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Em entrevista ao Brasil Econômico, Octavio de Barros diz ver como positiva a decisão do Banco Central de aumentar a taxa básica de juros (Selic)

Brasil Econômico

Na semana passada, o diretor do Departamento de Estudos e Pesquisas Econômicas do Bradesco, Octavio de Barros, esteve em Paris para participar do “International Economic Forum: Latin America and the Caribean”, promovido pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), organismo no qual trabalhou da década de 1990.

Enquanto debatia os rumos da América Latina, acompanhava os resultados do Brasil e a decisão do Banco Central sobre os juros. Ele está revendo as projeções de crescimento do PIB para algo entre de 2% e 2,5% e passou a trabalhar com uma taxa de juros de 8,75% a 9% até o fim do ano. Apesar de surpreso com a alta de 0,5 ponto percentual na Selic, o economista vê como positiva a decisão do BC. “Não é um aperto monetário dramático. Prefiro chamar de normalização da política monetária”, disse Octavio de Barros ao Brasil Econômico , em entrevista pelo telefone na sexta-feira. “O Brasil é vítima do próprio sucesso”, adverte o economista. “Aumentou o consumo, tem o fenômeno da classe média, a redução da pobreza. Tudo isso foi muito bom. Não acho que deveria ser diferente. Mas o efeito colateral é o brutal aumento de custo”

Para Octavio de Barros, a maior surpresa em relação ao PIB do primeiro trimestre deste ano foi o setor de serviços
Divulgação
Para Octavio de Barros, a maior surpresa em relação ao PIB do primeiro trimestre deste ano foi o setor de serviços

Brasil Econômico:  Semana passada fomos surpreendidos com um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,6% no primeiro trimestre. Que cenário o senhor traça agora para o país?

Octavio de Barros:  Os dados do PIB do primeiro trimestre surpreenderam a todos, inclusive ao próprio Banco Central (BC), que vinha com uma previsão de crescimento de 1,05%, de acordo o IBC-br (Índice de Atividade Econômica do BC). É importante lembrar que no quarto trimestre de 2012 também houve surpresa. Havia uma previsão de que o crescimento seria bem superior a 0,6%. Então, tanto o BC quanto o mercado foram surpreendidos duas vezes seguidas. Todos os indicadores e instituições que fazem pesquisas econômicas de qualidade estavam sugerindo uma atividade rodando um pouco mais forte. Claro que o IBGE tem critérios sérios, seguindo os manuais internacionais. Se não fosse o crescimento forte da agricultura, o PIB teria ficado perto de zero. Foi surpreendente e obrigou todas as instituições a revisarem previsões. O Bradesco previa 2,8%, já revisados, pois começamos o ano prevendo 3,5%. Ainda estamos trabalhando nova revisão, mas não nos surpreenderá se ficarmos com algo entre 2% e 2,5% - mais perto dos 2%.

Brasil Econômico: Qual foi a maior surpresa?

Octavio de Barros:  O setor de serviços. Após dez anos de crescimento muito forte, já havia indicadores apontando que o setor estava com certa saturação. O IBGE capturou isso antes. Houve um modestíssimo crescimento de 0,5%. Tivemos uma explosão desse setor em função do aumento da renda. Serviços dialogam intensamente com a renda. O maior fenômeno na última década do Brasil foi a mudança no padrão salarial, que turbinou muito o setor de serviços. A minha visão era de que o setor tenderia, depois desse crescimento exuberante, a encontrar taxas de crescimento bem mais moderadas.

Na verdade, o menor crescimento de serviços é uma coisa boa, já estava no nosso radar, sobretudo nos cenários de inflação, porque, além da pressão dos preços dos alimentos, a inflação brasileira é essencialmente de serviços. Com essa desaceleração, a tendência é de que a inflação do setor também se reduza. Então, esse dado do PIB traz embutido uma questão relevante de que a inflação de serviços pode ter perspectivas melhores e até surpreender para baixo. Estamos projetando 7,7% este ano. Pode ser até que fique abaixo de 7%.

Brasil Econômico: O aumento da renda, então, tem seus efeitos colaterais?

