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A poucos minutos de distância do Banco Central do país, uma estrutura de sete andares rodeada por árvores floridas, paraguaios vasculham o esgoto para sobreviver

NYT

Uma visita ao Banco Central do Paraguai, uma estrutura de sete andares rodeada por árvores floridas, mostra uma mensagem clara: oficiais orgulhosamente exibem gráficos mostrando um crescimento econômico vertiginoso.

O ministro da Fazenda, Manuel Ferreira, prevê um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 10% e 11% em 2013. Já o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial trabalham com uma estimativa que varia de 8% a 11%. De acordo com dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), divulgados recentemente, o Paraguai vai liderar o crescimento econômico da região em 2013, com estimativa de 10% de elevação do PIB.

Apesar da previsão exuberante para a economia, a poucos minutos de distância de carro do vistoso prédio do Banco Central, em uma manhã recente, avós vasculhavam o esgoto da labiríntica favela de La Chacarita, em busca de fios de cobre e latas de alumínio para vender como sucata.

"Gostaria de saber onde está este suposto crescimento", disse Cecilia Aguirre, 60, segurando um saco plástico com material que havia recolhido no dia, que lhe renderia o equivalente a US$ 4.

Exposta ao sol escaldante, ela disse que trabalhava todos os dias para alimentar os quatro netos que moram em sua casa.

Quando questionada a respeito da economia robusta do Paraguai, ela acrescentou: "Eu não senti isso em nenhum momento de minha vida."

Na verdade, o boom econômico do Paraguai, alimentado por colheitas abundantes de produtos para exportação, como a soja e o milho, existe apenas de maneira fragmentada. Em algumas partes de Assunção, lojas vendem Porsches e Audis e guindastes estão dando os retoques finais em torres de luxo como o Icono, um arranha-céu de 37 andares com lofts à venda.

No entanto, grande parte do país, que há muito tempo tem se encontrado entre as nações mais pobres e mais desiguais da América do Sul, continua sendo deixada para trás. Mais de 30% da população vive em situação de pobreza, de acordo com o Banco Central, e o Paraguai está entre os últimos na relação de países da América do Sul que estão combatendo a pobreza na última década, de acordo com as Nações Unidas.

O Paraguai é um país sem litoral do tamanho da Califórnia, localizado entre o sul do Brasil e o norte da Argentina, com uma população de 6,5 milhões. Cerca de 77% de sua terra arável é controlada por 1% dos proprietários de terra do país, de acordo com o mais recente censo agrícola, e disputas de terra ocorrem em várias partes do país.

Ativistas afirmaram que há décadas grandes extensões de terra foram distribuídas ilegalmente por oficiais corruptos, abrindo espaço para questionamentos de muitos dos títulos de terra. Em um confronto particularmente sangrento em junho, 11 camponeses e seis policiais foram mortos em uma propriedade de soja em Curuguaty, no leste do Paraguai.

Mulheres vasculham o lixo em busca de sucatas e fios de cobres para serem vendidos nas águas do poluído rio da favela La Chacarita, em Assunção
NYT
Mulheres vasculham o lixo em busca de sucatas e fios de cobres para serem vendidos nas águas do poluído rio da favela La Chacarita, em Assunção

Legisladores aproveitaram esse episódio como uma maneira de derrubar Fernando Lugo, ex-bispo católico que foi eleito presidente em 2008, encerrando seis décadas de governo de um único partido. Inicialmente esperava-se que Lugo fosse se concentrar em reduzir a desigualdade, mas ele enfrentou muitos obstáculos em suas tentativas.

O novo presidente do Paraguai é um dos homens mais ricos do país, o magnata do tabaco Horacio Cartes, que foi eleito domingo após ter promovido políticas de negócios conservadoras durante sua campanha. Ele reconheceu a pobreza como sendo um problema, mas tem sido vago sobre seus planos para reduzi-la além de tentar criar mais empregos por meio de investimentos privados.

Economistas do governo continuam otimistas a respeito do crescimento, argumentando que o Paraguai, país que foi devastado por uma guerra no século 19 que acabou com a maioria de sua população masculina e foi governado durante a maior parte do século 20 pelo general Alfredo Stroessner, um dos ditadores que permaneceu no poder durante mais tempo, está emergindo de décadas de ostracismo na economia global.

O Paraguai vendeu US$ 500 milhões em títulos em janeiro nos mercados internacionais, uma rara fonte de financiamento para uma nação esquecida por muitos banqueiros estrangeiros durante décadas. A inflação e o desemprego permanecem baixos, 2% e 6%, respectivamente, e a taxa de pobreza global caiu de 44 % em 2003 para cerca de 32% em 2011, disse Roland Horst, membro da diretoria do Banco Central.

"Nós sempre tivemos um problema com os camponeses", disse Horst. "Mas, existe menos tensão do que há 10 anos."

Ele disse que o governo vinha tentando reduzir a pobreza, observando que um programa de dar pequenas remunerações às pessoas em situação de extrema pobreza foi iniciado em 2005 e incluiu mais de 75 mil famílias. Outros economistas, no entanto, disputam tais avaliações positivas, argumentando que a economia continua sujeita a grandes oscilações e está crescendo este ano graças, em parte, ao clima favorável para determinadas culturas.

"As estatísticas que mostram baixos índice de desemprego são uma farsa", disse Luis Rojas Villagra, um economista da Universidade Nacional, que estima que até metade da força de trabalho do Paraguai está desempregada ou subempregada em empregos com salários e condições de trabalho degradantes.

"Como é possível conciliar o fato de que centenas de pessoas sobrevivem dia após dia vasculhando a lixeira municipal de Assunção, enquanto alguns paraguaios também são os maiores gastadores per capita em Punta del Este?", disse Rojas Villagra, referindo-se a cidade resort uruguaia onde paraguaios ricos tiram férias ao lado de argentinos e brasileiros.

Tais contrastes persistem por toda economia paraguaia. Bolsões de luxo, por exemplo, estão se expandindo perto de Ciudad del Este, cidade na fronteira com o Brasil conhecida por ser um paraíso para os contrabandistas.

Mas em outros lugares, inclusive nas regiões de soja que têm alimentado o crescimento, os exemplos de disparidades e disputas, em grande parte pela terra, não faltam. Um pequeno grupo de rebeldes de esquerda conhecido como Exército do Povo Paraguaio tem lutado contra forças de segurança em áreas remotas. Na semana passada, o grupo matou pelo menos um policial e feriu vários outros.

Em dezembro passado, homens armados mataram Vidal Vega, um líder do movimento camponês envolvido no confronto mortal em Curuguaty. Ele seria uma testemunha no julgamento criminal que visava esclarecer fatos a respeito do massacre. O inquérito sobre sua morte, como em casos semelhantes de líderes camponeses mortos no Paraguai nos últimos anos, revelou poucas pistas.