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Na versão britânica do Banco Imobiliário, o espaço mais cobiçado no jogo de tabuleiro é Mayfair, onde fica o Claridge's

NYT

Imagem mostra a fachada do Claridge's, um dos hotéis mais exclusivos de Londres
Tom Jamieson/The New York Times
Imagem mostra a fachada do Claridge's, um dos hotéis mais exclusivos de Londres

Seria de se pensar que poucos troféus seriam mais atraentes para os magnatas do que o Claridge's, a grande dama dos hotéis de luxo de Londres, com uma antiga história de compradores tentadores e rixas entre cavalheiros provocantes.

Desde o século XIX, monarcas e celebridades se retiraram a suas suítes com diárias de US$ 20 mil ou se entregaram ao chá com bolinhos na sala de leitura art déco. Há pouco tempo, o hotel estrelou um documentário de sucesso da BBC, que registrou os bastidores dos dramas diários de funcionários cujas tarefas incluem afofar a roupa de cama para princesas estrangeiras (quatro edredons são necessários).

Porém, o relato verdadeiro é mais sombrio: uma batalha de matar ou morrer pela propriedade do hotel entre magnatas britânicos e irlandeses concorrentes que juraram vencer a rixa épica ou, se necessário, fazer com que filhos e netos deem continuidade à disputa.

"O Claridge's é um troféu e um brinquedo corporativo", diz David Heathcote, historiador arquitetônico da Inglaterra. "É o carro-chefe que diz mais sobre você do que o dinheiro porque tem uma aura histórica que o torna uma supermarca." Segundo ele, na versão britânica do Banco Imobiliário, o espaço mais cobiçado no jogo de tabuleiro é Mayfair, o exclusivo bairro londrino de lojas de design e restaurantes refinados onde fica o Claridge's.

Peças no tabuleiro

Os jogadores deste Banco Imobiliário de verdade são, de um lado, David Rowat Barclay e Frederick Hugh Barclay, bilionários solitários da mídia britânica e gêmeos idênticos de quase 80 anos de idade. Eles são donos do jornal "Telegraph", do hotel Ritz, em Londres, e moram quase o tempo todo numa ilha particular ao largo da França – em um castelo neogótico protegido por um fosso.

O adversário é Patrick McKillen, 58 anos, empreendedor da Irlanda do Norte que transformou a rede de oficinas especializadas em escapamento de automóveis da família em uma fortuna em propriedades na Irlanda e em 36% de participação na empresa controladora do Claridge's, conhecida como Coroin, também proprietária de outros dois hotéis londrinos. McKillen é tão avesso à publicidade que durante anos a única fotografia dele que os jornais de Dublin podiam publicar era um retrato de 1989 em que ele aparece de smoking e gravata borboleta.

A briga pelo Claridge's faz parte do legado do fracasso econômico irlandês, que deixou as propriedades dos magnatas irlandeses vulneráveis à tomada de controle quando o preço dos imóveis despencou e os empréstimos foram cobrados. Entretanto, essa também é uma saga da guerra empresarial empreendida ao redor do planeta com tramas secundários em Monte Carlo, Catar e uma aparição breve de Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, que interviu tentando fechar um acordo.

Guerra empresarial

McKillen disse ter gasto mais de 20 milhões de libras esterlinas em custas legais para combater os irmãos Barclays pela posse do Claridge's e seus outros hotéis. Não é dinheiro de mentirinha para o empreendedor, segundo o qual esses prédios históricos só ficam disponíveis uma vez por geração.

"Eu adoro esses hotéis e investi tanto neles. Por causa da crise bancária irlandesa, os Barclays viram uma oportunidade de entrar em cena e tomá-los para si de uma forma muito agressiva. Eu não serei nem pressionado nem intimidado."

Os Barclays, seus advogados e consultores têm uma visão menos otimista. De acordo com eles, McKillen mantém a posição para que seus "ativos bons" o protejam contra as dívidas na Irlanda de mais de 800 milhões de euros.

Embora os dois lados concordem em pouca coisa, eles usam a mesma estratégia do Banco Imobiliário: não ter misericórdia na guerra pelo controle.

Faz apenas uma década que os famosos hotéis ingleses caíram nas mãos da florescente economia irlandesa, então conhecida como "tigre celta". McKillen integrava um grupo bem-sucedido de investidores irlandeses liderados por um antigo fiscal de renda de Dublin que organizou o acordo de 890 milhões de euros para comprar os hotéis cobiçados. A princípio, McKillen comprou uma participação de 20% no consórcio e convocou outros investidores abastados irlandeses, incluindo os criadores do show "Riverdance" e o então presidente do banco Anglo Irish.

