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Engenheiro químico Robert Langer serve de elo entre descobertas universitárias e mercado

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Langer: invenções de seu laboratório vão de pastilha que libera dose de quimioterapia a chip nanotecnológico
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Langer: invenções de seu laboratório vão de pastilha que libera dose de quimioterapia a chip nanotecnológico

Como pegar partículas num tubo de ensaio, ou componentes de um minúsculo chip, e transformá-los numa empresa de US$ 100 milhões?

O Dr. Robert Langer, de 64 anos, sabe. Desde a década de 1980, seu laboratório Langer Lab, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), gerou empresas cujos produtos tratam câncer, diabetes, doenças cardíacas, esquizofrenia e até mesmo engrossam cabelo.

O Langer Lab está na linha de frente de transformar descobertas laboratoriais numa gama de medicamentos e sistemas para liberação de medicamentos. Sem esse tipo de transferência de tecnologia, as descobertas científicas poderiam ficar numa gaveta, sufocando a inovação.

Engenheiro químico por formação, Langer ajudou a iniciar 25 empresas e possui 811 patentes, emitidas ou pendentes, em seu nome. Isso não fica muito atrás de Thomas Edison, que teve 1.093. Mais de 250 empresas licenciaram ou sublicenciaram patentes do Langer Lab.

A Polaris Venture Partners, firma de capital de risco de Boston, investiu US$ 220 milhões em 18 empresas inspiradas no Langer Lab. Combinadas, essas empresas aprimoraram a saúde de muitos milhões de pessoas, diz Terry McGuire, cofundador da Polaris.

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Ao longo do caminho, Langer e seu laboratório, incluindo cerca de 60 alunos de pós-graduação e pós-doutorado por vez, descobriram uma maneira de navegar por um território incerto: a interseção entre pesquisa acadêmica e o mercado comercial.

Nos últimos 30 anos, muitas universidades – incluindo o MIT – montaram escritórios de licenciamento que supervisionam a transferência de descobertas científicas a empresas. Esses escritórios se tornaram um importante caminho para universidades em busca de colocar suas pesquisas em uso prático, sem falar no aumento de receita.

Particularmente nas ciências, a transferência de tecnologia se transformou numa forma crucial de levar drogas e outros tratamentos ao mercado.

Empresas querer métodos mais sofisticados para desenvolver produtos, diz Ralph Weissleder
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Empresas querer métodos mais sofisticados para desenvolver produtos, diz Ralph Weissleder

"O modelo da inovação biomédica depende de pesquisas oriundas de universidades, muitas vezes financiadas com dinheiro público", afirmou Josephine Johnston, diretora de pesquisa do Hastings Center, organização de pesquisa bioética em Garrison, Nova York.

Alguns dos produtos que surgiram do Langer Lab são uma pequena pastilha que libera uma dose de quimioterapia usada para tratar câncer no cérebro; ferramentas de sequenciamento de açúcares que podem ser usadas para criar novas drogas, como anticoagulantes mais seguros e eficazes; e um chip miniaturizado (uma forma de nanotecnologia) que realiza testes de doenças.

A pastilha de quimioterapia, chamada Gliadel, é licenciada pela Eisai Inc. A empresa responsável pelas ferramentas de sequenciamento de açúcares, a Momenta Pharmaceuticals, arrecadou US$ 28,4 milhões numa oferta pública inicial em 2004. O chip miniaturizado é feito pela T2Biosystems, que concluiu uma rodada de financiamento de US$ 23 milhões no verão de 2011.

"É inconveniente ter de enviar coisas a um laboratório", então a empresa está tentando desenvolver métodos mais sofisticados, explicou o Dr. Ralph Weissleder, um cofundador, com Langer e outros, da T2Biosystems e professor da Faculdade de Medicina de Harvard.

Para Langer, abrir uma empresa não é o mesmo que foi, digamos, para Mark Zuckerberg com o Facebook. 

"Bob não está envolvido com nenhuma empresa em especial", disse H. Kent Bowen, professor emérito de administração da Escola de Administração de Harvard que escreveu um estudo de caso sobre o Langer Lab. "Sua missão é criar a ideia."

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Bowen observa que existem muitos outros laboratórios acadêmicos, incluindo alguns altamente produtivos – mas que a combinação de pessoal, empresas geradas e publicações do Langer Lab o coloca em destaque. Ele diz que Langer "desbrava o grande desconhecido e então faz essas descobertas".

