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Sem competitividade, montadoras instaladas no país desistem de exportar e produzem só para mercado interno

Um passado desbravador, mas com um futuro tímido. Esta é a realidade atual do setor automotivo brasileiro. Após conquistar mercados na África, Oriente Médio e Ásia, os carros brasileiros se reclusam aos mercados brasileiro e argentino, único país com uma pauta relevante de importação.

Durante três décadas, nos anos 70, 80 e 90, executivos das quatro principais montadoras instaladas no Brasil bolavam planos mirabolantes para vender automóveis para os mais diversos mercados no mundo. O ápice foi alcançado em 1997, poucos anos após a criação do Plano Real, quando o número de unidades exportadas chegou próximo de 1 milhão de unidades.

Em 1997 o número de unidades exportadas chegou próximo de 1 milhão de unidades
AE
Em 1997 o número de unidades exportadas chegou próximo de 1 milhão de unidades

Carros simples, como Uno, Voyage e Passat, de Fiat e Volkswagen, eram vendidos até para o Iraque, lembra Miguel Jorge, ex-ministro do Desenvolvimento. “Até a borracha usada nos carros mudava quando eram vendidos para locais frios”, afirma.

No entanto, a diversidade de destinos dos automóveis tupiniquins diminuiu após o acordo automotivo que integrou a produção de Brasil e Argentina. Desde então, as unidades fabris desses países buscaram atender apenas a suas demandas domésticas. A elevação dos custos de produção e exportação tiraram as plantas brasileiras do jogo globalizado.

O resultado disto está na participação de cada país na pauta de exportação brasileira. Enquanto nos anos 80 o principal comprador, a Itália, respondia por 32% das exportações, em 2012 a Argentina representou 80,3%. Sem contar com o México, que detém 10% de participação, os outros países apenas compõem uma exportação residual.

“Perdemos o bonde há tempos. Depois da crise, a situação piorou muito, pois todas as matrizes cortaram a importação das filiais. Montadora no Brasil serve para abastecer o mercado doméstico, e só”, diz Miguel Jorge.

Atualmente — com a concorrência de veículos asiáticos, que inundam o oriente médio e a África — os brasileiros não possuem competitividade nem para entrar em mercados emergentes. “O erro foi cometido há 30 anos, quando decidiram só fazer carros pequenos no Brasil. Esse mercado hoje é dos asiáticos. Fiz dezenas de missões empresariais à África e em nenhuma delas havia um único executivo do setor automotivo”, lamenta Jorge.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o custo Brasil, mais uma vez, é o responsável pela mudança do perfil exportador da indústria automotiva. “O Brasil era o fornecedor de veículos da América do Sul. Mas com o tempo, ficou extremamente desvantajoso exportar para qualquer país voltado para o Oceano Pacífico. Os asiáticos dominaram.”

Segundo Castro, caso não houvesse o acordo automotivo com a Argentina, nem mesmo para lá o país conseguiria exportar. “Nossa exportação só acontece porque é de interesse das montadoras ter uma reserva de mercado.”

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