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Estado investe em estímulo à cooperação entre vinicultores para alavancar marca local

Parreiras de Barboursville Vineyards, de Luca Paschina: luta pelo reconhecimento da qualidade do vinho da Virgínia
Daniel Rosenbaum/The New York Times
Parreiras de Barboursville Vineyards, de Luca Paschina: luta pelo reconhecimento da qualidade do vinho da Virgínia

Em uma tarde úmida de maio, Luca Paschina, 51 anos, vinicultor nascido no norte da Itália, fez uma oferta de venda ao proprietário de uma loja de vinho em Long Island. Ao servir um reserva cabernet franc e uma mistura ao estilo Bordeaux, ele descreveu como os tintos foram envelhecidos durante mais de um ano em carvalho francês. Paschina contou a história de Barboursville Vineyards, a propriedade de 352 hectares no centro da Virgínia onde os vinhos foram produzidos.

Durante a degustação de 30 minutos, o proprietário encheu Paschina de perguntas. Por que se mudou para a Virgínia? Que uvas cultiva?

Porém, Paschina reconheceu os sinais ao seu redor: as prateleiras cheias de vinhos de regiões famosas, o foco nas marcas. Ele não conseguiria fazer a venda. Do lado de fora de sua propriedade, nem mesmo o alegre sotaque de Paschina pode compensar a ideia desconcertante de "vinho da Virgínia".

"A maioria das adegas precisa de determinada seleção de vinhos bem conhecidos, que rendam bastante", ele disse. "Com o resto, ou elas se dão ao trabalho de vasculhar a pilha e encontrar as pedras preciosas escondidas ou enchem as prateleiras com coisas presenteadas. Nós estamos mais para joia escondida."

Estado já tem 275 vinícolas

Luca Paschina, vinicultor, junto às parreiras da Barboursville Vineyards, em Virgínia
Daniel Rosenbaum/The New York Times
Luca Paschina, vinicultor, junto às parreiras da Barboursville Vineyards, em Virgínia

Durante mais de duas décadas, Paschina vem tentando defender o argumento segundo o qual o vinho da Virgínia merece um lugar à mesa ao lado do Barolo e do Bordeaux. Embora sua meta seja tornar Barboursville uma vinha de classe mundial, ele reconhece que teria mais sucesso caso o estado fosse conhecido como uma região produtora de vinho de renome internacional.

Assim, ele passa fins de semana servindo amostras em festivais de vinho. Participa de degustações técnicas para trocar ideias com vinicultores e trabalha com as autoridades estaduais para criar iniciativas de marketing locais e missões comerciais internacionais.

Ele e outros vinicultores do estado já alcançaram um sucesso notável, ainda que improvável. Quando Paschina se transferiu da Itália para a Virgínia em 1990, o estado tinha menos de 50 vinícolas. Agora, são 275, fazendo da Virgínia a sexta maior região vinífera dos Estados Unidos, segundo estatísticas federais.

Na Virgínia, as vinícolas e os vinhedos, com seus empregos, impostos e vendas, respondem por aproximadamente US$ 750 milhões da economia do estado.

"O vinho é um dos segmentos de crescimento mais rápido da agricultura", afirmou Todd Haymore, secretário de agricultura e administração florestal da Virgínia. "Podemos não ser a Califórnia, mas podemos ser a capital da Costa Leste do vinho e do turismo vinícola."

Entre turistas arruaceiros e enólogos sérios

Esse é o desafio da Virgínia e de outras regiões viníferas jovens. Muitas vinícolas podem vender a produção inteira em sua sala de degustação. Porém, puristas do vinho torcem o nariz para o negócio do turismo, dizendo que este somente atrai arruaceiros em busca de diversão ou turistas de fins de semana e não enófilos sérios. A preocupação é que, ao cuidar desse mercado para turistas, a qualidade sofra, complicando o aspecto de ganhar reconhecimento nacional e internacional.

Paschina dedica sua energia a Barboursville, agora uma das maiores vinícolas da Virgínia, vendendo mais de 38 mil garrafas por ano. A vinícola, com restaurante e pousada, gera uma receita de US$ 6 milhões anuais. Paschina se concentra em variedades de uva que vão bem no solo de argila vermelha do Estado, e adapta o crescimento ao clima imprevisível da região, que pode trazer ondas de calor, granizo e tempestades pesadas. Se uma safra não for boa, ele não produz determinados vinhos, em vez de lançar um produto inferior.

