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Tema defendido por Dilma Rousseff, a segurança na rede foi excluída em negociação sobre tecnologia entre ministros de inovação de Brasíl, Rússia, Índia, China e África do Sul

O primeiro encontro de ministros de Ciência, Tecnologia e Inovação do Brics, acrônimo formado pelas iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, terminou nesta segunda-feira (10), na cidade sul-africana de Cape Town, com uma declaração conjunta que se apresenta como o primeiro acordo multilateral a ser ratificado pelos presidentes dos países durante a 6ª Cúpula dos Brics – que acontece no Ceará, em julho.

Dilma Rousseff levou a preocupação com a espionagem na rede aos organismos internacionais
AFP
Dilma Rousseff levou a preocupação com a espionagem na rede aos organismos internacionais


Mas a declaração deixou de fora a sugestão levada pelo ministro Marco Antônio Raupp (Ciência e Tecnologia) de criar um instituto para desenvolver cibersegurança para as redes de internet do bloco de economias emergentes. “Esse tema é muito sensível para alguns países”, diz ao iG o secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, Álvaro Prata.

Embora não houvesse expectativa de que os países do Brics assumissem a pauta defendida pela presidente Dilma Rousseff em discurso na Organização das Nações Unidas (ONU), numa busca de reunir forças multilaterais para contrapor a predominância tecnológica que coloca os Estados Unidos em posição vantajosa para praticar espionagem, o Brasil comemora o fato de a declaração dos ministros definir como uma das áreas de interesse comum a “informação e tecnologia de comunicação”.

A área pode ser alvo de parcerias no futuro, caso seja mantida no texto que será transformado no Memorando de Entendimento sobre Cooperação em Ciência, Tecnologia e Inovação que os chefes de Estado assinarão no encontro de Fortaleza, previsto para os dias 15 e 16 de julho. “Mantivemos um texto mais geral, mas acho que haverá uma convergência para uma solução comum”, diz Prata. “É preciso que haja cuidado ao introduzir alguns temas”, pondera o secretário.

A maior resistência em um sistema Brics de segurança é da China, cujo interesse em compartilhar sua tecnologia de segurança de rede é zero. Além da Rússia, sobre a qual existe uma zona nebulosa entre o que efetivamente existe de tecnologia.

Apesar da resistência, o Brasil confia em um amadurecimento de uma percepção de que o bloco emergente precisa se proteger conjuntamente e evitar a dependência tecnológica dos EUA e da Europa. “O bloco será uma força que não compreenderá os habituais líderes (em tecnologia) Japão, Europa e Estados Unidos, mas sim um grupo que compreende uma parcela importante da população mundial”, avalia Prata.

Transferência tecnológica

A reunião em Cape Town terminou com um documento de quatro páginas em que cada país se comprometeu a trocar informações e discutir futuramente o financiamento conjunto em pesquisa. “Reafirmamos a visão de fortalecer os parceiros dos Brics para o desenvolvimento comum e a cooperação gradual e programática”, afirma o texto, que fala ainda em “intensificar a cooperação nas esferas da ciência, tecnologia e inovação para a utilização pacífica em ritmo acelerado”.

O Brasil sugeriu a criação de parques tecnológicos que possam ser mantidos com recursos coletivos, mas a sugestão não entrou na declaração dos ministros. Ficou acertada agora a manutenção de investimentos já definidos para instalações nacionais, nas quais o intercâmbio de cientistas e pesquisadores será facilitado. “Estamos formando um bloco em que instituições e o capital humano podem ser usados pelos demais países”, diz Prata.

Segundo o secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTi), a criação dos centros conjuntos de inovação deve evoluir depois que os Brics acertarem como farão juntos novos investimentos em desenvolvimento de pesquisa. “O financiamento será realizado de acordo com mecanismos que já existem em casa país. O próximo passo é fazer com que parte desses investimentos seja usada em comum entre os países do Brics.”

Bolo fatiado

O memorando que será assinado pelos presidentes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul durante o encontro em Fortaleza terá quatro pontos centrais: reforço de cooperações já existentes – o Brasil, por exemplo, mantém acordo com a China para desenvolvimento compartilhado de satélites; compartilhar experiências socioeconômicas; desenvolver produtos e serviços; e avaliar parcerias com outros blocos econômicos.

O memorando define ainda uma implantação de cinco áreas temáticas que cada país assumirá. Ao Brasil caberá desenvolver e propor soluções em mudanças climáticas e mitigação de desastres naturais. A Rússia será responsável por tratamento e despoluição de recursos naturais – entre eles a produção carvão limpo para geração de energia.

A Índia assumiu a investigação em tecnologia geoespacial – filão que movimenta anualmente cerca de US$ 270 bilhões por meio de ferramentas de mapeamento geográfico como o GoogleMaps. A China com energia renovável – ao Brasil interessa transferir tecnologia em desenvolvimento de painéis fotovoltaicos, que por aqui eleva o custo e dificulta a implantação da energia solar em escala.

No caso de cooperações bilaterais entre nações do Brics, os acordos serão estendidos a todos os cinco países. Com isso, por exemplo, o Brasil pode se beneficiar de parcerias entre Rússia e China na área aeroespacial e da Índia com a África do Sul para desenvolvimento agrícola.

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