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Experiência inicial em Brasília mostra que é possível ganhar dinheiro com novos estádios, mas especialistas alertam que fenômeno pode perder força com o passar do tempo

Brasil Econômico

A administração do Estádio Nacional de Brasília largou na frente entre as novas arenas reconstruídas para a Copa de 2014 e já vem colhendo frutos com a atração de grandes clubes do Rio e São Paulo. Para especialistas, porém, a receita extraordinária obtida nos primeiros jogos não é suficiente para sanar as dúvidas a respeito dos bilionários investimentos em novos estádios no país, principalmente aqueles em estados sem tradição no futebol. A disputa por jogos de maior torcida deve se acirrar nos próximos anos, mas é difícil que se mantenha, no longo prazo, a média de renda registrada em Brasília nas partidas do campeonato brasileiro realizadas este ano.

Mané Garrincha
Clive Mason/Getty Images
Mané Garrincha

Em apenas três jogos — em parceria com Santos, Flamengo e Vasco — o Estádio Nacional, mais conhecido como Mané Garrincha, teve uma arrecadação de R$ 13,7 milhões, apenas R$ 380 mil a menos do que toda a renda do Corinthians em 19 partidas como mandante no campeonato brasileiro do ano passado. O desempenho rendeu lucros aos clubes, às federações de futebol de Brasília, de São Paulo e do Rio, que têm fatia da renda, e ao administrador do estádio que, apenas nos jogos mandados por Flamengo e Vasco, recebeu R$ 881 mil de aluguel (não há dados disponíveis sobre o valor do aluguel pago no jogo do Santos, que marcou a despedida do craque Neymar).

“Foi uma janela de oportunidade bem aproveitada, mas não é sustentável”, alerta o diretor da consultoria especializada Pluri, Fernando Ferreira. “O que vemos hoje em Brasília são ‘jogos-evento’, que atendem a uma demanda reprimida do torcedor local. Com a maior frequência de partidas, tende a reduzir o interesse”, explica. Segundo ele, o modelo de atração de grandes clubes de Rio e São Paulo deve ser seguido por arenas em estádios sem tradição, como Manaus e Cuiabá, gerando uma disputa pelos clubes.

“A médio e longo prazo é bem difícil para um estádio como o Mané Garrincha manter o nível de receitas. Os times estão jogando lá porque Maracanã e Engenhão estavam fechados. É difícil ser rentável sem ter um clube parceiro, mas dá para para conseguir pagar as despesas recebendo alguns jogos.”, concorda o consultor de gestão esportiva da BDO Brazil, Pedro Daniel. Com poucas chances de recuperar o investimento, dizem os especialistas, a luta é por pagar a manutenção dos estádios.

Situação semelhante deve ocorrer nos estádios de Manaus e Cuiabá, em maior escala, e Fortaleza, Recife e Bahia, que têm maior tradição no futebol, mas com clubes oscilando entre primeira e segunda divisão. “O futebol brasileiro tem uma característica que é a grande concentração de público em poucos jogos, mas a média de ainda é muito baixa, em torno de 3,3 mil torcedores por jogo. É preciso melhorar o produto para que os estádios se tornem rentáveis”, diz Ferreira.

O governo do Distrito Federal informou que, além de jogos, trabalha com a organização de shows e outros eventos para manter a operação do Mané Garrincha, que custou R$ 1,2 bilhão, segundo dados do Portal da Transparência. “Para continuar atraindo a atenção da população da cidade e de turistas, o estádio se consolidará em breve como um grande centro de lazer cultural”, informou o governo estadual, por meio de sua assessoria de imprensa. “As rendas dos eventos realizados comprovam o potencial da arena como palco de grandes eventos”, completa.

Até o fim do ano, estão agendados mais quatro jogos do Flamengo, além de dois shows internacionais — a estratégia de atrair grandes concertos deve ser outro foco de disputa entre os administradores das novas arenas. Após a licitação para conceder a administração do estádio a uma empresa privada, está prevista a inauguração de dois grandes restaurantes, 14 lanchonetes, 40 bares, um museu e centros comerciais e atividades culturais.