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Para o ex-presidente do Banco Central, o país carece de uma política de fomento voltada à atividade que gera 75% dos empregos. Ele diz que o atual governo só pensa na indústria e perdeu a noção do valor adicionado

Talvez Gustavo Franco não tenha sido o criador da expressão “saco de maldades”, mas com certeza foi quem melhor utilizou o termo para descrever a austeridade do Banco Central quando esteve à frente da instituição. Quinze anos depois, ele continua o mesmo, rígido e severo com as políticas econômicas brasileiras e estrangeiras. Fundador e diretor da Rio Bravo Investimentos, o ex-presidente do BC não poupa críticas às atuações do governo, que, segundo ele, vêm provocando o enfraquecimento da economia do país. Como resultado, diz o economista, a percepção do Brasil no exterior piorou.

Em entrevista ao BRASIL ECONÔMICO, Franco argumenta que reformas estruturais foram deixadas de lado, e que os frutos colhidos nos últimos anos ainda são reflexos da estabilização monetária que o país viveu durante os anos 1990. Para voltar a crescer mais forte será preciso um choque de capitalismo, afirma. Privatizações, concessões, liberalismo comercial. Tudo para se enquadrar no grande “jogo de xadrez internacional”, entende.

Talvez por nostalgia, ou por afeição, dos tempos de Banco Central, Franco vai de encontro com economistas que argumentam que o tripé macroeconômico — metas de inflação, fiscais e câmbio flutuante — foi jogado fora. Segundo ele, o BC continua fazendo seu trabalho de maneira exemplar.

Atualmente, o Banco Central, talvez, seja o único músico que toca corretamente na orquestra que Franco chama de Brasil. Mas dá um recado aos otimistas que esperam uma menor taxa de juros anual: “Ela é alta porque a dívida pública continua alta”. Sem redução da dívida bruta, explica, o governo precisa manter juros elevados para rolar a dívida. Isso porque, segundo ele, aqui também não há almoço grátis — adaptando a célebre frase “There is no such thing as a free lunch”, do economista americano Milton Friedman.

Por falar em dívida, Franco também comentou a crise europeia. Para muitos, o ano de 2013 pode ser de definições. Mas para Franco, será apenas mais um — de outros que estão por vir — de ajustamento fiscal. Ele diz que o saco de maldades está agora nas mãos dos alemães. “Tenho um entendimento semelhante ao da chanceler Angela Merkel”, resume.

Se irrita sobre as possibilidades aventadas, mais uma vez, de perdão de parte da dívida dos países em crise. Franco — que sentiu na pele as dificuldades de um país em descrédito em renegociar suas dívidas — diz que o processo será dolorido, mas que os europeus, principalmente os gregos, irão sobreviver. “Falando a partir de um país que fez todos os ajustes necessários, inclusive negociando com países credores, que foram duros conosco e que hoje são devedores, porque deveria pensar que eles podem ter um almoço grátis?”, argumenta. Franco, que também é um grande criador de metáforas, compara a União Europeia com um clube. Segundo ele, a integração fiscal da região pode ser uma solução para a crise, como sugere a experiência brasileira. “As federações precisam criar mecanismos para evitar vantagens de entes sobre outros. São as regras de convivência do clube para o uso da piscina”, conclui.

Nos últimos dias tivemos um indicativo de que a economia não está se recuperando no ritmo que se imaginava. Qual a sua perspectiva para 2013 com estes novos dados?

Acho que o dado foi chocante, mas não surpreendente. Foi revelador. Não trouxe nada desconhecido de quem acompanha outros indicadores. São vários semestres seguidos de queda nos investimentos. Há uma recessão nesta área. A despeito do consumo, o PIB foi fraco. Os setor de serviços, que foi para muitos uma surpresa, traz um aviso de como este segmento é importante. É onde estão 75% dos empregos no país. De tanto fazermos políticas industriais a economia está rateando.

O senhor acha que o governo faz políticas industriais, mas os industriais reclamam que o governo não faz. Onde está o erro?

Acho que é patético um empresário reclamar de política industrial no Brasil. O BNDES não faz outra coisa. A quantidade de incentivos discricionários é imensa. O país é protecionista e escolhe setores beneficiados. Políticas industriais têm, assim mesmo assistimos à redução do tamanho da indústria no PIB, em linha com o que acontece no mundo inteiro. Nenhuma política de fomento é feita expressamente para o setor de serviços. Quando se trata de competitividade, sempre se pensa na indústria e não nos serviços. Quando se fala em educação, também se fala em indústria. Agricultura não é menos produtiva e geradora de tecnologia que a indústria. Um produto como o iPhone e o iPad, ou qualquer outro produto global, é fácil verificar que a parte menos interessante é o processo industrial. As outras partes são muito mais relevantes. Algumas noções sobre onde está o valor adicionado o governo deixou para trás.

