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Grupo tenta se fortalecer e emplacar representante na gestão; empresário ignora o convite

Magalhães: aposta nas redes sociais para fortalecer grupo de minoritários
Marília Almeida/iG
Magalhães: aposta nas redes sociais para fortalecer grupo de minoritários

Antes que os espetos daquela nobre churrascaria paulistana começassem a circular entre eles, 34 investidores gastaram saliva neste sábado (13) para discutir um problema comum: a petroleira OGX, de Eike Batista, da qual são acionistas minoritários.  

Apenas no último pregão desta sexta-feira (12), as ações da empresa, que um dia bateram em R$ 20, despencaram mais 20%,  e atingiram R$ 0,43 – menos do que qualquer item do cardápio do restaurante.

Em poucos meses, com um fluxo intenso de más notícias , que incluem a descoberta de que vários poços de petróleo da companhia não são economicamente viáveis, os papéis da OGX perderam mais de 90% do valor. O dinheiro desses 34 acionistas desapareceu na mesma proporção.

Onde está o dinheiro

Alguns vestem um terno bem aprumado, outros se limitam a uma camisa social. Há desde jovens até senhores aposentados. As mulheres, poucas, usam maquiagem perceptível e se vestem elegantemente. Os 34 se dividiram em três grupos, e ficaram reunidos por duas horas numa sala reservada da churrascaria Fogo de Chão, na zona sul de São Paulo. 

Leia também: "Sonhar em ter tudo de volta é somente o que restou", diz investidor de Eike

A ocasião é formal, e só relativamente esses senhores e senhoras podem ser chamados de pequenos investidores. Juntos, eles detém milhares de ações da empresa. Estimam que estejam perto de chegar a 2% do total em circulação no mercado.

Entre os investidores, estavam, discretos, seis representantes de bancos e gestoras de fundos de investimento.

Um dos grupos cita poços de petróleo e faz conjecturas sobre quem ficou com o crème de la crème da OGX – até há pouco, a joia da coroa do, até há pouco, invejável império X.

Outro grupo, mais exaltado, cobra mais transparência nos negócios.

"Quem hoje, em sã consciência, faria parte do conselho da OGX? Só quem não conhecesse as responsabilidades do cargo", esbraveja um, referindo-se à saída da empresa de três conselheiros independentes  "de reputação ilibada". 

O aposentado Vicente Marotta, 67 anos, estava um tanto exaltado com o aluguel das ações da OGX – prática adotada por especuladores que apostam na desvalorização de um determinado papel.

Engenheiro de formação, Marotta trabalhou na Vale, que já foi presidida por Eliezer Batista, pai de Eike. Conta que fez sua carteira de ações da OGX aos poucos. E, mesmo diante do cenário difícil para os negócios do filho do "Sr. Eliezer", mantém suas esperanças.

"Confio nele. Onde ele investir, estarei lá".

Após a reunião, o grupo decidiu que não deixará suas ações disponíveis para aluguel para coibir a prática.

Saiba mais: Bolha da OGX, de Eike, foi inflada por 55 anúncios de descobertas de petróleo

Fé nas redes sociais

Há um pouco de tensão, sobressaltos e alguns levantam a voz. Um dos participantes sai para fazer uma ligação e fumar um cigarro

"Está difícil chegar a um ponto comum. Temos pouco tempo para resolver", desabafa.

Acionista chama Eike de 'calça curta', termo que bilionário usava para ironizar outros empresários
Reprodução
Acionista chama Eike de 'calça curta', termo que bilionário usava para ironizar outros empresários

Em questão de minutos, todos saem da sala. O empresário Willian Magalhães, 32 anos, responsável pela organização do encontro e pela conta MinoritariosOGX, no Twitter, declara o consenso: tentar reunir investidores suficientes para que o grupo represente 2% do total de ações disponíveis no mercado. Com essa fatia, os minoritários conseguem ter representatividade legal para instalar um conselho fiscal na empresa.

Não será tarefa fácil. Isso porque a expectivativa inicial era de que até 200 investidores fossem atraídos para a reunião   deste sábado (13). Magalhães conta que 70 chegaram a confirmar presença. Apenas a metade apareceu.

Mas eles confiam – apostam – no poder das redes sociais, de onde saíram para o primerio almoço de negócios.

"Queremos nossos investimentos valorizados. Falta transparência sobre a situação financeira da empresa", diz Magalhães. "Mas queremos apoiar a empresa. Não tem como ser diferente. Meu dinheiro está lá", afirma, pensando em suas 21 mil ações na OGX – uns R$ 8,82 mil hoje.

Os minoritários também pretendem indicar um membro do grupo para o conselho de administração da empresa. Magalhães já se candidatou uma vez, mas faltou quórum.

"A prioridade é a instalação do conselho fiscal, para o qual o quórum é mais factível".

O grupo também irá disponibilizar a ata da reunião à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e agendar uma audiência com o órgão regulador do mercado de capitais, que investiga a conduta do grupo EBX .

Processar Eike está fora de questão. "Uma ação judicial depreciaria ainda mais a empresa", diz Magalhães.

Eike ignora convite 

Minoritários à mesa da churrascaria: Eike não responde a SMS com convite para almoço
Marília Almeida/iG
Minoritários à mesa da churrascaria: Eike não responde a SMS com convite para almoço

"Buscar todos os investidores individuais pelo Brasil será difícil. Então, tentaremos obter o apoio das gestoras de fundos, que congregam diversos investidores", afirma o acionista. O grupo já tem a cooperação de uma delas, cujo nome não é revelado.

Para facilitar essa empreitada, os minoritários incentivam que os investidores "mostrem a sua cara", para que a história ganhe apelo social.

Magalhães já tentou se encontrar com Eike em junho deste ano. Até recebeu uma resposta positiva pelo Twitter, mas acabou sendo atendido por um dos diretores da empresa. Problemas de agenda.

A ata do almoço também será enviada para a OGX, com a qual o grupo quer agendar uma nova reunião. O acionista ainda tem esperanças de que conseguirá falar cara a cara com  o controlador da empersa. E pede, um pouco emocionado: "Gostaria de olhar para ele e perguntar se posso continuar acreditando em suas empresas, assim como muitos continuam acreditando".

Magalhães tem o número do telefone celular de Eike e, na sexta-feira (12) à noite enviou uma mensagem para o chefe do império X. "Disse que hoje iríamos tratar do futuro da nossa empresa, a OGX".

Não obteve resposta até às 13h30 deste sábado (13).

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