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Governo tenta estimular inovação por meio de fundo do BNDES, mas projeto ainda não decolou

Rio de Janeiro – Nos últimos anos, as startups brasileiras começaram a atrair empresas importantes de capital de risco do Vale do Silício. Nesse processo, contudo, segmentos promissores da tecnologia foram ignorados.

Embora as empresas privadas estejam investindo prontamente em e-commerce e outras áreas badaladas, campos como nanotecnologia, robótica e tecnologia da informação – considerados fundamentais para transformar a economia brasileira, baseada na exportação de commodities e dependente do consumo – estão caindo no esquecimento.

Ao invés de deixar o financiamento das inovações apenas para empresas privadas de investimento, as autoridades brasileiras decidiram há vários anos entrar em cena e apoiar empresas recém-criadas. E, em 2007, o banco brasileiro de desenvolvimento, o BNDES, deu início ao Criatec I, um fundo de capital de risco com o objetivo de investir, ao longo de 10 anos, 100 milhões de reais em startups. Empresas estrangeiras de capital de risco foram convidadas a fazer investimentos a posteriori. Até hoje, nenhuma fez.

Marcio Spata e Eduardo Klingelhoefer, do BNDES: fundo para estimular inovação no Brasil
NYT
Marcio Spata e Eduardo Klingelhoefer, do BNDES: fundo para estimular inovação no Brasil

O Brasil, por sua vez, intensificou esforços para promover o crescimento da tecnologia. O banco concedeu recentemente uma nova verba de 186 milhões de reais à Ícone Investimentos. O BNDES tem fornecido a maior parte do capital, recebendo também contribuições de bancos públicos regionais.

O governo tomou as rédeas dos investimentos, mas não por falta de interesse de empresas de capital de risco privado. Nos últimos dois anos, a Redpoint Ventures, a Accel Partners e a Sequoia se tornaram ativas aqui, assim como Peter Thiel, Dave McClure e investidores europeus e israelenses. Mas o BNDES acredita que ainda há uma enorme lacuna no que diz respeito ao financiamento de empresas recém-criadas.

"Eles estão investindo com tudo em modelos já difundidos de empresa, as 'copycats'. Não estão investindo de fato nas inovações tecnológicas", disse Robert E. Binder, cuja empresa privada, a Antera Gestão de Recursos, coadministra o fundo inicial Criatec com a Inseed Investimentos, de São Paulo.

A inovação é uma questão urgente no Brasil, dizem os economistas. De acordo com o Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento Industrial, neste ano, até setembro, o país teve um déficit comercial 38,7 bilhões de dólares em bens de alta tecnologia, um aumento em relação ao ano passado. A economia do Brasil é altamente vulnerável às incertezas econômicas do resto do mundo, o que se reflete nas estatísticas de crescimento registradas no terceiro trimestre de 2012 no país.

As iminentes mudanças demográficas também preocupam. Em 2030, a população do Brasil deve cair e ficar cada vez mais velha, o que periga sobrecarregar os recursos do governo.

As empresas de capital de risco que investem no movimento das startups no Brasil veem a Criatec como bem-intencionada. Para Eric Acher, sócio fundador da Monashees Capital, ela é uma "ótima experiência de aprendizagem no que diz respeito ao foco em inovação".

Anderson Thees, da Redpoint Ventures, também elogiou o fundo.

"Eles provavelmente estão investindo em ótimas oportunidades logo que elas surgem", disse ele.

No entanto, esses e outros fundos de capital de risco ainda não se aliaram ao Criatec para viabilizar investimentos.

Por exemplo, o Criatec procura por empresas de desenvolvimento de tecnologia e com produtos de propriedade intelectual clara que podem ser licenciados ou retidos, disse Thees.

"O Vale do Silício não está tão interessado nisso", disse ele.

Acher concordou: "Eu não acho que o Vale do Silício esteja à procura das inovações tecnológicas do Brasil no momento", acrescentando que o retorno ainda não justifica o nível de risco envolvido.

O BNDES já esperava tal aversão ao risco quando criou o Criatec.

"Nem mesmo os fundos brasileiros mostraram interesse em empresas recém-criadas", disse Eduardo Rath Fingerl, um dos criadores do fundo. "Nós sabíamos que a iniciativa teria de vir inteiramente do BNDES."