Indústrias que competemcom itens padronizados estão fadadas a morrer no Brasil?

Não é acabar. É acomodar-se a um cenário global diferente. Uma empresa que produz calçados tem um segmento de design, que cria a identidade do produto. Depois há a manufatura, a distribuição, o relacionamento e a marca. Muitas dessas empresas mudaram suas plantas de produção para a China. São companhias fortes, resistentes e multinacionais. Esse é o destino de muitas empresas brasileiras.

E o que sobra por aqui?

A parte melhor. A concepção, o design, a criação, desenvolvimento. Aqui terá a estrutura de logística, o trabalho decorrente da marca, os royalties. Isso fica sob controle local. O mundo inteiro trabalha neste sistema offshore. Nenhuma empresa global funciona diferente disso. A ideia de deter no Brasil produtos competitivos com integração vertical completa é um erro. As manufaturas brasileiras competitivas têm grande conteúdo de importação. Estão embrenhadas no jogo global de produção. É um mundo diferente e ainda se aplica políticas dos anos 1950. O país devia estar preocupado em ocupar espaço nas partes mais importantes nas cadeias de geração de valor das empresas. Espaços que estão no setor de serviços.

Existe uma contaminação no pensamento econômico de quem dirige o país a partir da fórmula de crescimento dos países asiáticos?

No Brasil, nunca houve ênfase nas exportações. Sempre a ênfase se deu sobre a integração vertical. Na Ásia, historicamente, a ênfase é na exportação. Pode-se importar o quanto quiser desde que se exporte. Aqui se estabelece conteúdo nacional sobre a produção, e se tiver competitividade, exporta. Com o tempo, a Ásia teve muito mais sucesso que o Brasil. Países que tinham renda per capita parecida, como a Coreia do Sul e Taiwan, nos deixaram para trás há tempos. Nosso modelo de substituição de importações se esgotou.

Esgotou ou fracassou?

Prestou bons serviços ao país e depois se esgotou. Não dá para dizer que fracassou porque nos levou a algum lugar. Nos levou a implantar algumas indústrias, que já não existem mais. As noções de autossuficiência, as grandes bandeiras da década de 1980, perderam sentido. Hoje, há a interdependência entre os países. É tentar produzir enquadrado no xadrez internacional da globalização. Ser parte da rede e não se isolar da rede.

O PIB potencial do país diminuiu? Temos menos condição de crescer hoje do que há cinco anos?

Acredito que sim. Acho que o desempenho do crescimento brasileiro, posteriormente ao real, para muita gente foi uma revelação. Não sabíamos como seria o crescimento sem a inflação como um elemento importante. O que temos hoje, é que de lá para cá, o crescimento tem estado em 4% e olhe lá. Mais recentemente, são muitos a dizer que este número modesto está ficando mais modesto. País que investe 18% do PIB todo ano não pode aspirar em crescer mais do que 3% ou 4% ao ano. Se é 3% ou 4% não sabemos cientificamente. Mas o fato é que 18% é muito pouco. A China investe 45%. A Coreia do Sul, 34%. Investimos a metade disto. Não temos feito muito para elevar este indicador, que depende quase exclusivamente do setor privado. Quem elevará este valor para 28% é o setor privado, não o público. O governo não consegue elevar em 10 pontos percentuais os investimentos porque, para isso, teria de elevar a carga tributária na mesma proporção. Não vimos nos últimos anos o governo perguntar ao setor privado o que ele deseja para elevar os investimentos.

E o que ele responderia?

Quer reformas privatizantes, liberais, menos carga tributária, menos complexidade, legislação trabalhista mais flexível. Coisas que foram abandonadas nos últimos tempos. No Índice de facilidade de fazer negócios, do Banco Mundial, o Brasil está em uma posição péssima. Em 127º no ranking formado por 180 países. Com essas estatísticas, como o país quer chegar a algum lugar, em matéria de investimentos privados? Isso é fruto na inação do governo frente às demandas do setor privado. O governo não é o protagonista, é quem cria as condições.

A redução dos juros poderia ser encarada como uma destas reformas?

