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Com pressão sobre câmbio, Banco Central poderia revogar medida que permite empresas deixar dinheiro lá fora

Desde abril de 2006, as companhias podem aplicar no exterior o valor integral das exportações
Divulgação
Desde abril de 2006, as companhias podem aplicar no exterior o valor integral das exportações

Em meio à turbulência do mercado de câmbio, algumas exportadoras nadam de braçada com a depreciação recente do real ante o dólar. Com mais de US$ 106 bilhões oriundos dos pagamentos das exportações, as empresas aproveitam a movimentação do câmbio. O que antes era uma proteção às variações da moeda, agora virou investimento. O valor representa pouco menos de um quarto de todas as reservas internacionais do governo federal e alcançou um novo recorde em abril. O anterior foi registrado ao final de 2012.

Atualmente, Petrobras e Vale, as maiores exportadoras de produtos básicos, lideram o ranking das empresas que seguram os dólares no exterior. Caso as pressões sobre o câmbio continuem forte nos próximos dias, alguns especialistas acreditam que o governo possa se valer destas reservas privadas para suavizar as variações. Como o mercado entende que as duas maiores sofrem forte influência do governo, sendo a Petrobras uma estatal e a segunda tem entre seus controladores o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, a equipe econômica poderia começar por elas esta movimentação.

Desde abril de 2006, as companhias podem aplicar no exterior o valor integral das exportações. A diferença entre o que é exportado e o que é contratado de câmbio compõe o montante, chamado de saldo de crédito comercial. À época da medida, o país era pressionado por uma valorização do real que poderia impactar o equilíbrio comercial. Henrique Meirelles, então presidente do Banco Central, alterou o Regulamento do Mercado de Câmbio e Capitais Internacionais (RMCCI) e incluiu um novo parágrafo ao capítulo de Disponibilidades no Exterior que permitia a operação.

Com a abertura, enormes montantes de dólares oriundos das vendas de commodities não precisariam mais voltar para o país, diminuindo a pressão cambial.Uma decisão do Banco Central, revogando a tomada em 2006, no entanto, seria uma medida destemperada para alguns analistas. “Hoje ninguém mais quer trazer o dinheiro porque está valorizando. Virou uma aplicação e não contribui em nada com a estabilização do real", reclama João Medeiros, diretor da corretora Pioneer.

Apesar da abertura para este tipo de operação ter sido feita em 2006, apenas em 2009 os exportadores começaram a deixar o dinheiro no exterior. Até então, era mais vantajoso trazer os dólares de volta, aproveitando a sobrevalorização do real. José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), lembra que a abertura para este tipo de aplicação foi feita de forma escalonada. Em um primeiro momento, até 30% das receitas das exportações poderiam ser mantidas no exterior. Depois, 100%. Agora, o Banco Central poderia fazer o processo reverso. "O exportador não vai trazer este dinheiro de volta até que ache um valor atraente para isso. O dólar a R$ 2,20 ainda não está neste patamar. Além disso, ele não quer que o real volte a se valorizar", afirma.

Medeiros também avalia como precipitada qualquer decisão que altere a RMCCI. Segundo ele, o dinheiro parado no exterior é utilizado por bancos para financiar outras operações de comércio exterior. Segundo ele, foram estes montantes que garantiram que não houvesse uma escassez de crédito para o setor em 2011.

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