Octavio de Barros:  Costumo dizer que o Brasil é vítima do seu próprio sucesso. Nos últimos dez anos, tivemos uma mudança espetacular e positiva no padrão salarial. Houve uma melhora notável da qualidade de vida do brasileiro. Basta ver o Índice de Gini, melhoramos ano após ano. Aumentou o consumo, tem o fenômeno da classe média e os percentuais da redução da pobreza são espetaculares. Tudo isso foi muito bom, sem dúvidas. Mas o efeito colateral é o brutal aumento de custos, que encontrou o setor industrial despreparado para esse novo padrão salarial. Segundo o Bureau of Labor Statistics, órgão de estatísticas de emprego dos Estados Unidos, o custo horário salarial industrial brasileiro cresceu 95% em dólares desde 2006. Foi o maior incremento do mundo. As outras atividades, comércio, serviços, agricultura, não sofreram. Mas a indústria não estava preparada, não tinha capacidade de enfrentar o mundo todo querendo invadir o Brasil. O mundo industrial está com uma imensa sobreoferta de produtos. Os produtores do mundo inteiro estão desesperados em busca de mercados para sua produção, estão todos ociosos. O Brasil é candidatíssimo a ser invadido porque seu mercado é parrudo. E não tem capacidade de competir.

O aumento do frete no Brasil também tem que ser contextualizado nessa reflexão. É o custo do caminhoneiro e faz parte desse pacote de melhores condições sociais. A ideia de que o caminhoneiro tem que ter um salário melhor e dormir oito horas por dia para evitar acidentes aumentou brutalmente o custo. Tem também o custo dos serviços domésticos. Tudo muito legítimo e compreensível numa sociedade madura. É um pacote de melhorias sociais muito positivo, mas, pelo menos temporariamente, traz efeitos colaterais na economia. Até na infraestrutura somos vítima do nosso sucesso. Ela não estava preparada para esse fenômeno da grande inclusão social dos últimos dez anos. Empresas que sempre trabalharam com projeção de demandas vegetativas por infraestrutura nunca poderiam projetar que teríamos as taxas de crescimento da frequência em aeroportos e estradas como as que tivemos nos últimos anos. O gargalo dos aeroportos é emblemático disto.

Brasil Econômico: O ministro Guido Mantega e o presidente do BC, Alexandre Tombini, têm dito que o foco agora é o investimento, e não mais o consumo. Estão corretos?

Octavio de Barros:  O consumo crescer pouco, por um lado, é boa notícia. Os investimentos tendem a crescer acima do consumo das famílias. Há notícias de que na infraestrutura esses investimentos tendem a decolar. Não é exuberante, mas está destravando. A infraestrutura vai comandar o crescimento nos próximos 10 anos.

Brasil Econômico: Mas o governo está tendo que oferecer vantagens para destravar os investimentos...

Octavio de Barros:  O Bradesco acompanha todos os projetos de investimento que podem acontecer no Brasil e posso garantir que capturamos uma mudança de atitude em relação à mobilização do setor privado, que agora tende a ser protagonista nos investimentos infraestruturais. Perdemos um tempo nisso, mas agora o sentido de urgência me parece que emplacou. Do ponto de vista dos demais investimentos, o Brasil tem uma grande vantagem, que é sua diversidade setorial. Depois da China, o Brasil é o país com maior diversidade setorial.

Brasil Econômico: O “Financial Times” afirmou que o Brasil perde oportunidades por causa de um marco regulatório confuso e que muda a todo instante...

Octavio de Barros:  Discordo peremptoriamente, essa é uma visão car icatural e equivocada. O “Financial Times” adora caricaturas, toda hora coloca um país voando na capa e depois se arrepende da bravata. Boa parte dos problemas que o Brasil enfrenta são comuns em países emergentes, como reclamações sobre licenciamento em geral e ambiental, ou ligadas a tribunais de contas. No encontro da OCDE, ouvi palestras de ministros de vários países emergentes. Parecia que eu estava ouvindo falar do Brasil. Essas dificuldades, que achamos serem tipicamente brasileiras, estão no México, no Peru, na Colômbia, no Chile. O investimento infraestrutural tem dificuldades inerentes ao que chamo de “ estado burocrático moderno”. São demandas da sociedade por mais controle e vigilância nas questões ambientais e financeiras que marcam os países emergentes.

Brasil Econômico:  Como estimular investimentos quando se aumenta os juros no mesmo dia em que sai um PIB fraco? O BC surpreendeu?

Octavio de Barros:  Sim. A nossa previsão era de elevação em 0,25 ponto percentual. Para nós, 0,25 era uma nova métrica que viria para ficar. O patamar nominal dos juros no Brasil nos fazia acreditar que os movimentos do BC seriam similares a movimentos de BCs de países maduros que agem no ritmo de 0,25. Errei. Faz parte. Mas essa surpresa acabou sendo positiva, porque reafirma a autonomia do Banco Central e joga uma pá de cal na tese de que o BC sofre outras influências ou está sendo negligente com a inflação. Não há dúvida de que, com essa decisão, o BC confirma sua autonomia e determinação em acelerar o processo de convergência da inflação para a meta de 4,5%, quem sabe já em 2014. O repasse de preços de alimentos para o varejo já está ocorrendo, mas a ação do BC pode ajudar a acelerar esse repasse e também vai contribuir para melhorar as expectativas de inflação, sobretudo em 2014.