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) sempre teve um papel importante na ascensão do Brasil. Formado em 1952, o banco de desenvolvimento começou financiando projetos de infraestrutura. O alcance e o tamanho do banco cresceram consideravelmente na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que achava que o Brasil precisava de multinacionais de marcas famosas para ganhar respeito no exterior.

Em 2003, o banco desembolsou 11,7 bilhões de dólares, mas em 2010, esse número havia subido para 96,3 bilhões. Ele concedeu empréstimos subsidiados para a maioria das grandes empresas brasileiras, incluindo a gigante do petróleo Petrobras e a mineradora Vale. O banco também apoiou empresas estrangeiras, incluindo um investimento de três bilhões de dólares para que a American Airlines comprasse aviões da fabricante brasileira Embraer.

A supremacia do BNDES no Brasil tem atraído críticas no país. Alguns argumentam que as prioridades do banco do governo – que incluem o financiamento de fusões e aquisições – estão equivocadas. Alguns afirmam que esse tipo de investimento deveria ficar com o setor privado.

"O crédito de longo prazo ainda é um problema no Brasil", disse o economista brasileiro Mansueto Almeida. No entanto, "o Brasil de hoje é muito diferente do país há 20 anos. Temos mercados de capitais muito ativos".

O Criatec, no entanto, é um dos menores e menos controversos programas do banco.

Para Almeida, o BNDES "está tentando fazer a coisa certa" com essa alternativa. "Isso é exatamente o que se espera de um banco de desenvolvimento."

O histórico do Criatec I tem registrado avanços lentos. A Usix Tecnologia, uma empresa de tecnologia especializada em segurança no mercado de seguros que recebeu apoio do Criatec, foi adquirida pela Ebix, de capital aberto, em 2010.

O fundo também apoiou empresas promissoras, como a Amazon Dreams, que desenvolveu técnicas patenteadas para produzir açaí e outras bagas com teor mais alto de antioxidantes.

Alguns investidores estrangeiros estão começando a se interessar pelo portfólio da Criatec. A Intel Capital, divisão de capital de risco da fabricante de chips Intel, está avaliando a empresa de soluções de negócios com inteligência geográfica Geofusion. A informação é de uma pessoa que está a par das negociações e que pediu para não ter o nome citado, já que a negociação ainda estava em curso.

Neste ano, a Kleiner Perkins Caufield & Byers mostrou interesse na empresa de pesticidas agrícolas Bug Agentes Biológicos, mas disse que a startup precisava primeiro ter uma receita de 10 milhões de dólares. Agora, a empresa está discutindo uma parceria estratégica com a Sistemas Biológicos Bio-Bee, de Israel. Mas tais acordos em potencial também indicam que as empresas estrangeiras de capital de risco ainda não estão cortejando as startups menores.

"Todo mundo quer encontrar empresas com receita de 10 milhões a 15 milhões de dólares, mas simplesmente não existe um fluxo de negócios desse porte", disse uma pessoa familiarizada com os planos de expansão da Kleiner Perkins. Ela também pediu para não ter o nome citado, já que as negociações eram privadas.

Com base em estimativas de 2012, apenas uma empresa apoiada pela Criatec I, entre os 33 negócios nos quais investiu, vai cruzar a fronteira dos 10 milhões de dólares em receita.

A receita da Amazon Dreams, por exemplo, ainda é insignificante, apesar da febre do açaí nos Estados Unidos.

O BNDES também criou o fundo para ajudar acadêmicos que têm ótimas ideias, mas que não têm tanto êxito na obtenção de financiamentos junto ao setor privado quanto os empresários.

"O Brasil tem inúmeras mentes brilhantes", disse Rath Fingerl, que se aposentou do BNDES no ano passado, mas "a grande dificuldade é aproximar as comunidades científicas das empresariais".

O fundo também tem limitações. Por exemplo, o banco tem poder de veto sobre as decisões da maioria das empresas, mesmo sendo um acionista minoritário. No entanto, parece bastante flexível ao procurar por coinvestimentos.

A influência política do BNDES nas empresas do Criatec "é totalmente negociável", disse Marcio Spata, chefe do fundo Criatec no banco de desenvolvimento. "Estamos sempre abertos a mudar os nossos direitos" para atender a ofertas adequadas.

Eduardo Klingelhoefer de Sá, chefe do departamento de fundos do BNDES, disse: "Ficaríamos muito felizes com a aproximação de investidores privados, já que nossos riscos seriam reduzidos".

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