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Professor de História de São Paulo usa martelo para quebrar objetos depois de tentar negociar com a Dicico compensação pelo atraso na entrega de encomenda

Apesar de a frase ser antiga, é difícil não encontrar quem não discorde da afirmação "o consumidor tem sempre razão". Às vezes, um desabafo feito diretamente ao gerente da loja ou em uma rede social pode ser suficiente para amainar o ânimo. Para Rodrigo Ciríaco, de 32 anos, foi preciso ir muito além do diálogo, conforme relato feito ao iG.

Professor de História do ensino fundamental em uma escola estadual e outra municipal em São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo, ele diz que foi mal atendido pela loja de materiais de construção Dicico. A empresa, segundo o cliente, não cumpriu o prazo de entrega de todo o pedido.

A compra foi feita no dia 17, conta, e a entrega deveria ter ocorrido no dia 24. Ciríaco diz que foi quatro vezes até a loja para negociar a devolução do valor referente à mercadoria que não recebeu (R$ 411,98) e que teve de ser adquirida na C&C, loja concorrente, conforme acordo com a Dicico. "O que existe agora é a necessidade de reembolso desta compra duplicada, reembolso este que havia sido acordado para ser pago no mesmo dia da compra. A empresa voltou atrás, e ainda deve o reembolso da mão de obra paralisada por conta do atraso, no valor de R$ 600, totalizando R$ 1.011, 98 e não R$ 600, como a empresa alega", explica. Os R$ 600 referencem-se ao valor devido pelo professor ao pedreiro, que ficou sem trabalhar porque não havia material para a obra – resultado do atraso na entrega do pedido. A compra total chegou a R$ 4 mil, segundo o cliente.

De acordo com Ciríaco, a loja não cumpriu o prazo de entrega da encomenda e fez uma série de promessas; nenhuma delas foi cumprida. O desabafo do consumidor foi feito por meio de um depoimento publicado em um site de compatilhamento de vídeos. Desde sábado (29) até hoje pela manhã, já eram cerca de 70 mil visualizações. O título é bem inspirador: "Solucionou? Não, mas estou satisfeito".

Na sexta-feira (28), Ciríaco, que mora no bairro do Ipiranga, foi até a Dicico, na Avenida Radial Leste, e gravou um vídeo no qual narra o problema que teve com a empresa. O professor começa o relato ainda no estacionamento da Dicico: "Tem hora que a gente tem que ter dignidade. Eles têm que ter respeito pelas pessoas". Decidido, entra na loja: "Ô, Robson, se quiser ligar para o Renato diz para ele que não precisa me ressarcir não". Antes de iniciar seu dia de fúria, o professor avisa: "Eu vim buscar meu prejuízo é agora... o que vocês me devem eu vou pegar agora".

Marteladas

Com um martelo doméstico na mão, Ciríaco quebra a primeira peça, e avisa: "Eu comprei uma cuba dessa. Como não me entregaram.. [e ouve-se repetidamente estalos da ferramenta arrebentando a louça]. Não precisa mais entregar não".

Os funcionários tentam se aproximar e o professor avisa "não vem encostar em mim que o bicho vai pegar". E ouve-se mais algumas marteladas. Ciríaco segue pelo corredor, quebra outras peças e pede: "Chama a polícia, chama a polícia".

Um grupo de quatro funcionários tenta se aproximar de Ciríaco, que segue sem pressa em direção à porta da loja. Ouve-se no vídeo o comentário de um funcionário da Dicico: "Você acha que isso vai solucionar?". Rapidamente, o professor dispara: "Não vai solucionar, mas tô satisfeito". 

O desfecho não poderia ser mais banal. O rapaz caminha até a calçada, pega um ônibus e parte para uma reunião de trabalho.

Versão da empresa

A Dicico, fundada há 95 anos e que tem 58 lojas, informou por meio de nota que "não há produto em pendência de entrega com o consumidor". "O que havia era um acordo de ressarcimento do valor de R$ 600,00, com o qual a Dicico já tinha se comprometido. No transcorrer do período para o reembolso, a empresa foi surpreendida pela atitude demonstrada no vídeo: o consumidor quebrando produtos com uma marreta na loja". A empresa diz lamentar "profundamente a atitude do consumidor e esclarece que já tomou todas as ações cabíveis junto ao seu departamento jurídico e vai se reservar ao direito de responder em juízo". Ainda segundo a companhia, o jurídico tenta tirar o vídeo do ar porque "incita a violência e pode causar danos a clientes e colaboradores".

Ciríaco defende que o vídeo continue no ar "como exercício de liberdade de expressão e informação" e discorda que sua exibição incite a violência e possa causar danos. "O que incita a violência são injúrias, falta de transparência, quebra de confiança, apropriação indevida de valores e ausência de diálogo e predisposição para solução de conflitos, mostradas da parte da empresa", afirma.

Fã de Guimarães Rosa

Ciríaco conta que é formado em História pela Universidade de São Paulo. Ganha por mês por volta de R$ 2,5 mil como professor no ensino fundamental. Para fazer a reforma da casa, teve de tomar um empréstimo no banco. A dívida é de cerca de R$ 20 mil. "Quase implorei para que resolvessem meu caso, mas não resolveram", conta.

Ele diz que vai esperar até o fim da semana para tentar negociar com a Dicico. Se não houver acordo, vai procurar o Juizado de Pequenas Causas. "Não estou receoso. A Justiça existe para ambos os lados. Eles têm de responder pelo que me causaram". 

Além das aulas, há sete anos Ciríaco desenvolve um projeto de literatura com crianças. Apaixonado por literatura, ele já publicou dois livros de contos: "Te pego lá fora", sobre o universo de uma escola pública da periferia, e "100 mágoas". Seu autor preferido, diz, é Guimarães Rosa: "'Grande Sertão Veredas' fala por si". 

Recentemente, Ciríaco foi entrevistado pelo iG no canal de Educação. Na reportagem, o professor fala sobre o papel da escola e literatura marginal.


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