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Apresentador do programa Manhattan Connection afirmou que inadimplência piorou em 2013, contrariando dados da Serasa e Boa Vista Serviços divulgados esta semana

O jornalista e escritor Diogo Mainardi bem que tentou acuar a empresária Luiza Trajano, dona da rede Magazine Luiza. Mas recebeu, em troca, uma ducha de água fria. Ao insinuar a falência do varejo brasileiro – declarando seu mau humor crônico com a economia do País – o apresentador do programa Manhattan Connection não só caiu em contradição, como distorceu dados oficiais sobre inadimplência . A polêmica foi parar nas redes sociais.

A empresária teve o apoio daqueles que desaprovam a visão mal humorada em relação à economia brasileira. A participação no programa rendeu. Na conta de Luiza no Twitter, foram muitas as manifestações favoráveis. "Você lavou minha alma", escreveu um seguidor. "É preciso muita energia positiva pra se livrar do mau olhado do Mainardi que acha que tudo está sempre mal", ironizou outro comentário. Um seguidor foi mais direto e perguntou se "a @luizatrajano está solteira?". A mensagem teve coro. "Se estiver, tira o olho, a 'tirada' que ela deu no Mainardi me deixou apaixonado, ela ganhou meu coração", escreveu outro seguidor.

A empresária Luíza Trajano e o apresentador Diogo Mainardi em embate sobre o cenário de crédito no Brasil
Divulgação
A empresária Luíza Trajano e o apresentador Diogo Mainardi em embate sobre o cenário de crédito no Brasil


No programa que foi ao ar pela Globo News no último domingo (19), Mainardi afirmou que a inadimplência cresceu em 2013 e emendou a pergunta; "Quando você vai vender suas lojas para a Amazon?". A empresária rebateu em tom indignado . “A inadimplência está totalmente sob controle (...). Nunca tivemos um índice de inadimplência tão bom como agora”.

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Mas o apresentador, que se autodeclarou "a personificação do copo vazio", não se contentou em ficar calado. “Aumentou em 2012 e aumentou em 2013”, disse, citando a Serasa Experian. Mas o indicador da empresa, divulgado nesta terça-feira (21), apontou justamente o contrário. Luíza estava cheia de razão.

A inadimplência do consumidor caiu 2,0% no ano passado, a primeira queda anual desde 2000, de acordo com a Serasa. A Boa Vista Serviços, que administra o SCPS (Serviço Central de Proteção ao Crédito), também divulgou esta semana a melhora da inadimplência em 2013, com queda de 0,4%.

Como se não bastasse, dados do Banco Central (BC) do acumulado de 2013  até novembro apontavam que o nível caiu para 6,7%, após ter saltado preocupantes 21% em 2011, e ter subido em 2012.

“Se observarmos a história da inadimplência no Brasil, houve uma queda bem significativa”, analisa o economista da Boa Vista, Flávio Calife, apontando que o menor nível histórico de inadimplência do BC já registrado foi de 5,7%, quando 2013 deve fechar abaixo de 7%, um patamar aceitável, em sua visão.

Apesar da melhora no cenário do crédito, o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, faz uma ponderação.“A inadimplência no Brasil ainda é alta. Subimos de elevador para o 20º andar em 2011, agora caímos para o 17º, mas precisamos cair mais alguns andares”, exemplifica. 

De acordo com Rabi, a inadimplência não bancária – aquela que inclui várias formas de crédito, inclusive a do varejo – caiu 4,8% em 2013 no indicador da Serasa, a segunda maior queda, atrás apenas do número de cheques devolvidos (-9,4%).


A chamada inadimplência focada – que Luíza citou a Diego para explicar porque o índice pode oscilar negativamente dentro de um cicli positivo – não é a melhor leitura para medir o movimento da inadimplência, segundo Rabi, por refletir ajustes sazonais.

O ideal é comparar os dados mensais com o mesmo período do ano passado, e não com o mês anterior, explica Rabi. Maio costuma ter aumento de dívidas não pagas em relação a abril, em razão das compras do Dia das Mães, assim como outubro ante setembro, por causa do Dia das Crianças.

Década do varejo

Colega de Mainardi, o apresentador Caio Blinder também insinuou a existência de uma crise no varejo, o que enfureceu a empresária. “Com todo respeito, Caio, o varejo brasileiro não está em crise”. Ela citou dados do IDV (Instituto do Desenvolvimento do Varejo) apontando que o setor cresceu 5,9% em 2013 e gerou 531 mil empregos da economia.

Luiza Trajano agradece a internautas pelo apoio após o programa
Reprodução
Luiza Trajano agradece a internautas pelo apoio após o programa

Os relatórios do IDV foram devidamente encaminhados aos participantes do programa, como avisou Luíza na gravação. “Estamos vivendo a década do varejo”, concluiu, afirmando que o setor ainda engatinha no Brasil e está aprendendo com os próprios erros.

De acordo com Calife, da Boa Vista, houve uma desaceleração do ritmo de consumo em 2013 de 2%, após apresentar um crescimento expressivo em 2011, mas isso aponta para uma acomodação, e não crise do setor.

“Junto da redução do consumo tivemos um mercado de trabalho favorável, com crescimento da renda. Mesmo com o varejo crescendo menos, este cenário ajudou a reduzir a inadimplência”, conclui.

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