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Lei brasileira para estrangeiros dificulta trabalho também de investidores, como a SK

Sung: 'Tomava cuidado para não ter problema'
Vitor Sorano/iG
Sung: 'Tomava cuidado para não ter problema'

Sung tem US$ 100 milhões para comprar o controle de uma empresa no Brasil. O objetivo é transformá-la na “pedra fundamental”, no País, da gigante sul-coreana SK Holdings – hoje dona de uma parcela da MMX, de Eike Batista. Até há pouco, Sung andava um tanto às escondidas e ainda hoje prefere que seu nome verdadeiro não seja publicado.

“Tomava vários cuidados para não causar problemas. Ia de casa para o trabalho e do trabalho para casa, dirigia o carro muito devagar”, diz. “Soube que, em outra empresa, os empregados estavam orientados a se esconder se chegasse a fiscalização.”

O receio decorre do fato de que Sung foi, tecnicamente, um clandestino durante seus primeiros sete meses no País. O executivo chegou ao Brasil em janeiro de 2012, entregou a papelada às autoridades, mas seu visto só saiu em julho daquele ano. Local de retirada: Seul.  A legislação brasileira impede que os estrangeiros peguem o documento no País – e, como o iG mostrou ao longo desta semana, impõe dificuldades à integração da mão de obra internacional.

Sung pagou as multas, viajou por volta de 34 mil quilômetros e voltou. Valia mais a pena fazer o périplo do que esperar, já que negócios não esperam.

Time is money, right? É muito difícil ficarmos esperando e não fazer nada”, diz ele. “E nós viemos para investir”, diz, folheando planilhas que descrevem a SK como a terceira maior companhia da Coreia do Sul, com US$ 118 bilhões em ativos, à frente da LG.

Fatia permanente

Numa era em que a participação asiática no mercado de trabalho brasileiro se tornou menos japonesa e mais chinesa, os coreanos mantiveram inalterada sua fatia, segundo dados de uma amostra de 6 milhões de domicílios feita no âmbito do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2000, os trabalhadores nascidos no Japão representavam cerca de 60% dos asiáticos em atividade no País. Em 2010, caíram 40%. Quem tomou esse espaço foram os chineses, que, de 20% em 2000, duplicaram sua participação, para 40%.

Já os coreanos mantiveram seus 16% ao longo do período, apesar de o número absoluto de empregados ter caido de 5,2 mil para 4,9 mil.  Com isso, continuam a constituir a terceira maior colônia asiática no mercado de trabalho brasileiro. 

"Em apenas três países asiáticos a população usa palitos para comer. E apenas na Coreia se usa palito de metal", afirma o cônsul-geral da Coreia em São Paulo, Park Sang Shik, para metaforizar a habilidade e a sofisticação da cultura do país.

E alguns sinais sugerem um interesse renovado da nação asiática pelo Brasil. O número de autorizações de trabalho concedidas aos coreanos disparou 158% em dois anos, de 897 em 2010 para 2.311 em 2012, de acordo com o Ministério do Trabalho. O aumento só foi menor que o relativo aos portugueses (158%).

Um dos motivos para o aumento foi a entrada da Dongkuk e da Posco num projeto de mineração em Pecém (CE). Só no estado foram concedidas 297 autorizações em 2012.  No geral, entretanto, enquanto há 3 anos o Ministério dera 2,4 autorizações a chineses para cada uma dada aos coreanos, no ano passado essa razão caiu para 1,3.

Há também indícios de tentativas de diversificação dos investimentos. A SK, por exemplo, está atenta a qualquer setor, diz Sung. Hoje, a companhia atua apenas na de mineração, por meio da MMX.

"Estamos procurando qualquer oportunidade que seja estável e lucrativa”, diz ele, negando interesse em se desfazer da participação na empresa de Eike.

Mais menores

Embora nomes como Samsung, LG, Hyundai e a própria SK dominem a paisagem coreana no Brasil, o País deve se preparar para um aumento no número de pequenas e médias empresas interessadas em se estabelecer por aqui.

Em março passado, a presidente da Coreia, Park Geung-Hye, disse ter identificado um crescente  interesse das PMEs do país pelas Américas do Sul e Central, e afirmou que “o governo coreano irá apoiá-los, dando-lhes o suporte necessário”.

“É de importância máxima que pequenas ou médias empresas possam ingressar no Brasil”, afirma o cônsul-geral. "Hoje há 150 empresas coreanas no Brasil, das quais apenas dez são grandes, e podemos chegar a 500 em alguns anos.” Mas a dificuldade com o visto de trabalho pode minar o interesse.

Num sinal da maior integração entre as economias, lembra Park, neste ano a Universidade de São Paulo (USP) incluiu a habilitação em língua coreana no seu curso de Letras, por demanda dos próprios alunos. Das 15 vagas disponíveis, 13 foram preenchidas, informou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFLCH) da USP.

Sung, o diretor da multinacional SK, diz que ficaria no Brasil, mas quem decide é a empresa e por isso, já se preparar para partir.  Além das dicas turísticas – ele já visitou as Cataratas do Iguaçu e Campos do Jordão (no interior de São Paulo) –, provavelmente vai deixar ao sucessor o relato de seu período como um executivo clandestino no País.

"Daqui a dois ou três anos vou ser substituído. E com certeza a próxima pessoa vai sofrer o mesmo problema."

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