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Economia recebeu US$ 65 bilhões em 2012, aponta Unctad, em cenário de retração global

Num cenário de retração do investimento estrangeiro direto (IED) em todo o mundo, mas de avanço na América do Sul, o Brasil conseguiu subir no ranking de principais destinos desses capitais, da 5ª para a 4ª posição. O avanço aconteceu porque o volume aplicado no País, US$ 65 bilhões em 2012, caiu menos do que a média mundial: 2% ante 18% no resultado global, que terminou o ano em US$ 1,35 trilhão. 

De acordo com os dados, divulgados nesta quarta-feira (26) pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês), o Brasil ficou atrás apenas de Estados Unidos (US$ 168 bilhões), China (US$ 121 bilhões) e Hong Kong (US$ 75 bilhões). 

Já os investimentos brasileiros no exterior recuaram e fecharam em US$ 2,81 bilhões negativos em 2012. Segundo o relatório, o resultado foi afetado pelo pagamento de dívidas por filiais de companhias brasileiras no exterior às suas matrizes. O resultado fez com que o País deixasse o ranking das economias mais promissoras para IED de acordo com uma pesquisa feita junto a agências promotoras de investimento (como a Apex, no caso brasileiro).

O Ministério do Desenvolvimento disse que só poderia comentar os dados após analisá-los.

Quarta posição

Maiores destinos do investimento estrangeiro direto (IED) em 2012, em US$ bilhões

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Fonte: Unctad

Estímulos à indústria 

A grande disponibilidade de recursos naturais e a expansão do mercado consumidor tornaram a América do Sul um destino mais atrativo ao IED. O fluxo para a região cresceu 12%. No caso brasileiro, apesar do recuo de 2%, a Unctad considera que os investimentos continuam a ser "robustos" e lembra que a queda ocorreu após dois anos de "crescimento intensivo".

Fábrica da Fiat em Betim (MG): estímulos à indústria automobilística turbinaram IED no Brasil em 2012
Divulgação
Fábrica da Fiat em Betim (MG): estímulos à indústria automobilística turbinaram IED no Brasil em 2012

A Unctad atribui a atratividade do Brasil ao que chama de "nova política industrial" voltada ao maior desenvolvimento da indústria doméstica e ampliação das capacidades tecnológicas.

O relatório cita as desonerações e incentivos concedidos pelo Plano Brasil Maior, pacote de ajuda federal cuja segunda fase começou em 2012 e que, entre outras ações, reduz a tributação do trabalho para empresas de mão de obra intensiva e turbina os empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a alguns setores da economia.

É dado destaque, por exemplo, aos benefícios concedidos ao segmento automobilístico que, entre 2002 e 2012, recebeu aportes de US$ 35 bilhões do banco, segundo o documento. De acordo com a Unctad, o IED nesse segmento da indústria nacional saltou de uma média anual de US$ 116 milhões entre 2007 e 2010 para US$ 1,6 bilhão em 2011 e 2012.

"A indústria automotiva, dominada por corporações transnacionais, está entre as selecionadas pelo governo brasileiro  para estimular a competitividade e atualizar a tecnologia, desenvolvendo fornecedores locais e reduzindo o cresicmento da exportação", informa o documento da Unctad.

"Basicamente, o fato de termos um dos maiores mercados do mundo e com potencial de crescimento [ ajudou no avanço brasileiro no ranking ]", diz Antonio Corrêa de Lacerda, professor do Departamento de Economia da PUC-SP. "A crise na Europa, o excesso de investimentos na China são fatores que ressaltam as oportunidades do mercado brasileiro, onde algumas das carências – como infraestrutura e logística, por exemplo – representam grandes oportunidades para os investidores."

Pouca inserção em cadeias globais

Por outro lado, o Brasil apresenta uma menor inserção nas cadeias globais de valor (CGV) – pelas quais são dispersas as diversas fases de produção de bens e serviços. De acordo com o relatório, em 2010 a taxa de participação brasileira, de 37%, era a penúltima entre as 25 maiores economias exportadoras do mundo. A líder, Cingapura, tem um índice de 82% (veja tabela abaixo).

Leia também: Investimentos entre países dos Brics são escassos, aponta Unctad

"O Brasil recebe grandes volumes de investimento estrangeiro direto, mas este volume está basicamente voltado ao mercado interno. A nossa perda de competitividade nos torna alheios às grandes cadeias globais", afirma Lacerda, da PUC-SP. "O desafio será receber investimentos não apenas voltados para o mercado doméstico, mas para a exportação."

Além disso, ressalta a Unctad, a participação brasileira é sobretudo de baixo valor agregado. O relatório mostra que, enquanto 60% das exportações brasileiras são baseadas em recursos naturais e apenas 5% compostas de manufatura sofisticada, no caso chinês esses percentuais são respectivamente de 10% e 30%.

"O IED no Brasil, como acontece com muitos países da América Latina, é atraído por riquezas naturais, que é o primeiro escalão das cadeias globais de valor", afirma ao iG  Noelia Garcia Nebra, analista da Unctad. "O que se quer é seguir avançando e passar a atividades que tenham maior valor agregado."

A pesquisadora aponta a necessidade de o governo apoiar as pequenas e médias empresas no processo de inserção nas CGV. "Sabemos da grande importância na geração de emprego das pequenas e médias e empresas. Se elas ficam fora das GVC, significa que não conseguirão seguir avançando."

Desenvolvidos são ultrapassados

Os dados da Unctad apontam também que pela primeira vez os países em desenvolvimento passaram a deter a maior parte do IED mundial, 52%, ante 41,5% dos países desenvolvidos. 

Desenvolvidos recuam

Economias em desenvolvimento passam a responder por maior parcela do investimento estrangeiro direto (IED) do mundo

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Fonte: Unctad

A inversão histórica também decorre de intensidades diferentes de queda, e não de avanço. Enquanto os fluxos para os países em desenvolvimento recuaram 4% em 2012, os destinados aos desenvolvidos recuaram 32%. A União Europeia respondeu por dois terços da retração no IED destinado ao mundo desenvolvido.

Segundo a Unctad, o encolhimento global do IED é reflexo de um movimento de reestruturação dos ativos por parte das corporações transnacionais, que realizaram desinvestimentos e realocação de seus capitais. Os investidores, aponta o relatório, foram influenciados negativamente pela fragilidade econômica de grandes economias e pela incerteza sobre como os governos dessas pretendiam lidar com o cenário.

A expectativa da organização é que a retomada dos IED após a crise financeira de 2009 "vai levar mais tempo do que o esperado". Os níveis deverão se manter estáveis neste ano em comparação com 2012, e voltem a avançar mais intensamente entre 2013 e 2015, quando devem chegar US$ 1,8 trilhão.

Nesse período, aponta uma pesquisa feita pela Unctad junto às maiores corporações transnacionais, o Brasil deve voltar a a ser o 5ª maior destino das aplicações. A Indonésia passará a ocupar o 4º lugar.

Participação em cadeias globais de valor 
Cingapura  82%
Bélgica  79%
Holanda  76%
Reino Unido  76%
Hong Kong  72%
Suécia  69%
Malásia  68%
Alemanha  64%
Coréia do Sul  63%
França  63%
China  59%
Suíça  59%
Rússia  56%
Arábia Saudita  56%
Itália  53%
Tailândia  52%
Japão  51%
Taiwan  50%
Espanha  48%
Canadá  48%
Estados Unidos  45%
México  44%
Austrália  42%
Brasil  37%
Índia  36%
Fonte: Unctad


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