Tamanho do texto

Chineses apostaram no novo serviço acreditando na promessa de remuneração melhor que os bancos tradicionais

NYT

Em junho, uma afiliada do Alibaba, a gigante chinesa do e-commerce, fez uma oferta para suas centenas de milhões de usuários: dê seu dinheiro para nós, e pagaremos mais do que os bancos chineses.

Os poupadores foram em massa até a empresa em busca de taxas de juros significativamente mais altas do que as fixadas pelo governo. Em fevereiro, 81 milhões de pessoas estavam participando do serviço financeiro da empresa, o Yu'e Bao, que pode ser traduzido como tesouro esquecido.

Zhou Xiaoming, da Tianhong Asset Management, que colaborou com o Alibaba para lançar o Yu'e Bao, serviço financeiro que paga mais que os bancos, em Pequim
NYT
Zhou Xiaoming, da Tianhong Asset Management, que colaborou com o Alibaba para lançar o Yu'e Bao, serviço financeiro que paga mais que os bancos, em Pequim

Agora, o fundo faz a gestão de US$ 40 bilhões em ativos, o que o transformou no maior fundo do mercado financeiro da China.

Outras grandes empresas chinesas da internet fizeram o mesmo, prometendo retornos ainda mais altos que o Yu'e Bao. O resultado foi um ataque contra um dos principais instrumentos utilizados pelo governo chinês para fazer a gestão da economia: a taxa de juros.

"Esse é o início da liberalização da taxa de juros", afirmou Chang Chun, do Instituto Avançado de Finanças da Universidade Jiao Tong, em Xangai. "As pessoas querem um lucro maior em troca de seus depósitos bancários e essa é uma forma de fugir da regulamentação".

LEIA TAMBÉM:  Bancos criam dificuldades para cliente migrar crédito com juro menor

Jack Ma, o extravagante e afiado diretor do Alibaba, insiste que as regulamentações chinesas sufocam os pequenos investidores e os consumidores médios. Ele jurou abalar o sistema bancário e o setor de serviços financeiros do país.

"A indústria financeira precisa de novos rumos para fazer uma revolução", afirmou durante um discurso em junho do ano passado.

Os maiores beneficiados são os poupadores chineses, que agora recebem até 7% ao ano por seus depósitos em dinheiro. Os bancos tradicionais raramente são tão generosos. Atualmente, eles pagam 3,3%.

Controle dos juros continua em prática na China

Por anos, políticos chineses prometeram liberalizar as taxas de juros como parte de uma reforma ousada, com o objetivo de permitir que as forças do mercado tivessem um papel maior na economia, para que pudesse crescer de forma mais sustentável e saudável. Entretanto, provavelmente por conta da forte oposição dos bancos e de outras instituições bancárias, os controles da taxa de juros continuam em prática.

Analistas afirmam que a decisão do governo de permitir que as empresas de internet oferecessem serviços financeiros e de investimento é um esforço para criar alternativas aos bancos estatais e, por consequência, diminuir os controles do Estado sobre as taxas de juros.

Embora os valores envolvidos sejam relativamente pequenos – cerca de US$ 50 bilhões em uma economia de US$ 9 trilhões – o crescimento fenomenal dos serviços financeiros na internet está intensificando a concorrência pelos depósitos e pressionando os bancos estatais chineses, que já têm dificuldades para lidar com a falta de dinheiro.

Os serviços financeiros pela internet também estão aparecendo em um momento em que o governo tenta conter o shadow banking, que poderia mascarar riscos e problemas enormes que ocorrem longe dos olhos atentos dos reguladores.

"Vampiros que sugam o sangue dos bancos"

Nem todo mundo ficou satisfeito. Nas últimas semanas, os críticos se referiram aos produtos online como "vampiros que sugam o sangue dos bancos" e alertaram que os investidores talvez não tenham ciência dos riscos. Os reguladores chineses afirmaram, no fim de fevereiro, que estão pensando em novas regras para administrar o setor.

Por sua vez, os líderes dos serviços financeiros pela internet, tais como o Alibaba, o Baidu e o Tencent, minimizam os riscos de seus novos produtos de investimento. As empresas afirmam que estão operando dentro dos limites da lei e que o dinheiro está sendo colocado em investimentos de baixo risco.

Obviamente, existem desafios consideráveis no futuro dos serviços financeiros pela internet na China. Por exemplo, embora os depósitos online sejam vendidos como se fossem poupanças, eles são produtos de investimento com um risco intrínseco. O princípio não é garantido e se os clientes começarem a sofrer perdas, afirmam os analistas, pode ser que ocorra uma onda repentina de saques.

Na última década, o governo ajudou os bancos estatais por meio da criação de um teto para a taxa de juros das poupanças e de uma base para a taxa de juros para empréstimos fornecidos pelos bancos. A diferença entre as duas, ou a extensão dos juros líquidos, ajudou os bancos a embolsarem os lucros de que precisavam para se reestruturarem após as perdas dos anos 1990.

