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Novo membro do Mercosul atrasa pagamento de brasileiras. Órgão que controla o câmbio veta as divisas

Brasil Econômico

Poucos meses após a Venezuela concluir sua entrada no Mercosul, empresários brasileiros já reclamam de problemas enfrentados nas exportações feitas para o país bolivariano.

De acordo com a denúncia do corretor de câmbio João Medeiros, diretor da Pioneer Corretora, diversos setores não estão recebendo pelas vendas feitas à importadores venezuelanos. No entanto, isso não configura inadimplência por parte dos compradores. Um órgão adjunto do Banco Central daquele país vem segurando o pagamento aos brasileiros.

Na Venezuela, o pagamento por importações é feita de maneira indireta. Para o exportador brasileiro receber, a Comissão de Administração de Divisas (Cadivi) precisa liberar os recursos em dólar, enquanto o importador paga em bolívar forte.

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Entre os setores afetados, estão o de autopeças e de carnes, dois dos produtos mais vendidos ao país. Segundo Medeiros, embarques de mais de US$ 30 milhões estão pendentes a mais de 90 dias. “Há três anos, o Banco Central brasileiro montou uma comitiva, formada inclusive com membros do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Foi resolvido. Mas hoje, não há nenhuma indicação de que os problemas serão solucionados”, afirma Medeiros.

O motivo da pendência é o controle cambial. Para evitar uma saída massiva de bolívares, em 2003, o governo venezuelano criou o organismo. O Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), em 2005, já criticava a constituição do Cadivi e, desde então, alerta exportadores sobre o controle cambial.

De acordo com o consultor Welber Barral, da Barral M Jorge Associados, em alguns casos, a liberação do pagamento pode chegar a dois anos. Ele diz que a natureza do órgão é burocrática, o que dificulta os pagamentos. “Cerca de metade das retenções acontece por causa da burocracia; documentos pendentes, etc.”, explica Barral.

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Ele conta também que alguns importadores também se valem da “fama” do Cadivi para não pagar pelas compras. “Em 30% dos casos de atraso no pagamento há essa origem”, diz.

Apenas 20% dos casos tem origem no atraso das transferências do Cadivi ao Banco Central brasileiro. “Em algumas épocas atrasam mais, outras menos”, afirma, Weber Barral.

Em 2010, o Cadivi possuía um orçamento definido em US$ 30 bilhões para compensar as exportações, de acordo com o orçamento venezuelano — o último disponível. Naquele ano, segundo o setor de inteligência do MDIC, o país importou US$ 32 bilhões.

O ministério brasileiro, por meio de um porta-voz, informa que os casos de atrasos são corriqueiros, mas que não há denúncias recentes. “De tempos em tempos, empresários relatam problemas nos pagamentos. Mas nas últimas semanas não tivemos novos casos”, indica. No entanto, confirma que durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva interveio para que os exportadores pudessem receber.

Recentemente, a Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) realizou uma pesquisa com seus associados para mapear os principais problemas. O diretor da Fiesp responsável pela pesquisa, Roberto Giannetti da Fonseca, não foi encontrado para comentar as atuações da federação. A embaixada venezuelana no Brasil não conseguiu responder a tempo à reportagem. 

País ganha participação

Exportações para Venezuela já somam US$ 4,7 bilhões. O total é 672% maior do que em 2003

A Venezuela vem ganhando participação nas exportações brasileiras. A promessa de substituíção de produtos andinos por brasileiros e argentinos foi, inclusive, um dos fatores que motivaram a promoção do país à membro pleno do bloco.

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Desde 2003, primeiro ano de aproximação entre Brasil e Venezuela, as exportações nacionais para aquele país saltaram 672%. As cifras passaram de US$ 608 milhões para US$ 4,7 bilhões, este ano.

A participação também é crescente. Em 2003, apenas 0,8% das exportações brasileiras tinham como destino o país bolivarista. Atualmente, pouco mais de 2,1% das vendas vão para o mais novo integrante do Mercosul.

Os brasileiros, no entanto, são mais importantes para os Venezuelanos. Do total de importações, em 2011, 8,7% tiverem origem no Brasil.

No entanto, Welber Barral, diz que o país pode se tornar alvo de críticas de empresários no Mercosul pelas restrições a pagamentos com moeda estrangeira. O controle cambial, diz ele, é um problema atual do bloco. “Os brasileiros embutem no preço. É um risco da operação”, afirma.

Diferentemente da Argentina, que tenta bloquear as importações sem um “lastro” nas exportações, a Venezuela restringe a saída de divisas para diminuir a volatilidade de sua moeda, o bolívar forte. “Cada pedido de pagamento é controlado no país”, diz Barral.

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