Sim. Mas está longe de ser a única coisa. Quando o plano real terminou com a hiperinflação, ouvi de gente do Partido dos Trabalhadores que o plano fracassou porque o PIB estava crescendo pouco. Como se o fim da inflação resolveria o país. Os juros também não resolverão. O Brasil não se tornará uma China por causa disso. O crescimento tem de ser pensado como uma orquestra. São vários músicos tocando em harmonia. Vários fatores funcionando ao mesmo tempo. Não há mágica. Na ausência da melodia certa, é cada um por si.

Desde a sua época à frente do Banco Central, os juros caíram para algo próximo de um quarto do que era. Mas entre os países que possuem metas de inflação, ainda temos a inflação mais alta e os juros mais altos. Porque é tão difícil haver equilíbrio próximo de outros países?

Acho que a taxa de juros é estruturalmente elevada em razão do nosso passado hiperinflacionário e devido à dívida pública, que é muito grande. A dívida bruta, sem as deduções e outros truques, está perto de 70% do PIB. Entre os emergentes, imagino que seja a maior. É muita dívida. A rolagem da dívida implica que, a cada ano, o tesouro role de 15% a 16% do PIB. Isso é o que a Grécia renova todo ano. Isso se faz pela venda de LFTs (Letras Financeiras do Tesouro, atreladas à taxa Selic) para a indústria de fundos. Quando os juros eram maiores, todos gostavam deste produto e o viam como poupança. Agora, com os juros onde estão, o rendimento líquido destes fundos é muito pequeno, de 2% a 3% ao ano. Há o desinteresse. O dinheiro vai para outras aplicações que não são títulos públicos e há dificuldade em rolar a dívida. Os juros são altos porque a dívida é alta. Não há almoço grátis aqui. Nosso passado fiscal é tão importante quanto o presente. O acúmulo de déficits no passado produziu uma dívida alta. Temos hoje um superávit primário, mas um déficit nominal. Temos uma situação fiscal que ainda não é ideal para sustentar juros a 4%, como um país desenvolvido.

De qualquer forma, os cortes nos juros têm ajudado na situação fiscal. O governo economizou muito com a diminuição da Selic. O senhor vê melhora nas contas fiscais?

Ultimamente não está melhorando. A economia de juros ajuda. Mas, cada vez mais coisas que não possuem relação com a meta primária são colocadas como ajustes. Nossa contabilidade ficou opaca. Na prática, a dificuldade de rolar a dívida se vê no estágio de operações compromissadas que o Banco Central faz. Isso já chegou na faixa de meio trilhão de reais. É uma indicação poderosa da dificuldade que o governo tem em rolar a dívida. Não tivemos os problemas que a Grécia teve porque o Banco Central consegue absorver o dinheiro que foi amortizado, usando dinheiro de seu caixa. O resumo da ópera é que não temos problemas porque os juros são altos. Prevalece a noção de que o número da meta de superávit primário, fixada lá atrás, está escrito na pedra. Está na hora de revisar este número.

Para menos ou para mais?

Para mais. O superávit precisa ser maior para que os juros caiam em um ritmo mais acelerado. É como o tripé, que foi estabelecido lá atrás e ninguém lembra bem como. O governo precisa ser mais ambicioso. Se houvesse uma meta mais ambiciosa, poderiam ter juros menores, que incendiariam o setor privado, e retirariam o governo da posição de tomador de dinheiro.

O ministro Fernando Pimentel disse, BRASIL ECONÔMICO, que o Banco Central evoluiu. Como vê a atuação atual do BC?

O Banco Central sempre evolui. O BC cumpre perfeitamente sua missão em manter a inflação sob controle. Talvez um pouquinho maior que a meta, ou o paradigma internacional, mas não me incomoda essencialmente. O que me incomoda é que o país cresce menos do que poderia. Mas não é o BC quem promoverá o crescimento. Ele promove a estabilidade monetária, a inflação baixa, um elemento essencial, mas não suficiente para o crescimento. Outras coisas construirão esta orquestra. O BC tem tocado muito bem. Talvez devêssemos perguntar ao ministro Fernando Pimentel quem é que não está tocando certo.

Mudou nosso tripé macroeconômico?

Não mudou nada. Apenas as condições externas estão melhores. Quando isso acontece, pode esticar um pouquinho alguma perna do tripé sem maiores consequências. A desvalorização cambial, por exemplo, é espontânea. Isso acontece porque a percepção externa azedou.

O que piorou?

