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EUA e Europa não conseguiram driblar crise econômica mundial durante este ano, enquanto a China fracassou em equilibrar sua economia; Veja outros fatos marcantes de 2012

Martin Webber
Editor de economia do Serviço Mundial da BBC

2012 foi o ano em que notícias econômicas chocantes perderam o poder de chocar. Nada conseguiu ser resolvido de fato na economia global: as montanhas de dívidas da Europa e dos EUA seguiram predominando; comportamentos escandalosos de grandes bancos ocidentais continuaram ganhando as manchetes; a China fracassou em tentar equilibrar sua desbalanceada economia.

Protestos contra medidas de austeridade marcaram o ano de vários países da Europa, como a Irlanda
AFP
Protestos contra medidas de austeridade marcaram o ano de vários países da Europa, como a Irlanda

Com eleitores americanos indo às urnas e a cúpula da liderança comunista chinesa sendo renovada, este poderia ter sido um ano de mudanças para as duas maiores economias globais. Mas a palavra-chave foi continuidade.

O presidente Barack Obama ganhou um segundo mandato, mas sem o apoio necessário no Congresso para levar seus planos adiante. E o novo líder chinês, Xi Jinping, não indicou nenhuma mudança de rumo em suas prioridades.

Por mais de uma década, economistas citam preocupações com o enorme excedente comercial chinês. Sua habilidade de manufaturar quase tudo a preços mais baixos barateou as compras de consumidores ao redor do mundo. Mas, aparentemente, o país foi além do que deveria.

Investimentos chineses

Agora, muitos defendem que é a vez de mais dinheiro entrar no bolso dos consumidores chineses, permitindo que o crescimento da China seja sustentado não só nas exportações, mas em um mercado interno.

Investimentos na China estão sendo
Getty Images
Investimentos na China estão sendo "mal alocados", diz economista

O respeitado economista Michael Pettis, da Universidade de Pequim, adverte que o desequilíbrio econômico atual tornou-se "extremo" e que reformas são necessárias com urgência.

"A China tem investido tanto que está claro que, pelo menos nos últimos anos, esse investimento tem sido mal alocado", diz ele, citando aportes em aeroportos no centro do país que têm baixíssimo movimento. E, apesar disso, novos aeroportos estão sendo construídos.

Ao mesmo tempo, a China continua a expandir sua capacidade manufatureira de coisas de que o mundo não precisa mais, como navios. Sendo assim, por que não investir para ajudar a tirar milhões de chineses da pobreza, a sair da agricultura de subsistência ou a trabalhar com mais eficiência - projetos que poderiam trazer crescimento genuíno?

"O problema é que isso envolve investimentos de longo prazo, com poucos resultados no curto", opina Pettis. "Todos concordam que é preciso melhorar a educação nas áreas rurais pobres, mas os retornos disso levam décadas."

Ele sugere que a China aumente a renda de seus cidadãos por meio da distribuição de terras a camponeses e pela privatização de empresas. "Mas isso cria um enorme problema, já que toda a estrutura política foi feita ao redor do controle da economia."

Tudo pelo crescimento

Talvez seja uma tendência do século 21 o fato de que elites políticas e eleitores criam expectativas a respeito de uma determinada taxa de crescimento econômico, e daí o governo faz de tudo para alcançar essa taxa - enquanto que, no passado, em muitos casos todos teriam simplesmente sentado e esperado até que o crescimento viesse naturalmente.

"Sempre surgem problemas quando você se prende a um sistema que exige aumentos contínuos em investimentos", prossegue o economista. "Após anos, não é fácil identificar projetos que sejam economicamente viáveis."

Ele cita exemplos disso na Alemanha nos anos 1930, na antiga União Soviética nos anos 1950 e 60, no Brasil nas décadas de 1960 e 70 e no Japão nos anos 1980. Todos vivenciaram "milagres de crescimento" e acabaram se endividando. Pettis acha que a China corre o risco de seguir o mesmo caminho que o Japão, com excesso de investimentos, crescimento mais baixo e endividamento crescente.