Langer é conhecido por suas habilidades como mentor. Ele é "notório por responder e-mails em dois minutos, seja de um estudante ou do presidente dos Estados Unidos", afirmou Paulina Hill, que trabalhou em seu laboratório de 2009 a 2011 e hoje é sócia sênior da Polaris Venture Partners.

Langer diz considerar seus alunos como "uma família estendida", acrescentando que "eu realmente quero que eles se saiam bem".

E isso vem ocorrendo, seja nos negócios ou na academia – ou numa combinação dos dois. Um ex-aluno, Ram Sasisekharan, ajudou a fundar a Momenta e hoje administra seu próprio laboratório no MIT. Ganesh Venkataraman Kaundinya é o diretor científico e vice-presidente de pesquisa da Momenta.

Hongming Chen é vice-presidente de pesquisa da Kala Pharmaceuticals. Howard Bernstein é diretor científico da Seventh Sense Biosystems, uma empresa de exames de sangue. Outros possuem empregos em direito ou no governo.

Langer diz passar cerca de oito horas por semana trabalhando em empresas que surgem de seu laboratório. Das 25 que ele ajudou a abrir, ele participa do conselho de 12 e é consultor informal de quatro. Todas as suas atividades empresariais, que incluem algumas participações acionárias, fizeram dele um milionário. Mas ele garante ser motivado principalmente pelo desejo de aprimorar a saúde das pessoas.

As companhias farmacêuticas estão ávidas por aproveitar o talento das universidades líderes em pesquisa. Em 2008, por exemplo, a Universidade Washington em St. Louis anunciou um acordo de US$ 25 milhões com a Pfizer, para colaborar mais intimamente em pesquisas biomédicas.

Em algumas situações, porém, os laços próximos – que os críticos poderiam chamar de confortáveis – entre empresas e acadêmicos trazem o potencial de criar conflitos de interesse.

Mais cedo neste ano, houve polêmica quando foi revelado que o presidente do M.D. Anderson Cancer Center, na Universidade do Texas, possuía ações da Aveo Oncology; anteriormente, a empresa havia declarado que a universidade iria realizar estudos clínicos de uma de suas drogas contra o câncer. No mês passado, a Universidade do Texas anunciou que ele seria autorizado a manter suas ligações com três companhias farmacêuticas, incluindo a Aveo Oncology; suas participações serão inseridas num fundo cego.

"Uma questão é quanto de interesse comercial está orientado a pesquisa", disse Johnston. "Acho que as universidades e legisladores públicos estão um pouco inseguros sobre onde deveria estar o equilíbrio. Essa oportunidade distorce a programação de pesquisas em termos de aplicação comercial em vez do interesse público?" Ela falava no geral, sem comentar qualquer instituição específica.

Segundo Langer, em seu laboratório não existe pressão para que os estudantes transformem suas pesquisas em negócios. Na verdade, diz ele, metade de seus alunos seguem como acadêmicos.

"Sinto que um de nossos sucessos é termos educado tantas pessoas ótimas que hoje lecionam em universidades", afirmou ele, acrescentando que são aplicadas rígidas regras de ética para evitar conflitos.

"O MIT sempre reserva direitos para todas as instituições sem fins lucrativos, pesquisas não comerciais e educação", disse Lita Nelsen, diretora do Escritório de Licenciamento de Tecnologia do MIT, que ajudou o Langer Lab com centenas de patentes – 80 por cento das quais foram aprovadas.

Naturalmente, nem tudo que vem do laboratório é uma aposta garantida. Uma droga pode não ser aprovada pelos estudos clínicos, ou um tratamento alternativo pode se mostrar mais eficaz.

Langer ainda está avaliando o potencial comercial de um projeto envolvendo as cordas vocais. Ele e o Dr. Steven M. Zeitels, diretor do Centro de Cirurgia Laríngea e Reabilitação da Voz do Massachusetts General Hospital, que já operou cantoras como Adele e Julie Andrews, desenvolveram um gel que pode ser usado nos tubos vocais para torná-los mais flexíveis. O gel alcançou resultados promissores em estudos clínicos com cães, segundo Langer.

"Porém, não sei se isso será uma empresa", completou ele.

Mas ele é favorável ao tipo de pesquisa que se arrisca. Conforme Bowen, de Harvard, disse sobre os alunos de Langer: "Todos eles vão embora achando que nada é impossível".

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