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A ata do Copom revelou um Banco Central mais nervoso com a dificuldade de investidores e da população em acreditar na recuperação da economia e retomar os gastos

Brasil Econômico

Recaiu sobre a confiança do consumidor e dos empresários o ônus da virada da economia. A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem pelo Banco Central, informa que a autoridade monetária enxerga como positivos os fundamentos macroeconômicos atuais, que, no entanto, terão efeito nulo caso os dois grupos não sejam contaminados de otimismo no curto prazo.

Para o Banco Central, os dados macroeconômicos atuais são positivos
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Para o Banco Central, os dados macroeconômicos atuais são positivos

“O Comitê nota que a velocidade de materialização desses ganhos esperados pode ser contida caso não ocorra reversão tempestiva do declínio que ora se registra na confiança de firmas e famílias”, traz a ata. Em junho, o BC demonstrava menos preocupação com a confiança, principalmente, dos investidores. Mas, na passagem do mês, o que seria uma “gradual recuperação da confiança dos empresários”, que criaria “perspectivas de intensificação dos investimentos”, como informa a ata anterior, virou uma questão “tempestiva”. Em maio, o presidente do banco, Alexandre Tombini, usou o mesmo adjetivo para transmitir ao mercado que conseguiria segurar a inflação, ao iniciar um ciclo de alta de juros.

Economistas especializados em pesquisas de confiança de consumidores e indústria afirmam, no entanto, que não há o que ser feito para transformar imediatamente o humor do mercado. Dizem também que o que está em questão, mais do que a economia, é a credibilidade na comunicação da equipe econômica do governo.

“Há uma lacuna de tempo entre a retomada da confiança do consumidor e da indústria, que, por sua vez, recompõe o estoque antes de retomar o investimento. A agenda de competitividade, realmente capaz de reverter o cenário atual, é agressiva e, por isso mesmo, lenta”, alerta o especialista de Política e Indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Marcelo Azevedo, para quem as desonerações, como a da tarifa de energia elétrica, já não são suficientes para estimular o investimento.

O consultor Roberto Luis Troster, ex-economista chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) está entre os que apostam na melhora da comunicação do governo e no alinhamento de discurso e atuação da equipe econômica como medida de estímulo à confiança. Ele diz que, atualmente, “não há um casamento entre políticas fiscal e monetária e o BC se vê obrigado a recuperar sozinho a confiança”.

Entre os consumidores, os principais fatores de insegurança são a alta de preços, o endividamento, a dificuldade de acesso ao crédito e as manifestações nas ruas, que levaram a uma piora nos indicadores no primeiro semestre deste ano, destaca o economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC) Bruno Fernandes. Ele acredita que, dependendo da inflação, o varejo poderá continuar reduzindo as margens, com a oferta de liquidações de preços e, assim, contribuir com a retomada das vendas.

A população, na verdade, permanece com intenção de consumir, diz a pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), coordenadora do Índice de Confiança do Consumidor, Viviane Seda. Mas, nos últimos meses, as famílias se tornaram mais cautelosas com os seus orçamentos, por conta de dívidas. 

“No verão deste ano pensei em comprar um ar condicionado central, mas tive que adiar, porque já estava com as parcelas do meu cartão de crédito comprometidas com outras compras. Mas penso em retomar o plano ainda neste ano", conta a auxiliar administrativa Cleiciane Parente, 27 anos.

Segundo a economista da FGV, o desemprego continua em patamar baixo, mas o brasileiro demonstra insatisfação porque não consegue aumentos salariais.

“A compra da TV LCD que desejo ficou para o futuro. Abri mão porque vou começar um curso de vigilante”, relata a dona de casa Marta dos Santos, 27 anos. 

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