Questionado quando a China superará os EUA como maior economia do mundo, ele evita previsões, mas acha que isso só ocorrerá entre 2030 e 2040, já que os chineses podem ter chegado a seu pico em termos de taxa de crescimento anual.

Repetindo a História

A China e os EUA têm economias e sistemas financeiros profundamente diferentes. Mas, sob alguns aspectos, as duas economias seguem na mesma direção. Na China, há bancos sob influência estatal concedendo empréstimos por razões políticas para manter o crescimento, sem necessariamente retorno garantido. Nos EUA, bancos apostaram mal e tiveram de ser resgatados pelo dinheiro dos contribuintes.

"Todos os sistemas financeiros da história tiveram a tendência de (acumular) excesso de investimento especulativo, de expandir excessivamente, e daí de se contrair na forma de uma crise", avalia Pettis.

"Os últimos três anos só não foram tão ruins quanto poderiam porque a China respondeu à crise com um aumento extraordinário de investimento, aumentando sua demanda por minérios e criando investimento adicional em países como Peru, Austrália e Brasil." Agora, diz ele, estamos presos ao problema de baixas taxas de crescimento do consumo.

Ao mesmo tempo, em sua busca por matérias-primas, a China continua a ter um enorme impacto na África. Agora, porém, com os custos chineses aumentando, vê o continente africano como um bom lugar para construir fábricas e produzir mercadorias baratas.

Na Etiópia, a mão de obra é especialmente barata e preparada. A BBC visitou uma fábrica em uma área industrial etíope conhecida como Chinatown, onde uma fábrica chamada Huajian manufatura cerca de 2 mil pares de sapatos por dia para empresas globais, incluindo Tommy Hilfinger.

Helen Hai, vice-presidente da fábrica, disse que sua empresa economizou consideravelmente ao produzir na Etiópia, onde os custos laborais equivalem a 1/7 dos chineses e a oferta de matéria-prima é boa. Críticos, no entanto, dizem que os melhores empregos ficam com chineses.

Escândalos bancários

Na Europa, a crise da dívida não desapareceu, mas o pânico nos mercados foi acalmado, por conta da crença de que os contribuintes alemães pagarão, direta ou indiretamente, para salvar os orçamentos falidos do sul do continente.

O novo chefe do Banco Central Europeu, Mario Draghi, também teve papel importante em acalmar os mercados, ao emprestar mais dinheiro a bancos grandes e ao insistir que o euro é irreversível.

Presidente do BCE, Mario Draghi se manteve irredutível sobre importância do euro para a União Europeia durante 2012
ASSOCIATED PRESS/AP
Presidente do BCE, Mario Draghi se manteve irredutível sobre importância do euro para a União Europeia durante 2012

A estrutura do sistema bancário europeu ficou sob escrutínio maior, à medida que até os poucos bancos globais que haviam mantido sua reputação foram afetados por novos escândalos.

O HSBC foi multado por mover dinheiro para cartéis de drogas. o Standard Chartered admitiu ter descumprido sanções americanas, e o JP Morgan perdeu US$ 6 bilhões em operações de risco. O Barclays foi multado após revelações que seus funcionários manipulavam a taxa Libor, uma das principais referências de juros no mundo.

Especialistas em sistema financeiro como Michael Lafferty argumentam que escândalos do tipo evidenciam que foi um erro permitir que bancos de investimento fundissem suas operações com bancos comuns. "Uma grande parte do que eles fazem não é sistema bancário, é o que antes era chamado de indústria de títulos financeiros", diz ele.

Mas as reformas nesse sistema foram limitadas, e os bônus dos operadores e banqueiros voltarão a ser pagos nas próximas semanas. Nenhum país ocidental chegou a vetar bancos que combinam movimentação especulativa com ações bancárias tradicionais, como foi feito com o Ato Glass-Steagall, aprovado nos EUA quatro anos após o crash financeiro de 1929. No complexo mundo do século 21, a inércia parece ser uma força mais potente do que a reforma radical.

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