Os poupadores, por outro lado, perderam valor sobre os depósitos em dinheiro, já que a inflação costuma ser mais alta que o valor pago pelas poupanças controladas pelo governo. Economistas afirmam que a política funcionou como um imposto cobrado dos correntistas.

Isso também forçou muitos ricos chineses a investir em hard assets: arte, ouro e imóveis.

Nos últimos anos, muitos investidores também buscaram obter lucros mais altos por meio da compra de produtos de gestão de fortunas, através de empresas de leasing financeiro.

Todavia, esses produtos podem ser arriscados, uma vez que o dinheiro muitas vezes é utilizado para financiar empréstimos com altas taxas de juros para construtoras e empresas estatais de infraestrutura.

Agora, os investidores estão se voltando aos produtos de investimento online.

Chineses têm menos opções de investimento que no Ociente

As taxas de juros mais altas oferecidas por produtos como o Yu'e Bao estão expondo uma fraqueza do sistema financeiro da China, onde os investidores têm menos opções que no Ocidente, especialmente quando se trata de taxas de juro fixas.

As maiores empresas da internet chinesa estão começando a colocar em xeque esses controles, ao oferecerem lucros consideráveis, voltados a poupadores convencionais com dinheiro sobrando; pessoas como Gao Yue, uma consultora de planos de saúde de 25 anos, de Pequim. Desde outubro, ela já investiu cerca de US$ 15 mil em sua nova conta no Yu'e Bao.

"Desde que o rendimento seja maior do que o que eu recebo pelos depósitos bancários comerciais, fico contente em colocar meu dinheiro ali", afirmou em uma entrevista. "É melhor que perder dinheiro para a inflação".

O Alibaba foi o primeiro a adotar a nova linha de negócios. A empresa dominou os serviços de compras online por anos com seus sites populares Taobao e Tmall, e chegou mesmo a criar um serviço que empresta dinheiro para pequenas empresas.

Em 2013, o serviço de pagamentos online da empresa, o Alipay (uma espécie de versão chinesa do PayPal) passou a realizar serviços bancários e financeiros ao firmar uma parceria com a Tianhong Asset Management, uma pequena empresa estatal. (Em outubro, o Alipay concordou em pagar US$ 200 milhões para passar a controlar a Tianhong).

TAMBÉM:  Financeiras criam forma de driblar limites do empréstimo consignado

Os 800 milhões de usuários registrados do Alipay foram encorajados a transferir o dinheiro que ainda tinham em sua conta de compras online para o Yu'e Bao, o novo fundo online criado pela parceria entre o Alipay e a Tianhong. As taxas oferecidas pela Tianhong eram mais altas que as dos bancos.

Pouco depois, o Yu'e Bao decolou. Os analistas afirmam que a simplicidade e a conveniência são os fatores mais chamativos. Os usuários com contas no Alipay podem começar com transferências de apenas um yuan, ou cerca de US$ 16 centavos, e tirar o dinheiro a qualquer momento, sem ser penalizado. Eles também podem receber atualizações diárias dos ganhos através de seus aparelhos móveis.

"O que torna o Yu'e Bao atraente é seu tamanho diminuto", afirmou Joe Zhang, banqueiro de Hong Kong. "Não é preciso investir muito dinheiro. E quanto menor, melhor é o serviço".

Pequenos bancos estão desesperados para obter dinheiros

O Yu'e Bao consegue oferecer taxas de juros tão altas porque, segundo os executivos da empresa, eles investem a maior parte dos fundos no mercado interbancos, onde bancos e outras instituições financeiras fazem empréstimos entre si, geralmente por períodos curtos de tempo. As taxas no mercado interbancos cresceram rapidamente na China durante o ano passado porque os bancos, especialmente os menores, estão desesperados para obter dinheiro.

Os analistas dizem que o crescimento na taxa de juros interbancos é um sinal do estresse exercido sobre o sistema bancário, o que significa que bancos e instituições financeiras podem começar a dar calote; ou, caso as condições melhorem, as taxas de juros interbancos poderiam despencar, gerando juros e, consequentemente, lucros mais baixos para os consumidores.

Mesmo assim, os serviços financeiros online ainda parecem ser uma alternativa lucrativa. Com US$ 40 bilhões em ativos sob sua gestão, o Alibaba e seus parceiros devem obter uma receita de cerca de US$ 250 milhões anuais, apenas com as taxas de gestão e serviço. O Baidu e o Tencent formaram uma parceria para oferecer novos fundos ao lado de outras financeiras, incluindo a estatal China Asset Management Co.

"Os serviços financeiros pela internet chegaram para ficar", afirmou Johnson Chng, especialista bancário da A.T. Kearney, uma empresa de consultoria global. "As empresas virtuais visam um segmento ignorado pelos bancos".

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.