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Moeda virtual aceita no 'mundo real' valorizou 941% desde estreia no País, em julho de 2011

Mike Caldwell, que cunhou moedas de bitcoin: Banco Central pode passar a regular transações
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Mike Caldwell, que cunhou moedas de bitcoin: Banco Central pode passar a regular transações

Mais de 42 mil bitcoins, moeda virtual que pode ser usada para comprar bens e serviços reais, já foram vendidos no Brasil desde que a novidade chegou por aqui, em julho de 2011 . Na atual cotação da moeda, que teve alta de 941% no período e custa R$ 250 a unidade, esse total equivale a pouco mais de R$ 10 milhões. "É mais do que eu calculava quando iniciei o projeto", diz Leandro César, criador do site Mercado Bitcoin, primeiro serviço de câmbio do tipo no País.

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É impossível, no entanto, dizer que parcela desse "dinheiro" digital circula no Brasil, ou quem o possui. O bitcoin oferece anonimato – e ausência quase total de taxação – aos usuários. "Muita gente usa para enviar dinheiro a outros países e escapar das taxas e impostos”, afirmou Leandro ao iG , na estreia do serviço. 

Na segunda-feira (20), o governo publicou nota no diário oficial atribuindo responsabilidade sobre meios de pagamentos digitais – o que, para especialistas, pode incluir o bitcoin – ao Banco Central, que passou a ter 180 dias para definir como irá reger a questão. "Para nós, é uma boa notícia. Indica que o Brasil não vai proibir a moeda, vai regular", diz Leandro.

Apesar da expressiva valorização nesses últimos dois anos, o bitcoin chegou a valer mais que o dobro da atual cotação. Há cerca de um mês, a moeda atingiu um pico histórico de US$ 266 a unidade, contra os US$ 122 atuais (ou R$ 250). Mas um ataque hacker, que congestionou e tornou indisponível o sistema de câmbio, provocou nervosismo e fez a cotação despencar a US$ 0,01. 

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A moeda tem variado de forma brusca e imprevisível. No Brasil, estreou valendo R$ 24, mas a cotação já flutuou amplamente, num intervalo que foi de R$ 8 a R$ 350. "Quem comprou no início visando o longo prazo se deu bem", afirma Leandro.

Uma forte alta ocorreu no final do ano passado, quando o sistema de "mineração", que cria novos bitcoins, passou a pagar metade do valor anterior aos "mineradores", ou seja, reduziu pela metade o ritmo de entrada de moeda no mercado – e menos bitcoins implicam bitcoins mais caros. Além disso, a "mineração" é finita. A moeda será criada, em ritmo cada vez menor, até 2030, quando a quantidade se estabilizará em pouco menos de 21 milhões de bitcoins. "Isso também faz a cotação subir, porque ele vai se tornar cada vez mais raro", diz Leandro.

Entenda o bitcoin

O bitcoin foi inventado por um programador – ou grupo de programadores, ninguém sabe ao certo – identificado pelo pseudônimo Satoshi Nakamoto, em 2009. Ao contrário de outras moedas eletrônicas, que só eram úteis no universo virtual (como o Linden Dollar, do Second Life, que só comprava "bens" virtuais do jogo), o bitcoin é usado para comprar bens e serviços reais.

Apesar de ser chamado “primeira moeda digital descentralizada” e receber a abreviação comercial BTC, o bitcoin não é exatamente uma moeda. Ele não existe de forma palpável – com exceção de algumas unidades cunhadas por um entusiasta americano chamado Mike Caldwell, que levam códigos alfanuméricos escondidos. Normalmente cada transação é somente um código desse tipo, trocado entre quem vende e compra algo. 

Além disso, não existem bancos ou governos que regulem o bitcoin. Dessa forma, expressões como "commodity digital" ou "ouro digital" são frequentemente usadas para explicar seu funcionamento. Como não há insituições centralizando as operações, elas são praticamente impossíveis de serem rastreadas. Alguns especialistas, contudo, afirmam que uma negociação de grande valor poderia ser identificada através da triangulação de informações.

A segurança é garantida por um sistema engenhoso. Para que mais dinheiro seja criado, é preciso que “pepitas” de bitcoins sejam “mineradas” por garimpeiros virtuais. Em vez de picaretas, eles usam a capacidade de processamento de suas máquinas. A sacada está no fato de que esses cálculos ajudam a melhorar a criptografia do sistema, evitando trapaças financeiras. Diversos especialistas enaltecem a suposta genialidade dos códigos.

Atualmente, ela pode ser usada para comprar desde roupas feitas com lã de alpaca a serviços como criação de logotipos ou assistência jurídica. A maior parte dos serviços que aceitam bitcoin está ligada ao universo digital, como programação de sites ou assistências tecnológicas. 

Leandro afirma que, mesmo antes da regulação, comprar e vender bitcoins no Brasil é uma operação considerada legal. "Não é entendida como câmbio, porque o bitcoin não é formalmente uma moeda", explica. "É como comprar um produto qualquer".