Brasil Econômico: Mas não pode esfriar ainda mais a economia?

Octavio de Barros:  No curto prazo, esse risco existe. Mas no médio prazo pode ser que essa ação do BC tenha um benefício, na medida em que haja uma convergência para o centro da meta de inflação no ano que vem. Ele faz esse sacrifício neste ano de 2013. O PIB tem chance de ficar em apenas 2%, mas abre a perspectiva de um crescimento maior em 2014. Nós estamos trabalhando com uma projeção entre 3% e 3,5%. Mas muita água vai rolar ainda. Tenho para mim que o BC tem muito mais informações do que nós, pobres mortais. A minha intuição é de que o aperto monetário não vai ter um ciclo muito pesado. Acho que vai haver mais uma rodada de 0,5 e depois outra de 0,25. O ciclo pode se encerrar com 8,75% ou 9% e ainda será uma taxa de juros nominal de um dígito. Não é um aperto dramático. Prefiro chamar de normalização da política monetária. Tem inevitavelmente alguma consequência sobre a atividade, mas pode servir para melhorar a confiança de consumidores e empresários a médio prazo. Eu teria feito diferente, mas quem está no BC tem bem mais informações do que eu. Respeito muito a qualidade dos diretores do BC.

Brasil Econômico: Qual é a perspectiva para a indústria?

Octavio de Barros:  A indústria está vivendo um período melhor que em 2012. Ela passou um ano e meio com uma megaociosidade. Houve baixo investimento em 2011 e 2012. Agora, essa ociosidade desapareceu praticamente em todos os setores. Daqui para frente, o crescimento industrial vai dilogar com o ritmo de crescimento da demanda. Estamos trabalhando com crescimento industrial entre 2% e 2,5% para 2013.

Brasil Econômico: Voltando ao resultado baixo do PIB, o que se viu também foi um impacto no setor externo.

Octavio de Barros:  Não é um fenômeno específico nosso. As exportações estão ruins para todos os países. Neste seminário da OCDE ficou claro que o comércio mundial está pífio em 2013. O mercado europeu está fraquíssimo. A China está desacelerando e já há uma convergência de opiniões em relação ao de crescimento da China: a leitura média dos especialistas é de que, em cinco anos a China vai crescer em patamares normais, na direção de 5%. Isso evidentemente afeta nossas exportações. Este ano o que nos prejudicou foi o repeteco da queda das exportações para a Argentina, que não esperávamos tanto, e a brutal queda de vendas de petróleo para os Estados Unidos, por razões de produção doméstica e pela revolução energética nos EUA. Mas todas as economias do mundo estão falando em desaceleração. O PIB potencial de todo o mundo é menor.

Brasil Econômico: Qual seria o ponto de equilíbrio em relação ao câmbio?

Octavio de Barros:  O grande movimento cambial que se observa no Brasil é um movimento mundial. As taxas longas de juros nos EUA começaram a aumentar e isso acaba fortalecendo bastante o dólar. A depreciação do câmbio no Brasil tem alguma coisa mais estrutural, que é essa leitura mais generosa que o mundo está fazendo da economia norte-americana - ainda que o desempenho seja relativamente modesto, com previsão de crescimento de 1,9% nos EUA, segundo a OCDE. Creio que a autoridade monetária e o governo estejam esperando esse movimento mais global do dólar para tomar alguma atitude. As autoridades têm consciência de que uma depreciação muito forte da moeda brasileira, ainda que desejável no médio prazo, é muito inconveniente no curto prazo, por conta desse trabalho de convergência da inflação para a meta. Além disso, uma depreciação mais forte do real agora vai atrasar a recuperação, porque vai bater no endividamento das empresas em moeda estrangeira.Não acredito em intervenção enquanto não tivermos mais clareza sobre o dólar no mundo.

Brasil Econômico: O fim do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% para o capital externo atrairia mais investimento para o Brasil?

Octavio de Barros:  Esse IOF é inoportuno agora. Está criando dificuldades para que tenhamos uma leitura mais realista do nosso câmbio flutuante. O risco é zero de que o real se valorize muito com o eventual fim do IOF. Se o governo eliminasse o IOF, poderia ser uma excepcional medida, até para nós entendermos para onde vai o câmbio. Além disso, seria um soberbo sinal positivo para os investidores do mundo inteiro que ainda estão relutantes em investir no Brasil, justamente por saber que eles vão ter que recolher 6% já na entrada, na cabeça. Se o IOF fosse eliminado, seria um sinal bem positivo junto aos investidores externos. Fim do intervencionismo no câmbio e um BC mais flexível para fazer o que for necessário nos juros teriam, juntos, um benefício de imagem magnífico para o Brasil nesse momento de ceticismo global em relação ao país.

