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Para ela, os que criticam a condução econômica são “levianos” e advertiu: “Leviandade política é grave, porque afeta não uma pessoa, mas um país”

Recém-chegada de uma viagem a Portugual, a presidente Dilma Rousseff inspirou-se em um personagem de Camões em “Os Lusíadas”, o Velho do Restelo - figura pessimista que a todo instante maldizia as aventuras de Vasco da Gama rumo às índias - para criticar os “velhos do Restelo” que hoje importunam o governo com maus agouros para a economia.

Dilma chamou de “levianos” os críticos à política econômica
Agência Brasil
Dilma chamou de “levianos” os críticos à política econômica

Ao final do discurso de lançamento do programa Minha Casa Melhor, a presidente, que falava suavemente à plateia, subiu repentinamente o tom quando se dirigiu aos pessimistas do Brasil: “O Velho do Restelo vivia dizendo: ‘Não vai dar certo, não vai dar certo...’. Pois eu queria dizer a todos os brasileiros: não há a menor hipótese de que o meu governo não tenha uma política de controle e combate à inflação”. Dilma chamou de “levianos” os críticos à política econômica, afirmando: “Leviandade política é grave, porque ela não afeta a pessoa, ela afeta um país”. Segundo a presidente, “a situação real em que o Brasil vive é de inflação sob controle e contas públicas sob controle”.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não ouviu a defesa da presidente porque ficou em seu gabinete, com assessores, elaborando estratégias para acalmar o mercado. Ontem, esperava-se em alterações na política fiscal, com mudanças que denotem mais controle dos gastos públicos.

Diante do volume de desonerações negociadas com o setor empresarial e com a arrecadação minguada, especialistas acreditam que o governo não tem muita margem de manobra para promover um aperto fiscal este ano. “Para fazer ajuste para valer, o governo terá que tirar do caixa. Temo que apele pela fórmula mais tradicional, que é cortar investimentos”, diz Raul Velloso, especialista em contas públicas. O problema é que o próprio governo vem defendendo os investimentos como principal instrumento para alavancar a economia. “Vai ser uma contradição lamentável”, alerta Velloso.

Outra alternativa seria cortar os gastos de custeio. “Isto seria pura perfumaria, só para inglês ver”, vaticina Velloso, numa referência à revista britânica “The Economist”, um dos líderes na campanha por alterações na política e na equipe econômica do Brasil. Velloso lembra que o custeio não representa um volume muito elevado nas despesas públicas.

Pelo lado da receita, existe a possibilidade de suspender algumas desonerações, já que elas significarão renúncia fiscal de R$ 71 bilhões este ano e de R$ 91,5 bilhões em 2014. “Mas as consequências políticas de uma decisão como essa são ruins. Seria necessário analisar com muita cautela”, avalia o economista.

Até mesmo a meta de déficit nominal zero foi ressuscitada nos últimos dias. A ideia é defendida pelo economista e ex-ministro Delfim Neto desde o governo Lula, mas nunca emplacou. “O que interessa saber é o tamanho real do superávit, contabilizado corretamente”, defende Raul Velloso.

Em seu entender, a solução para o governo recuperar a credibilidade é a transparência nas contas. Para ele, a origem de toda essa onda de questionamentos sobre a equipe econômica está na decisão de omitir, nos últimos dois anos, a informação de que o superávit seria menor do que a meta proposta.

“No momento em que o governo decidiu que não iria anunciar o superávit menor e optou por fazer uma contabilidade criativa para ocultar isso, surgiu o problema que está estourando agora”, diz o especialista.

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