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No ano, economia avançou 2,4%; investimentos e agropecuária recuam, enquanto indústria, serviços e consumo continuam em alta; para economistas, governo precisa reduzir incertezas

Agropecuária: setor tem recuo no 3º trimestre após avanço expressivo no 2º
Danielle Assalve/iG
Agropecuária: setor tem recuo no 3º trimestre após avanço expressivo no 2º

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 0,5% no 3º trimestre de 2013 (julho a setembro) em comparação com o 2º (abril a junho). No ano, a economia cresceu 2,4%. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ao todo, o País gerou uma riqueza de R$ 1,2 trilhão.

Os resultados já levam em conta uma revisão feita pelo IBGE para incluir dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) no cálculo do PIB, o que elevou o crescimento de 2012 de 0,9% para 1%. 

O principal vilão do terceiro trimestre foi a agropecuária, que teve um recuo de 3,5% no 3º trimestre em relação ao 2º, o maior tombo desde o último trimestre de 2012. No acumulado de 2013, entretanto o setor registra avanço de 8,1% – um recorde pelo menos desde 1996.

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A indústria avançou 0,1% no 3º trimestre de 2013 em relação ao 2º trimestre, e acumula crescimento de 1,2% em 2013. O setor de serviços, também com 0,1% no 3º tri, soma 2,1% no ano.

Pelo lado da demanda, o desempenho negativo foi causado sobretudo pelo recuo de 2,2% nos investimento – medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). A queda é a maior desde o primeiro trimestre de 2012. No acumulado do ano, por outro lado, a alta nos investimentos atinge 6,5%, o melhor resultado desde o 2º trimestre de 2011.

Já o consumo das famílias avançou 1% no 3º trimestre, segundo aumento seguido no ano, no qual acumula alta de 2,4%.

O governo também acelerou suas compras, com alta de 1,2% no 3º trimestre – a maior desde o segundo trimestre de 2012. O resultado fez com que o indicador voltasse a registrar alta no acumulado do ano (1,8% até setembro ante 1,6% até junho), após duas quedas consecutivas.

O País também exportou menos 1,4% no 3º trimestre em comparação com o 2º, e importou 0,1% menos. Ao longo de 2013, entretanto, as vendas para fora registram alta de 1,4% – as compras, de 9,6%.

Motor brasileiro

Evolução do PIB em relação ao trimestre anterior*

Fonte: IBGE *Dados a partir de 2012 incluem resultados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS)


Para Luiz Fernando de Paula, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE/UERJ) e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), dois fatores podem ajudar a explicar o resultado do investimento: um crescimento lento da economia, que não demanda expansão da estrutura para atender à oferta, e uma expectativa incerta sobre o futuro, em razão do cenário externo , mas também interno.

“O investimento significa uma posta de longo prazo e esse horizonte de mais longo prazo é nebuloso. A China e a Europa estão desacelerando,a economia americana está em recuperação fraca”, comenta o professor. “E tem um pouco de uma crise de confiança em relação ao governo. Tem um certo ruído aí e conjunto da obra é não favorável ao crescimento do PIB”.

A indústria, afirma De Paula, acabou usando as desonerações oferecidas pelo governo para aumentar mark-up (diferença entre o custo e a venda do produto) e não a produção.”

Fabio Silveira, da diretor de pesquisas econômicas da Go Associados, ressalta os setores de serviço e de comércio, embora tenham tido um desempenho positivo, não foi suficiente para compensar essa perda.

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“Diria que a desaceleração não se aprofundou como o esperado, mas a recuperação não se confirmou”, comenta Luiz Fernando de Paula, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE/UERJ) e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB).

De Paula, entretanto, aposta num melhor desempenho a partir de 2014 e afirma já ver “alguns sinais interessantes” para o médio prazo – como a ampliação de investimentos em infraestrutura.

“Não tenho uma visão catastrofista. A economia vai se recuperar, mas o crescimento é fraco e vamos entrar em 2014 com certa preocupação", diz.

A diminuição da inadimplência – em outubro, o indicador para pessoas físicas atingiu 4,6%, o menor patamar na série histórica iniciada em março de 2011, segundo o Banco Central –  é outro bom auspício para o ano que vem, avalia Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

“Isso ajuda o empresário, pois o custo do crédito não sobe e isso é bom para o comércio.”

Engrenagens

Crescimento do PIB, por setor em 2013, em porcentagem sobre o trimestre anterior*

Fonte: IBGE *Dados a partir de 2012 incluem resultados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS)


2º trimestre inflado

É preciso levar em consideração, também, que o 2º trimestre foi expecionalmente bom – com alta de 1,5% sobre o 1º ,  a maior alta em três anos, antes da revisão –, lembra Julio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e secretário de Política Econômica de 2006 a 2007, durante o governo Lula (2003-2010).

Do lado da indústria, isso significou um aumento de estoques de abril a junho que, ao serem colocados em circulação, prejudicaram o crescimento de julho a setembro, avalia o economista.

“Mas também não podemos perder de vista que a agropecuária não deve vir tão bem como nos trimestres anteriores”, comenta. “Eu acho que foi um 2º trimestre artificialmente bom e um 3º trimestre em parte ruim em função do bom trimestre anterior.”

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, chama atenção também para o "efeito rebote" da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para o segmento automotivo, um dos que mais prejudicaram a indústria.

"Automóveis tem o efeito da entrada da redução do IPI ano passado em junho e isso impactou muito positivamente os dados de indústria do setor do 3º tri do ano passado", afirma o economista, que prevê 1,9% para 2014. "O efeito rebote fica negativo esse ano, ou seja, apresenta desaceleração na produção industrial por esse efeito." 

Otto Nogami, professor de economia do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, lembra que motor da agropecuária no terceiro trimestre roda, tradicionalmente, em ritmo menor no terceiro trimestre. 

"[ E a alta do ] setor de serviços no terceiro trimestre não foi significativa."

Confiança e juro baixo

Segundo os analistas consultados pelo iG , parar obter um PIB melhor em 2014, o governo deve atuar principalmente para favorecer o investimento privado. Numa das frentes, é necessário diminuir as incertezas – como conter a instabilidade do câmbio e da inflação, aponta Fabio Bentes, da CNC.

“Na incerteza, o empresário perde a confiança. [ É preciso ] que o clima fique mais favorável, a inflação mais baixa o mais rápido possível, e que não haja incerteza com a taxa de câmbio”, diz, com previsão de 2% para 2014.

Noutra, é necessário reduzir o endividamento do governo, para liberar recursos ao setor privado.

“Haveria necessidade que o governo passasse a gastar menos, para ter um menor déficit público, que toma a poupança que deveria ir para investimento do setor privado”, comenta Nogami, do Insper.

Almeida, da Unicamp, considera que a situação fiscal “não está tão mal quanto se fala” , mas também recomenda alguma redução no endividamento – além de muito mais clareza.

“É preciso reduzir o nível de incerteza dos resultados e dar maior transparência para as contas fiscais. O governo também pode diminuir, estabilizar seu financiamento”, afirma. “Isso poderá mexer com o nível de expectativas e levar a um PIB melhor [ em 2014 ].

Para Fabio Silveira, diretor de pesquisas econômicas da Go Associados, a resposta está com o Banco Central.

"O básico é baixar os juros. Isso está no livro texto do 1º ano de economia", afirma, apostando em um PIB de 2,8% em 2014.

Combustíveis

Desempenho do PIB de acordo com a demanda*

Fonte: IBGE *Dados a partir de 2012 incluem resultados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS)