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Famílias de alta renda abrem casas, quintal e apartamentos duplex em São Paulo por períodos longos e atraem moradores e visitantes na cidade com custo-benefício

Casa no Morumbi aluga quarto em casa com 1 mil metros quadrados de área para pessoas com boa educação
Reprodução: EasyQuarto.com.br
Casa no Morumbi aluga quarto em casa com 1 mil metros quadrados de área para pessoas com boa educação


Adjetivos superlativos, como “belíssima suíte”, e características pouco usuais, como amplo closet, hidromassagem e aquecimento central, compõem um dos anúncios de um site especializado em aluguel de quartos. No outro, a moradia é definida como “de alto nível” para pessoas “de fino trato”. E uma frase se destaca, em letras garrafais: não é pensão, mas, sim, uma casa de família.

A internet tornou visível uma prática em São Paulo: o aluguel de quartos em casarões, localizados em bairros nobres da cidade. Com custo de R$ 2 mil a R$ 5 mil por mês, começam a atrair, além de estudantes estrangeiros, moradores da cidade, atraídos pela relação custo-benefício.

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As opções são diversas: há desde quartos alugados dentro das casas, o que pressupõe uma convivência com a família nas áreas comuns, até “puxadinhos de luxo”

Isso acontece diante dos altos preços dos imóveis na cidade, espaços cada vez menores e a falta de opções em bairros corporativos. Do lado dos donos, está a oportunidade de geração de uma renda complementar, necessária para custear uma casa cuja área gira em torno de 1 mil metros quadrados.

A atratividade ganhou força pelo alongamento da estadia. Os contratos podem ser renovados constantemente, por tempo indeterminado. O caráter é de locação, e não apenas hospedagem.

Os anúncios são poucos e discretos. Do mesmo jeito que são anunciados em sites como o Easy Quarto, desaparecem. No site AirBnB, também utilizado por quem aluga por períodos longos, apesar do foco em estadias mais curtas, existem 132 anúncios de quartos em casas na cidade, que custam a partir de R$ 2 mil por mês. Alguns deles em casarões de famíia.

Segundo Priscila Fernandes Ribeiro, pesquisadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), regiões perto de universidades propiciam este tipo de moradia. A decisão pelo aluguel pode ser motivada por uma proteção contra a inflação, ou até como complemento da aposentadoria. "Geralmente eles já estão estabelecidos na região e não querem se mudar".

Apesar de registrar queda nos últimos anos, seguindo a queda dos juros básicos, o aluguel em São Paulo tem rentabilidade média de 0,5% ao mês, e ganhou da inflação oficial no último mês, de 0,26%. Regiões mais sensíveis a preços, como as mais nobres, podem oferecer ganhos ainda maiores.

A informalidade do contrato atrai estudantes de fora da cidade. "Em imobiliárias, a burocracia é maior. Tem que realizar depósito de três meses e ele não tem comprovação de renda e imóvel na cidade. Como vai pedir respaldo legal?". 

Casa aberta

Profissional de meia idade da área de saúde, Rosa (nome fictício) vive com suas duas filhas adolescentes e aluga há três anos, desde que se separou do marido, um dos seis quartos em sua casa de 1 mil metros quadrados, com piscina e jardim decorado, no Morumbi.

A suíte, com confortável cama de casal, closet e amplo banheiro, tem 60 metros quadrados. Ela é alugada por R$ 3,5 mil por mês, 20% a menos do que seu flat, com o mesmo espaço. O preço inclui água, luz, limpeza, café da manhã e vaga na garagem.

Quem aluga pode usar as áreas sociais. Se o hóspede quiser jantar, paga uma taxa a mais. “A vantagem é que o ambiente não é impessoal, e a rua é tranqüila e segura”, diz.

Rosa conta que a locação ajuda a manter a casa. “Não acho certo deixar tudo [as despesas] com minhas filhas”. Isso porque encontra dificuldades para vender seu imóvel e comprar uma casa menor. “Minha corretora diz que não é o momento. Os compradores estão pedindo um valor muito baixo”.

Porém, Rosa também cita outros motivos: os hóspedes ajudam a preencher a casa ampla, e existe uma troca cultural. “Já estava acostumada com o serviço em viagens ao exterior".

Rosa teve seis hóspedes nos últimos três anos. "Dou preferência para mulheres e estudantes”. Entre estrangeiros, ela abriu a casa recentemente para um jovem brasileiro que precisava ficar ali enquanto reformava sua casa.

