken Kaiser, proprietário da companhia. "Porém, simplesmente não conseguimos encontrar um jeito de lucrar com a mudança. Demorou uma eternidade para obter uma mera cotação de preço".

Não existe em México só, mas vários

Dezenas de entrevistas com executivos, economistas e autoridades mexicanas e americanas no último ano mostraram que o que muitas empresas estão descobrindo é que não existe um México só, mas vários.

Apesar dos muitos sinais promissores, ele ainda é um país de grandes diferenças em termos de eficácia e educação, com somente uma pequena minoria da população com a formação necessária para competir com o mundo. Principalmente no caso das fábricas norte-americanas de médio porte e de propriedade familiar como KidCo e Flambeau, o México tanto decepciona quanto satisfaz.

A Flambeau não está imune aos problemas que mantiveram a KidCo na China. "No México, o quase certo já está bom, a segunda linha está ótima", afirmou Edward Treanor, gerente da fábrica da Flambeau em Saltillo.

A rotatividade da mão de obra, problemas de manutenção e qualidade inconsistente têm afetado o resultado final há anos. Porém, como o México fica mais perto do que a China, acrescentou Treanor, a Flambeau podia fazer mais para resolver o problema. Poucos meses atrás, a firma enviou um funcionário norte-americano de confiança para supervisionar a manutenção em tempo integral e melhorar a operação da fábrica.

Especialistas afirmam que esse é o tipo de empresa tendo sucesso agora no México, grandes o bastante para administrar fábricas próprias e que não abrirão mão do conhecimento técnico terceirizado na China.

Leia também: C onstrutora promete condomínio grátis, mas é preciso pagar antes

"Não faltam exemplos de clientes que foram do México à China e agora querem voltar, e a maioria deles abriu mão do conhecimento na fabricação", disse Scott Stanley, vice-presidente da North American Production Sharing, uma das maiores consultorias a ajudar empresas norte-americanas a instalar fábricas no México.

Para atrair mais empresas agora, executivos, autoridades e especialistas afirmam que o México e os Estados Unidos precisão se tornar vizinhos melhores, mais concentrados em compartilhar mão de obra e transportar produtos.

Wilson, do Instituto México, pediu especificamente o foco em "mão de obra plenamente alfabetizada nos dois países".

"Num nível bem básico, isso significa ensinar mais espanhol nos EUA e mais inglês no México." Outras mudanças mais imediatas também são necessárias, incluindo tempo de espera menor na fronteira, estradas melhores e ganhos de produtividade, por exemplo, reduzindo o custo da eletricidade. Afinal, como a ascensão da China já demonstrou, não existe garantia de que as fábricas norte-americanas e mexicanas continuarão atraentes por muito tempo.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.