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Estudo mostra como salários crescem mais que a produtividade, comprometendo o desempenho das empresas

Brasil Econômico

O custo unitário do trabalho – custo da produção em relação a salários e encargos – cresceu 158% em 10 anos no Brasil, bem acima do resultado registrado em países como Estados Unidos, Japão, Itália, Espanha, Alemanha e Coreia do Sul.

Na comparação internacional, levando em consideração um patamar de base 100, entre 2001 e 2010 o custo unitário do trabalho no Brasil cresceu 112%, enquanto que, no Japão, no mesmo período, subiu apenas 9%, próximo do patamar de 2001. Nos Estados Unidos, o mesmo custo caiu 14% em dez anos.

Custo unitário do trabalho no Brasil cresceu 112%
TV iG
Custo unitário do trabalho no Brasil cresceu 112%

Esses dados foram calculados pela Gerência de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), baseados em informações do Bureau of Labor Statistics (BLS, órgão de estudos sobre emprego do governo norte-americano) e do Banco Central do Brasil.

“Os salários vêm crescendo acima da produtividade da indústria brasileira”, afirma Guilherme Mercês, economista da gerência de Economia e Estatística da Firjan. Ele explica que o custo unitário do trabalho é um indicador muito usado por Bancos Centrais de todo o mundo com o objetivo de avaliar a existência de pressões inflacionárias advindas do mercado de trabalho. “Esse indicador tem subido consideravelmente no Brasil, especialmente a partir de 2010, e de forma mais rápida do que em outros países”, observa.

Para o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), isso explica, em grande parte, o fraco desempenho da indústria brasileira. “Afeta a competitividade da indústria, pois torna a unidade produtiva mais cara”, argumenta. “Soma-se a isso o enorme custo tributário e logístico, carga de impostos elevada e complexa e infraestrutura deficiente, o chamado Custo Brasil”, diz. Segundo a Firjan, o Custo Brasil representa um acréscimo de 22,6% a 30,9% nos preços dos produtos da indústria de transformação do país. O produto nacional é, em média, 15% mais caro que o importado dos EUA, diz a Federação.

De acordo com o Índice de Competitividade Mundial 2013, divulgado recentemente pelo International Institute for Management Development (IMD), o Brasil perdeu ainda mais espaço no cenário internacional, passando para a 51ª posição, cinco abaixo do 46ª lugar ocupado no ranking do ano passado. A pesquisa avalia as condições de competitividade de 60 países a partir da análise de dados estatísticos nacionais e internacionais e pesquisas de opinião realizada com executivos.

Para o diretor do IMD, o grande problema do país é “muito consumo e pouca produção”. “A perda de produtividade da indústria brasileira está relacionada, em grande parte, ao mercado de trabalho aquecido”, explica o economista da Firjan. “De modo geral, na estrutura de custos de uma empresa a folha de pagamentos é o item principal. Isso é ainda mais verdade nos setores intensivos em mão de obra”, observa.

“Temos hoje uma situação parecida com a que aconteceu na Europa nas últimas décadas”, observa Barbosa Filho,da FGV. “O custo unitário da Grécia, por exemplo, em comparação com o da Alemanha, aumentou rápido demais. Parte da crise europeia é decorrente desse movimento de aumento do custo de trabalho em relação à produtividade”, alerta.

Para Barbosa Filho, o aumento do salário mínimo tem feito com que determinados setores, que não tiveram aumento de produtividade, sofram mais, como é o caso do setor industrial: “Para solucionar esse problema, só mesmo com medidas de longo prazo, como a redução do Custo Brasil, melhoria da infraestrutura etc. O aumento da renda do trabalhador é desejável, mas se isso ocorrer de forma acelerada e sem um movimento correspondente da produtividade, pode causar efeitos colaterais”, pondera. Especificamente, são dois efeitos: perda de competitividade do produto nacional e pressão sobre a inflação. “E isso torna esse movimento insustentável, pois sufoca as empresas, via aumento de custos, e os consumidores, via aumento da inflação (perda do poder de compra)”, diz Mercês.

Para o economista da Firjan, de modo geral o mundo – mas especialmente a Europa – tem se esforçado para conter e até mesmo reduzir os custos do trabalho, exatamente na tentativa de ganhar competitividade e crescer mais no futuro. “Esse é um desafio enorme e politicamente difícil de ser superado. Afinal, é difícil argumentar que menos salário hoje significa mais emprego no futuro”.

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