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Turbulências políticas na Argentina e na Venezuela contribuíram para a desaceleração dos investimentos

O ano passado foi marcado pela cautela das empresas brasileiras que investem na América Latina, com a sequência do movimento de desaceleração do anúncio e da realização de novos projetos de investimentos em países vizinhos. A avaliação é do Centro de Integração para o Desenvolvimento (Cindes), um dos principais organismos de análise e diagnóstico do processo de internacionalização das empresas brasileiras.

A instabilidade política e econômica de países-chave, como Argentina e Venezuela, pode estar na origem do fenômeno. Não por acaso, a mais vistosa exceção a esse quadro de revisão de prioridades é o México, onde a Odebrecht anunciou a intenção de investir mais de US$ 8 bilhões em uma ampla gama de iniciativas.

A Petrobras vendeu operações na Colombia e no Peru, para aplicar na exploração do pré-sal no Brasil
Thinkstock/Getty Images
A Petrobras vendeu operações na Colombia e no Peru, para aplicar na exploração do pré-sal no Brasil

O número de projetos anunciados em 2013, apenas 11, é um indicador de que as perspectivas de investimentos das empresas brasileiras em direção à América do Sul e ao México para este ano não dão margem para previsões muito otimistas. Esse número é o menor desde 2007, de acordo com o Cindes, e sugere a continuidade do processo de ajuste dos projetos brasileiros no exterior.

O Cindes identifica, em contraponto ao pequeno número de projetos anunciados, investimentos de grande porte em infraestrutura. Esses projetos maiores podem gerar um efeito de encadeamento, atraindo outras empresas brasileiras para países da região, como Peru e México.

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Para o documento do Cindes (o InexInvest), as turbulências macroeconômicas e o cenário político de grande conturbação explicam não apenas a redução do ritmo de novos investimentos, mas também a decisão de desinvestimento de algumas empresas.

Em outros casos, a tendência observada reflete dificuldades financeiras enfrentadas por certas empresas ou decisões estratégicas de companhias que já tinham planos de se desfazer de ativos na área internacional. O exemplo mais marcante desse ajuste é a Petrobras, que, para ajudar a custear investimentos na exploração do pré-sal, incluiu em seu Plano de Negócios e Gestão uma meta de venda de US$ 13,5 bilhões em ativos.

Não faltam exemplos de negócios motivados por dificuldades dos grupos no próprio Brasil, independentemente do desempenho e das perspectivas de seus negócios no exterior. As empresas do grupo de Eike Batista ilustram essa correlação. No início de 2013, companhias do grupo EBX, como a MMX e a CCX, anunciaram a venda de seus ativos no Chile e na Colômbia, respectivamente. A MMX concluiu a venda no fim do ano. A CCX, por sua vez, fechou um memorando de entendimentos com a turca Yildirim Holdinds e aguarda a concretização do negócio.

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Ainda no início do ano, a Brahma (grupo Ambev) decidiu encerrar sua produção na Venezuela e a Vale desistiu do projeto Potasio Río Colorado, na Argentina, que previa investimentos de mais de US$ 5 bilhões.

A Petrobras vendeu 100% das ações de sua subsidiária integral Petrobras Energia Peru e 100% das ações da Petrobras Colombia. A companhia ainda vendeu a participação de dois blocos no Uruguai. A Vale, por sua vez, vendeu a mina de cobre Tres Valles, no Chile.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em 2003, teve como uma de suas marcas o forte incentivo à internacionalização das empresas brasileiras. O economista Adhemar Mineiro destaca o chamamento direto do presidente e a diplomacia econômica junto a países da África e da América do Sul, traduzidos na oferta agressiva de linhas de crédito para exportação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“Os acordos bilaterais e, em especial, o fomento de infraestrutura em países como Peru, Equador e Venezuela, resultaram na abertura de espaços para empreiteiras, mineradoras e fabricantes de equipamentos,” exemplifica Mineiro.

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