Brasil Econômico: Algumas pessoas falam em estag-flação. É exagero?

Octavio de Barros:  O conceito de estagflação está sendo usado de maneira inapropriada. Se você analisar os manuais, o conceito de estagflação pressupõe desemprego alto. E o desemprego no Brasil está em um patamar extremamente baixo, um dos mais baixos do mundo. O maior problema do Brasil é basicamente de custos salariais, e isso vai mudar. A demografia no Brasil está jogando contra o crescimento econômico. O crescimento demográfico até o final da década vai ficar abaixo da média dos países desenvolvidos - o que significará menos pessoas entrando no mercado de trabalho. O número de filhos por mulher no Brasil é o segundo menor da América Latina. Só perdemos para Cuba.

Outro aspecto chocante é que o número absoluto de jovens de 18 a 24 anos no Brasil está caindo. Eram quase 25 milhões em 2005 e fechamos o ano passado com menos de 23 milhões. Essa tendência seguirá por alguns anos. E o mais complexo é que esses jovens estão ficando mais tempo na escola, estão demorando mais para ingressar no mercado de trabalho. A oferta de mão de obra está crescendo desde 2004 um ponto percentual a menos do que a demanda de mão de obra, a cada ano. Isso fez com que o Brasil tenha experimentado, na última década, aquilo que foi o elemento mais importante na economia brasileira, que foi a mudança no padrão salarial. Portanto a mudança no padrão salarial brasileiro tem a ver com aspectos eminentemente demográficos. No curto prazo, isso está colocando um problema de custos salariais brutais. Não há como resolver esse problema de custo salarial no Brasil. Não há como o desemprego aumentar no Brasil. Precisaríamos de uma mega recessão com crescimento negativo para isso acontecer, mas não acredito nessa insanidade no mundo em que vivemos.

Brasil Econômico: Mais um problema para a indústria...

Octavio de Barros:  A questão é que a indústria não consegue repassar esse custo, enquanto serviços e comércio repassam automaticamente. A inflação de serviços no Brasil roda entre 8% e 9%, que é próxima do crescimento nominal dos salários. Mas a indústria não consegue. A inflação acumulada de dez anos do setor industrial brasileiro foi de 13%, contra uma aumento de 100% dos salários. A indústria de bens duráveis, por exemplo, teve uma inflação acumulada em dez anos de 3%. Ou seja, em muitos anos houve deflação de duráveis. Significa que a indústria incorreu nesse aumento brutal de custos e não conseguiu repassar, ao contrário do setor de serviços. Os salários vão continuar pressionados. O salário horário industrial no Brasil é três vezes o do México e quatro vezes o da China. Isso não vai mudar, os salários não vão cair no Brasil. Não existe milagre. Só há uma saída.

Brasil Econômico: E qual seria essa saída?

Octavio de Barros:  Aumentar a produtividade. Isso não é retórica, virou um imperativo. As empresas precisam investir pesadamente em automação, em aumento de eficiência, em reduzir custos em geral e em educação e formação de profissionais. O Brasil só pode ter uma prioridade: a produtividade em todos os setores, e isso vale para o setor público também. Como tenho relação bastante intensa com empresas, conheço várias que estão obcecadas por custos. Praticamente todos os empresários brasileiros estão focados na questão de custos. Eles não têm como enfrentar a questão salarial, eles estão cortando outros custos, racionalizando, aumentando a produtividade. E esse esforço coletivo por redução de custos acaba gerando, num primeiro momento, uma atividade econômica mais baixa. Isso ajuda a explicar uma parte do crescimento menor. Só isso vai ajudar a gente a sair da armadilha da inflação. Nós temos hoje essencialmente uma inflação de custos salariais.

Brasil Econômico: Então, o aumento da Selic não resolve, não é?

Octavio de Barros:  Se nós dependermos única e exclusivamente da política monetária para enfrentar o desafio da inflação, teremos muita dificuldade. Precisamos de um grande esforço, uma espécie de consciência coletiva pela produtividade. Por sugestão de um amigo que trabalha no governo, ousaria dizer que precisamos de um “Plano Real 2”, no sentido de mais esforços para reduzir a indexação da economia ou mais reformas para aumentar a produtividade. Esse fardo de manter a inflação na meta não pode ser exclusivo do BC, tem que ser um esforço coletivo nacional de aumento de produtividade e da eficiência. Esse é o nosso calcanhar de Aquiles.

Por Octávio Costa e Edla Lula

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