Bastante coisa. O Brasil cresce menos, o que é importante. Os resultados das empresas no segundo trimestre foram ruins, com isso a relação entre o preço das ações e lucro aumentou brutalmente por causa de lucros menores. Essa razão está em 20, enquanto que nos Estados Unidos está em 14. A medida sobre o setor elétrico e o massacre da Eletrobrás também contribuiu para azedar o clima. O governo conseguiu desvalorizar o câmbio, mas do pior jeito possível. O tripé não foi desafiado, flutuou alguma coisa.

Há imprudência da Presidente Dilma com as reformas forçadas, como a do setor elétrico e a dos bancos?

Reformas à força nunca funcionam. As reformas no Brasil, a começar pela estabilização, nunca foram executadas à força. Reformas são complexas porque envolvem benefícios dispersos e custos concentrados. Há a oposição de uma minoria privilegiada e, muitas vezes, nem são percebidas, porque a quantidade de pessoas beneficiadas é muito grande. As reformas precisam de legitimidade política ampla. Claro que em algum momento é preciso pressionar essa minoria, mas que a pressão precisa ser a menor possível. Não foi essa a sensação quanto à medida do setor elétrico. Sem entrar no mérito da reforma, houve uma destruição de valor muito grande.

2013 pode ser um ano de soluções para a crise internacional?

Na Europa temos um ciclo de ajustamento fiscal. Vários países estão passando por um ciclo semelhante ao que o Brasil passou de 1980 a 1999. O esforço fiscal feito pelo Brasil foi muito grande. Passamos de um déficit primário de quase 4% do PIB para um superávit acima de 3%. A Europa passa por um processo semelhante. Foi doloroso, mas conseguimos. É inevitável que excessos sejam cortados. Se passamos por isso, porque eles não passariam? Nos Estados Unidos já não vejo a crise como um problema. O abismo fiscal é um problema democrático.

Quando ouve a presidente Dilma Rousseff dizendo que a austeridade fiscal não é a saída para a crise, o que você pensa?

No plano político diplomático a retórica é diferente da prática. A presidente recentemente foi à Argentina e foi gentil com os argentinos. Quase elogiou o que estava acontecendo por lá. Essas coisas não são para ser tomadas ao pé da letra.

Os líderes europeus estão tomando os caminhos corretos para solucionar a crise?

É um jogo muito difícil. Os países da periferia da zona do euro tentam reduzir os ajustes e os credores tentam receber. É uma queda de braço que terá um pouco de perdão de dívida, e bastante austeridade. Falando a partir de um país que fez todos os ajustes necessários, inclusive negociando com países credores, que foram duros conosco e que hoje são devedores, porque deveria pensar que eles podem ter almoço grátis?

É necessário alguém com um saco de maldades por lá?

Os alemães estão com ele. O Brasil viveu além de seus próprios meios por muitos anos e depois teve de arrumar a casa. Demorou 10 anos para conseguirmos colocar as coisas em ordem. Porque a Grécia não vai fazer esse esforço? O que eles têm de especial que nós não temos? Nesse aspecto, meu pensamento se assemelha a da chanceler alemã Angela Merkel. As contas precisam estar equilibradas.

O presidente espanhol Mariano Rajoy entende que uma das saídas é a integração fiscal na zona do euro. Concorda?

Isso é interessante, inclusive à luz da experiência brasileira com os problemas dos estados. Um fator muito importante na capacidade da União em lidar com o calote dos estados, reestruturar todas as dívidas, e forçar o equilíbrio fiscal, é a integração fiscal por meio da partilha da arrecadação. Quanto mais integrado, mais fácil montar os esquemas de endividamento na União Europeia. A partilha de todo o imposto adicionado dos países com a União Europeia, e depois a devolução do dinheiro, pode parecer neutro, mas seria suficiente para a criação de um fundo de participação para emprestar dinheiro para quem precisa.

Seria possível controlar as repercussões políticas?

A integração entre países sempre será um processo de profundas implicações políticas. Não creio que haja dúvida sobre a integração europeia. A dúvida se dá sobre a partilha de problemas. São como problemas de incentivos que existem em uma federação, como a brasileira. Quando um membro se comporta mal, prejudica toda a Federação. No Brasil e nos Estados Unidos o tempo se encarregou de criar mecanismos para evitar que alguns entes tivessem vantagens sobre os outros. São regras de convivência do clube para o uso da piscina. Tem de haver regras e certas coisas não podem ser feitas.

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