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Exigências do certame e risco de mudança de regras assustam menos gigante oriental

Operário da CNPC, estatal chinesa do petróleo
Xinhua
Operário da CNPC, estatal chinesa do petróleo

Pátria de três das 11 companhias inscritas para o leilão de Libra , os chineses estão entre os candidatos mais competitivos a levar a primeira concessão do pré-sal . Por duas razões muito simples: eles precisam muito, e têm muito dinheiro.

Em busca de combustível para manter uma economia de 1,3 bilhão de pessoas em alta rotação (o PIB chinês cresceu 7,8% no terceiro trimestre de 2013), a China se assusta menos com as exigências do certame, como a obrigatoridade de que a Petrobras lidere o consórcio vencedor.

“Ao contrário das empresas ocidentais, o olhar das chinesas está no longo prazo. O abastecimento interno é o grande foco”, afirma Leonardo Caio, diretor-executivo da Consulfesp, empresa de consultoria e educação no setor de petróleo e gás, para quem a exclusividade da Petrobras cria um entrave muito mais político que econômico.

Caio entende que para os chineses é preferível se abster da operação – ou seja, do processo extrativo – a não ter garantias de que terão capacidade de manter a indústria ativa.

“Mesmo sem a operação, esse negócio ainda é bom para eles, dado o tamanho da população e o volume de negócios.”

O risco de mudança nas regras do jogo também é menos preocupante para o gigante oriental.

“Ninguém entra no leilão de petróleo para os próximo um ou dois anos e todo mundo se pergunta se as regras vão continuar as mesmas”, lembra o ex-embaixador do Brasil em Pequim e presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Luiz Augusto de Castro Neves. “[ ] os chineses são mais simples. Eles querem garantir suprimento.”

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Em setembro, a China se tornou o maior importador de petróleo do mundo – 6 milhões de barris por dia –, lembra Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e ex-superintendente de Importação e Exportação de petróleo e Superintendente de Abastecimento na Agência Nacional do Petróleo (ANP).

E há dinheiro para buscar mais. Em maio, a China possuía US$ 3,4 trilhões em moeda estrangeira.

"A China hoje tem muito dinheiro, um excedente de reservas financeiras enorme, e está correndo atrás de petróleo", diz Pires. "No último mês, ultrapassou os Estados Unidos [ como maior importadora da commodity no mundo ]. Isso a torna uma competidora importante."

Como lá fora

O caixa gordo de Pequim, então, é usado para turbinar os investimentos das empresas do país no exterior.

Na semana passada, Rússia e China assinaram um acordo para exploração de petróleo na Sibéria. A empresa responsável pela parceria é a CNPC. Em julho, a Chinese Overseas Port Holding, empresa de logística do país, assumiu o controle do porto de Gwadar, no Paquistão. O acordo inclui um compromisso de construção de uma ferrovia entre o porto e Kashi, cidade na região de Xinjiang Uyghu.

“Os chineses já vem fazendo investimentos nesse setor em diversos outros países, então o Brasil acaba sendo mais um dos pontos de interesse”, afirma Z. John Zheng, professor da Wharton School of Business e diretor do Penn China Center, ambos da Universidade da Pennsylvania. “Esse esforço tem sido bastante suportado pelo governo chinês”, afirma. “Sem dinheiro e autorização do governo chinês, nenhuma dessas empresas estaria capitalizada para entrar no leilão.”

Charles Tang, presidente da Câmara do Comércio e Indústria Brasil-China, chama a atenção para a agressividade dos investimentos do gigante oriental em outros países.

"A CNOOC, apesar de ter menor porte [ que Sinopec e CNPC ], adquiriu em fevereiro uma empresa exploradora canadense, a Nexen, por US$ 15,1 bilhões. O chairman da CNOOC também tentou comprar a Unocal nos Estados Unidos, mas o governo vetou", afirma Tang.

Impactos para o Brasil

Zhang acredita que, se vencedoras, as chinesas deverão importar uma grande parte da produção local, “principalmente porque energia é um ponto crítico para a continuidade do desenvolvimento local”.

Castro Neves, do Cebri, ressalta que uma eventual vitória chinesa no pré-sal ampliaria as possibilidades de exportação brasileiras.

“Mas dependemos mais de nós do que deles para entrar no mercado chinês. Uma vez me disseram: ‘vocês não vendem para nós. Nós é que compramos de vocês’.”