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Quatro itens que compõem o IPCA responderam sozinho por 43% da alta de 0,69% dos preços em fevereiro

A inflação de 0,69% de fevereiro , medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), veio marcada pela indexação, preocupante para o Banco Central e economistas. Quase a metade da alta, 43%, partiu de quatro itens — cursos regulares, energia elétrica, aluguel e condomínio —, todos reajustados anualmente, seguindo diferentes indicadores econômicos. Assim, o custo de vida atingiu no mês passado o maior patamar registrado em um mês de fevereiro desde 2011 (0,80%).

Alta do grupo Educação foi de 5,97% em fevereiro
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Alta do grupo Educação foi de 5,97% em fevereiro

A principal pressão veio do grupo Educação, com avanço de 5,97%, após ter subido 0,57% em janeiro. Neste grupo, além da inflação passada entra ainda no reajuste a perspectiva de como se comportarão os custos até a revisão seguinte. A alta verificada é tradicional nos meses de fevereiro, salienta a gerente do IPCA, Irene Machado. Ela admite, no entanto, que ocorre sobre uma base de preços elevada, após aumentos sucessivos, ano a ano. Em 2013, o grupo Educação registrou alta de 5,77%. Dentro do grupo, o principal responsável pela inflação, em 2014, foi o segmento de cursos regulares, da creche à universidade, cujo avanço foi de 7,64%, o maior impacto individual de todo IPCA no mês. E, neste caso, entre as regiões, o destaque foi o Rio de Janeiro, cuja alta, de 11,72%, supera de longe o teto da meta de inflação oficial, de 6,5%.

Para chegar ao percentual de reajuste das mensalidades, as escolas consideram, principalmente, os aumentos salariais dos professores, além de uma planilha de custos projetados para todo ano. No caso do acordo com os professores, é negociado o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (INPC), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

“O grande peso é a folha de pagamento. Mas pesa também o critério de oferta e demanda, de capacidade das famílias incluírem a educação em seus custos. Assim, de alguma forma, conversamos também com o comportamento dos preços de outros itens que não dizem respeito exatamente à educação, como alimentação e saúde, por exemplo”, afirma a diretora Financeira do Sindicato das Escolas Particulares do Rio de Janeiro, Cláudia Costa. Na média do estado, a revisão das mensalidades foi de 9%, informa ela, abaixo da registrada no município do Rio.

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“Aconteça o que acontecer, as mensalidades escolares permanecerão as mesmas ao longo de todo ano. Isso faz com que as escolas se protejam de eventuais aumentos de custo. Com o agravante de que o custo de moradia do professor do Rio está mais alto do que o da maioria das demais cidades brasileiras. O que bate na economia individual acaba repercutindo na economia coletiva”, argumenta o presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Município do Rio de Janeiro (Sinepmrj), Edgar Flecha Ribeiro, ao comentar a alta das mensalidades na cidade, acima da média do estado.

Ao todo, existem atualmente, 11 indicadores utilizados para balizar contratos na economia brasileira — cinco da Fundação Getúlio Vargas (FGV), quatro da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), e dois do IBGE. Alguns deles são formalmente utilizados nas revisões contratuais, como o IGP-M, nos alugueis. E há ainda os reajustes informais, que não estão previstos em contrato. Esse tem sido motivo de preocupação recorrente para o Banco Central, como demonstram as atas das reuniões do Copom.

Silvia Matos, da FGV, ressalta que a indexação atinge especialmente o setor de serviços. “Mais ou menos 70% dos itens de serviços têm rodado com inflação igual ou acima de 6,5%, acima do teto da meta. Eles representam 35% do IPCA, o que caracteriza a dispersão de reajustes elevados. Para quebrar o ciclo, os salários não podem crescer acima da capacidade da economia e isso só é possível com ganho de produtividade”, diz a economista.

Em sua opinião, o problema da indexação está diretamente relacionada ao debate sobre a disponibilidade e capacitação da mão de obra, principalmente, no setor de serviços. “ É natural que num processo de crescimento de renda haja uma pressão em serviços. O problema do Brasil é que a inflação de serviços está resistente, mesmo com a economia crescendo menos”, ressalta.

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