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Na indústria e no comércio, o impacto das manifestações de junho, em centenas de cidades brasileiras, começa a ser contabilizado. Menos produtividade, e menos vendas

Brasil Econômico

A indústria perdeu o equivalente a dois dias úteis de trabalho em junho por conta das manifestações que tomaram as ruas, segundo estudo do economista-chefe da corretora Gradual Investimentos, André Guilherme Perfeito, que utilizou informações de pesquisas com as empresas para compor o dado. Após um mês de queda expressiva em maio - 2%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - e das perspectivas de redução dos dias trabalhados, as projeções de analistas para a produção industrial de junho passaram a ser de “viés de baixa”.

O mês passado já conta com um dia útil a menos do que junho de 2012, o que, naturalmente, terá efeito no resultado da Pesquisa Industrial Mensal-Produção Física (PIM-PF). Somado aos efeitos das manifestações, é possível, portanto, que três dias de trabalho, ao todo, tenham sido eliminados no mês. Em junho de 2012, a taxa praticamente estagnou, 0,1%. Analistas agora avaliam se será possível alcançar o mesmo patamar de produção, frente a um cenário tão turbulento.

Manifestantes entram em confronto com a polícia em Brasília
Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr
Manifestantes entram em confronto com a polícia em Brasília

Diante do resultado da última PIM-PF (de maio) e das estatísticas pioradas de vendas no varejo, entramos em processo de revisão da projeção sobre a produção. Ainda não temos um cálculo preciso, mas a perspectiva é, certamente, pessimista. O resultado de bens de capital, um indicativo de investimento, veio muito ruim em maio. E os indicadores de confiança também apontam para um quadro deteriorado”, ressalta o economista Rafael Bacciotti, da consultoria Tendências .

Uma prévia mais fiel da indústria em junho será conhecida nos próximos dias, quando serão divulgados indicadores antecedentes, como o de fluxo de veículos nas estradas e de produção de automóveis. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informa hoje as estatísticas do mês.

No Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), os técnicos estão formulando novas perguntas a serem inseridas em suas pesquisas, com o intuito de captar o efeito das manifestações nos setores produtivos - indústria, serviços e comércio.

Ainda em junho, o Ibre observou em campo um reflexo do momento no indicador de consumo. O economista da instituição Silvio Salles conta que a sondagem de intenção de compra permanecia no campo positivo até o dia 14, mas, na segunda quinzena, quando as manifestações se intensificaram, entrou no campo negativo, acabando por fechar em queda de 0,4% no mês.

“O consumidor é mais sensível às notícias. Ele responde às provocações do dia a dia, o que gera consequências para o setor produtivo, principalmente, de duráveis”, afirma Salles. 

Entre as principais entidades representantes da indústria - CNI, Fiesp, de São Paulo, e Firjan, do Rio de Janeiro - prevalece a cautela em traçar cenários para junho que podem piorar ainda mais as expectativas do empresariado, com o argumento de que faltam dados. Mas, no mercado, a percepção é que não só a produção de junho será influenciada pelas manifestações, como os piores reflexos aparecerão nos indicadores de julho, principalmente, por causa das recentes paralisações de caminhoneiros, que dificultam o transporte de produtos nas estradas.

“A gente está passando por um momento de convulsão social, que se reflete no tecido econômico e traz uma nova perspectiva para o Banco Central. Já não cabe pensar em uma taxa básica de juros tão elevada, se o consumo está contido e a atividade industrial,em queda”, avalia Perfeito.

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