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Segundo especialistas, medidas de aumento de impostos e de cortes nos gastos podem ser tomadas de forma gradativa

WASHINGTON (AFP) - Apesar de todo o alarde anunciado nos últimos dias com relação ao chamado "abismo fiscal" nos Estados Unidos, especialistas dizem que as medidas de aumento de impostos e de cortes nos gastos podem ser tomadas de forma gradativa, até que republicanos e democratas cheguem a um acordo.

Essas medidas, no entanto, já começarão a influenciar o poder de consumo do norte-americano desde o início de 2013, em um momento delicado de recuperação econômica, alertam especialistas de mercado, que são enfáticos em afirmar que o dano será maior quanto maior for a demora para um consenso.

Caso não haja acordo até segunda-feira, na terça-feira as isenções fiscais para a maioria dos contribuintes, adotadas durante a presidência de George W. Bush, expirarão e, além disso, entrarão em vigor drásticos cortes no gasto público.

Os impostos de quase todos os contribuintes norte-americanos aumentarão em 2.200 dólares, segundo a Casa Branca. Os cortes, consequência de um pacto entre democratas e republicanos em 2011, seriam sentidos, sobretudo, no orçamento de Defesa e poderiam derivar em numerosas demissões.

Segundo os economistas, um problema desta natureza poderia arrastar a economia norte-americana novamente à recessão.

De acordo com as estimativas do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), o Produto Interno Bruto (PIB) poderia cair 0,5% em 2013 em um contexto de aumento do desemprego (9,1% frente ao 7,7% atual).

Apesar de ter se transformado em um drama hollywoodiano, o cenário real ainda não é apocalíptico, segundo especialistas consultados pela AFP.

"Não se trata de um abismo, mas sim de uma pequena colina orçamentária", disse Thomas Ferguson, professor de ciências políticas da Universidade de Massachusetts.

Contudo, alguns efeitos não devem tardar. O aumento previsto de 2% dos aportes sociais poderia começar a ser aplicada nos salários de janeiro. O fim da ajuda a cerca de 2 milhões de desempregados também poderia entrar em vigor rapidamente.

Contudo, o aumento geral do imposto sobre a renda deve demorar mais. "Pela maneira como está a situação hoje, creio que os empregadores provavelmente usarão as mesmas taxas de retenção de impostos que em 2012", até que se alcance um acordo, disse Joseph Rosenberg do Centro de Política Tributária.

A agência de classificação financeira, Standard & Poor's, por sua vez, disse na sexta-feira que não espera que as negociações sobre o "abismo fiscal" afetem a nota da dívida dos Estados Unidos.

Segundo a agência, os riscos referentes ao abismo já foram considerados quando a nota dos EUA foi reduzida de AAA para AA+ em agosto de 2011, pela primeira vez na história, com perspectiva negativa.

Esta é uma das grandes incógnitas do "abismo fiscal", dizem analistas. Mesmo que o impacto da alta de impostos seja gradativo, a incerteza pode afetar de forma considerável a economia, ao mesmo tempo em que se aproxima uma nova batalha no Congresso sobre o teto da dívida.

Ante o temor do aumento dos impostos e da perda de capital, os investidores podem ver-se tentados a vender suas ações, o que pode desestabilizar a Bolsa de Nova York.

Prevendo cortes públicos, as empresas com contratos com o governo, principalmente na indústria de defesa, poderão por sua vez atrasar seus investimentos e contratações.

"Quanto mais forem ampliadas (as discussõees), maior será a bola de neve e mais desvastador o dano", prevê o economista Joel Naroff.

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