Hoje em dia, McKillen, que ainda detém um papel proeminente na reforma dos hotéis, caminha a passos largos pelo saguão do Claridge's – com seus painéis de cristal Lalique – transbordando confiança. Vestido informalmente com paletó preto 

Dior e camisa com o colarinho desabotoado, ele mais parece um marchand do que um magnata corporativo. Trata-se de um mundo muito diferente daquele onde ele cresceu, no lado oeste de Belfast, em Andersonstown, baluarte católico que era o centro da agitação do período agora conhecido como o Conflito na Irlanda do Norte.

A aquisição da Coroin foi financiada em parte por meio de empréstimos do banco Anglo Irish. Essa instituição logo viria a quebrar sob o peso dos empréstimos ruins e seria encampado pelo governo enquanto a Irlanda mergulhava na crise econômica. Com os imóveis chegando ao fundo do poço e o sistema bancário implodindo, o consórcio irlandês original que comprou os hotéis começou a cambalear.

Foi então que os irmãos Barclay começaram a circular. Tornados cavaleiros pela rainha Elizabeth em 2000 pelas contribuições filantrópicas à pesquisa médica, os gêmeos são filhos de pais escoceses católicos. Os irmãos começaram pintando casas, passaram para o mercado imobiliário e começaram a comprar pensões antigas para transformar em hotéis. Na verdade, o histórico deles não é muito diferente do de McKillen, ainda que os estilos pessoais sejam muito distintos.

Ao contrário de outros magnatas imobiliários irlandeses, McKillen astuciosamente começou a diversificar os investimentos na Irlanda antes do começo da recessão em 2008. Por causa disso, ele não naufragou, chegando a aumentar a participação na Coroin para 36%, tendo também evitado o destino humilhante de um de seus colegas investidores no hotel, Derek Quinlan, ex-fiscal de renda cujas casas foram tomadas pelos bancos, em conjunto com um iate Falcon e uma pintura de cifrão feita por Andy Warhol.

Tradicional hotel londrino é motivo de disputa entre Patrick McKillen e os irmãos Barclay
Tom Jamieson/The New York Times
Tradicional hotel londrino é motivo de disputa entre Patrick McKillen e os irmãos Barclay

Trunfo não triunfal

McKillen dispunha de um trunfo crucial: um acordo blindado entre os investidores originais que lhe dava o direito de comprar qualquer participação na Coroin colocada à venda. Pelo menos ele pensava que fosse blindado.

Em 2011, os gêmeos Barclay acharam um jeito de driblar legalmente o acordo. Eles se aliaram a Quinlan, depois de sete reuniões no Cafe de Paris em Monte Carlo. Com o império desmoronando, Quinlan transferiu o controle com direito a voto de sua participação de 35,4% para os irmãos, que compraram os empréstimos concedidos pelo Banco Real da Escócia e protegidos por suas ações. Eles também ajudaram Quinlan, segundo documentos do tribunal, com empréstimos de quase US$ 4 milhões.

Os Barclays aumentaram ainda mais a fatia na Coroin comprando uma holding cipriota de outro investidor no hotel, Peter Green, novamente driblando legalmente o direito de compra de McKillen ao manter as ações no nome da empresa.

Quando terminaram, os irmãos controlavam 64% das ações – o suficiente para tirar McKillen do poder, mas não para ganhar diretamente a propriedade. Até agora, os tribunais em Londres sustentaram seu direito de assumir o controle. Assim, eles controlam as reuniões do conselho, agora evitadas por McKillen.

Nos últimos dias, houve muita atividade, com ambos os lados prometendo comprar ou quitar os empréstimos pessoais de McKillen de mais de US$ 336 milhões garantidos por suas ações no hotel. Os empréstimos foram realizados pelo Irish Bank Resolution Corp., instituição estatal que assumiu o banco Anglo Irish e vem sistematicamente vendendo seus empréstimos.

McKillen mantém uma ação em Dublin para impedir os Barclays de comprar seus empréstimos. Segundo ele, os empréstimos não deveriam ser vendidos para eles, alegando que representantes do banco e do governo vazaram um documento financeiro confidencial sobre ele para os gêmeos. Investigadores públicos de fraudes estão examinando a alegação.

Se a estratégia fracassar e os Barclays puderem comprar as dívidas de McKillen na Irlanda, o jogo pode muito bem chegar ao fim; os irmãos simplesmente exigiriam o pagamento do débito, forçando McKillen a vender a participação nos hotéis.

McKillen disse estar negociando suporte financeiro da Colony Capital, empresa de investimentos da Califórnia.

"Esses hotéis entram na sua alma, e a importância é emocional, além de financeira", diz ele, acrescentando estar preparado para continuar durante décadas, caso demore tanto tempo assim para Quinlan declarar falência, o que lhe daria o direito de comprar suas ações.

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