O trabalho sério tem propósito. Se o vinho da Virgínia não representar excelência e refinamento, Barboursville torna-se uma venda mais difícil entre os sérios conhecedores de Nova York e Londres.

Trajando o uniforme habitual de jeans, camisa de botão, colete e botas, Paschina olha a terra da Barboursville, nos contrafortes ondulados das montanhas do sudoeste, arredores de Charlottesville. Aponta para uma parte promissora do vinhedo, indicando onde planejava trocar a cabernet sauvignon por cabernet franc, uma das principais uvas do Octagon, o vinho sofisticado que a empresa vende por quase US$ 50 a garrafa da safra de 2008. Há pouco tempo, tentou cultivar fiano, uva geralmente associada ao sul da Itália. Se tiver sucesso, Paschina pretende utilizá-la num branco especial, com viognier e vermentino.

Foco nas uvas acessíveis e sofisticadas

José Garcia, empregado da Barboursville Vineyards, estabiliza uma parreira
Daniel Rosenbaum/The New York Times
José Garcia, empregado da Barboursville Vineyards, estabiliza uma parreira

Demorou para compreender este terroir  – a combinação singular, indefinível de terra, solo e clima a caracterizar uma vinha. Quando Paschina começou aqui, o vinhedo era composto principalmente das uvas merlot, cabernet sauvignon, riesling e pinot noir, variedades populares nos EUA daquela época. Contudo, nem todas cresceram bem na Virgínia. Riesling e pinot noir, por exemplo, preferem climas mais frescos, não os verões quentes e úmidos do estado.

"Estou aqui imaginando", afirmou Paschina. "Posso fazer um bom pinot grigio, mas não de nível internacional. Vermentino, viognier são acessíveis, sofisticados. É isso que vamos atacar."

Ele está replantando sem pressa, fazendo um uso melhor da terra e do clima. Dessa forma, Paschina vê o potencial aumento da receita total. O pinot grigio, para o qual não está plantando parreiras adicionais, custa ao redor de US$ 15 a garrafa. Em comparação, a reserva viognier chega a US$ 22. Octagon, a mistura Bordeaux de US$ 50, encontra-se no patamar superior dos vinhos da Virgínia.

Histórico de fracasso

Quando se trata de vinho, a Virgínia conta com um antigo histórico de fracasso. Depois que os colonos britânicos se instalaram em Jamestown, o governo local determinou em 1619 que todo homem tinha de plantar vinhas e despachar vinho para a Inglaterra. Contudo, as parreiras deram poucos frutos. Thomas Jefferson plantou variedades europeias em Monticello, sua propriedade e, embora tenha insistido durante anos, nunca colheu o bastante para produzir vinho.

Nascido no Piemonte, Paschina é de uma terceira geração de produtores de vinho, provindo de uma famosa região vinífera conhecida por produzir Barolo e Barbaresco. Quando criança, ele brincava no parreiral, fazendo guerra de uva com os amigos. Aos 14 anos, ele produzia vinho no quintal, um tinto italiano chamado brachetto.

Depois de estudar a produção de vinho e a viticultura, foi estagiário em vinhedos do Vale do Napa, Califórnia, e de Fingers Lake, Estado de Nova York. Mais tarde, ele voltou à Itália, onde passou dois anos cultivando uvas, e outros dois nos setores de vendas e marketing. Porém, o emprego de vendedor, que incluía vender vinho sem álcool para a Arábia Saudita, não o satisfazia.

"Aquilo foi o fundo do poço para mim. Não era a minha paixão."

Quando chegou a Barboursville, em 1990, a produção de vinho era um setor minúsculo na Virgínia e muitos vinicultores se conheciam pelo nome. Eles se encontravam regularmente para compartilhar técnicas. Eles também trabalhavam em conjunto com professores do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia para desenvolver pesquisa científica sobre as características do solo e pestes.

A colaboração foi vital. Elevar a qualidade dos vinhos individuais pode ajudar a elevar a região como um todo.

"Na Itália, você respeita o concorrente, mas não deseja ajudar. Aqui na Virgínia, ainda temos muito espaço para crescer. Quanto melhor for o vinho, melhor para todos nós.".