Sobre a segurança de anunciar em um site, a piscóloga conta que já recebeu visita de interessados pelo anúncio que nem deixou entrar na casa. “Eram pessoas estranhas”. A única exigência, assegura, são pessoas com boa educação e formação cultural, necessárias para a convivência diária.

Para manter custos

As motivações de Rosa não são as mesmas de duas de suas amigas, cujos nomes não revela, atingidas por reflexos da crise econômica.

Uma delas, mulher de um empresário que vendeu uma empresa de exportação, arrasado por uma dívida em dólar, aluga os dois quartos de seu apartamento duplex por R$ 5 mil cada. “Somente de condomínio ela paga R$ 7 mil”, descreve. “Isso a ajuda a alongar as dívidas”.

Nestes casos, não é apenas a dificuldade de venda do imóvel que motiva o aluguel, mas também a dificuldade de aceitar outro padrão de vida. Não é o seu caso. "Já morei em uma casa que tinha o triplo deste espaço. Não tenho problemas em morar em uma menor".

"Puxadinho com classe"

Rosa não sabe se irá alugar os antigos quartos de empregados, que ficam do lado de fora da casa. Hoje, as duas funcionárias não dormem no trabalho, nem mesmo o jardineiro, que trabalha há décadas ali. “Em casa não gosto de ter mais de uma pessoa. Mas como os quartos são separados, poderia dar certo”.

Isso já é feito em bairros paulistanos como o Butantã. Nestes casos, o quarto pode ter 'pinta', na verdade, de apartamento. Isso porque pode ser ainda maior e ter outros ambientes, como escritório, e, quiçá, até serviços de uma governanta à disposição.

Neles, a privacidade, além da segurança e o custo-benefício, fica mais visível, pois, com negociação, o preço pode chegar ao de um quarto compartilhado nestas regiões valorizadas, e ser até 30% mais barato do que um flat de 30 metros quadrados no bairro paulistano de Moema. O "encantamento" causado por um local com arquitetura e decoração sofisticada também ajuda na opção.

As irmãs

Em outra visita a um sobrado de três andares próximo do Estádio do Morumbi, numa rua repleta de imóveis para alugar, quem busca pela “bela suíte” descobre que a casa, vazia, tem quatro quartos para alugar e abriga a irmã da anunciante com o filho.

Apesar de ampla, os poucos quadros perderam a cor, o sofá da sala está rasgado e a máquina de lavar faz um barulho ensurdecedor. Dizem pertencer a uma família tradicional de imigrantes, vinda de outro Estado.

Mas existem inconsistências no discurso. Isso porque a que vive na casa, e se veste de maneira simples, conta que foi alocada ali porque a sua, nas redondezas, tinha “muito cupim” e será vendida. No discurso da irmã, viúva e que aparece elegante sob um casaco de pele, ela não cogita a venda.

Questionadas sobre o objetivo do aluguel de quartos e por que não se mudam para um local menor, o discurso de ambas é afinado. “Não nos acostumamos”. Além disso, os hóspedes “se tornam da família”, dizem. O aluguel dos quartos sai por R$ 2 mil. Mas, se insistir, fazem por R$ 1,5 mil.

Legalidade

Segundo o advogado especializado em direito imobiliário, Marcelo Tapai, esse tipo de aluguel, tanto do quarto na área comum da casa quanto no "puxadinho" é legal, contanto que não ofereça serviços adicionais, como limpeza e café da manhã. "Neste caso, tem o caráter de hospedagem, e precisa de licença para funcionar. O que pode é apenas usar uma área compartilhada para preparar almoço, por exemplo".

Além disso, é necessário se certificar se o imóvel é, de fato, do anunciante. "Mesmo que ele esteja alugando o espaço, ele até pode sublocar, contanto que seu contrato permita isso. Em geral, não permite". Nestes casos, se o verdadeiro dono do imóvel verificar a irregularidade, pode despejar o "anfitrião" e seus "hóspedes" a qualquer momento.

Porém, caso o anunciante seja o proprietário da casa, a lei fica do lado de quem aluga. Isso porque o dono assume riscos em um acordo de locação menor do que 30 meses ou por prazo indeterminado, verbal ou escrito. "Caso o hóspede pague o aluguel em dia, ele não pode ser retirado do imóvel sem justa causa antes de cinco anos, pelo caráter social da moradia", afirma Tapai.

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