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Após alta expressiva no início do governo Lula, gasto doméstico dá sinais de estabilização

Apontado como motor do crescimento econômico brasileiro nos últimos anos, o consumo das famílias dá sinais de esfriamento. No primeiro trimestre, a variável ficou praticamente estável em relação aos três últimos meses do ano passado, com alta de 0,1%. O dado foi divulgado pelo IBGE na quarta-feira (29), junto com a publicação do PIB do período, que teve alta de 0,6%

Na comparação entre trimestres iguais (por exemplo, o primeiro deste ano e primeiro do ano passado), é possível notar que o consumo se acomodou num patamar baixo, que nos últimos nove anos só foi visto no auge da crise econômica internacional (veja no gráfico abaixo). Nos trimestres recentes, essa expansão tem ficado na casa dos 2%, bem abaixo dos picos de 8,5% ou 7,7% da última década.  

"Havia muita demanda reprimida no Brasil, ou seja, as pessoas precisavam de bens básicos, mas que antes não cabiam no orçamento. Agora o momento é outro. Quem comprou um liquidificador ou um carro há três anos, por exemplo, não vai comprar outro agora", diz Celina Ramalho, professora de planejamento e análise econômica da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Bolso fechado

Consumo das famílias só esteve num patamar tão baixo no auge da crise, em 2009

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Fonte: IBGE


O consumo das famílias é responsável pela compra de 65% de tudo que se produziu no País no primeiro trimestre, ou seja, do PIB do período. Por isso, o apetite do mercado interno tem impacto direto sobre o crescimento da economia.

"Este resultado era esperado, afinal não é razoável supor que a demanda das famílias cresça de maneira ininterrupta por um período tão grande. Apesar disso, a variação anual acumulada ainda está em robustos 3% (a média desde 2009 é de 4,7%)", diz relatório da Gradual Investimentos, assinado pelo economista André Perfeito.

Além disso, os especialistas apontam outros fatores para explicar o esfriamento do consumo. "A geração de emprego perdeu um pouco de fôlego, houve inflação forte – que 'come' o dinheiro das pessoas – e o crédito para pessoa física continua aquém do ideal", disse ao iG a economista Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendências, antes da divulgação do dado.

Supermercado de SP:
Paulo Liebert/AE
Supermercado de SP: "motor do crescimento deve passar a ser os investimentos", diz especialista

Outra explicação tem a ver com o fim dos estímulos governamentais às compras. "Quando precisou se recuperar da crise americana, o governo estimulou o consumo, com isenções de IPI e estímulos aos crédito. Agora, o foco é estimular os investimentos, com concessões de infraestrutura e isenções em energia, por exemplo", diz Celina, da FGV.

O governo reforça essa ideia de mudança de foco. Após a divulgação do PIB trimestral, Guido Mantega, ministro da Fazenda, afirmou que não pretende fazer novos estímulos ao consumo e espera que o setor se recupere a partir do dinamismo dos investimentos.

A redução na oferta de serviços também contribuiu para frear o consumo. "É bastante provável que [ o dado ] seja reflexo da forte queda observada no item Outros Serviços, uma vez que o consumo de serviços responde por cerca de metade do consumo familiar. Tal componente engloba uma série de serviços prestados às empresas e às famílias", informa relatório da LCA Consultores.

Para o Itaú Unibanco, a desaceleração no consumo ocorreu em ritmo maior que a projetada. "O consumo das famílias decepcionou. O aumento de 0,1% ficou abaixo da nossa projeção (1,2%). A perspectiva para o ano é de crescimento do consumo, embora em ritmo moderado", diz relatório do banco, assinado pelo economista Aurélio Bicalho.

"Ainda há potencial de consumo da classe média, uma vez que mais brasileiros devem passar a integrar esse grupo nos próximos anos", diz Celina. "Mas o 'motor da economia' deve passar a ser o investimento", afirma a especialista.  


* Com Agência Estado