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Quadro deverá se confirmar na próxima reunião do Copom, na quarta, que deve manter a Selic

O Comitê de Política Monetária (Copom) deve manter a Selic em 7,25% ao ano na sua última reunião do ano. Com isso, a taxa real de juros brasileira fechará dezembro abaixo de 2%, uma das promessas de campanha da presidente Dilma Rousseff. A notícia seria excelente, não fosse um detalhe: pelo terceiro ano consecutivo, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) persistirá acima do centro da meta de 4,5%. Estimativas recentes e mais conservadoras do próprio governo indicam 5,2%.

“Essa não é uma redução saudável", alerta Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating. “E isso faz com que o juro baixo não surta seu efeito total porque a população perde poder de compra, que é uma das variáveis importantes para estimular os investimentos que o governo tanto quer ver aumentar no país.”

Pelos cálculos de Flávio Serrano, economista-sênior do BES Investimento, a taxa real de juros chegará ao final deste ano em 1,76%, considerando a Selic em 7,25% e o IPCA em 5,4%. Esse seria, na sua avaliação, um nível muito abaixo do que o juro de equilíbrio. Para ele, essa taxa — também chamada de neutra e que é a ideal para que a economia cresça sem pressões inflacionárias — deveria estar em torno de 4%.

“Se o governo estivesse sendo mais firme e perseguindo o centro da meta a Selic estaria em 8,5%”, diz.

O fato de a taxa real ser influenciada nessas proporções pela inflação em alta faz com que os economistas acreditem que essa é uma mudança apenas conjuntural, e não da estrutura da política econômica brasileira. Principalmente quando as estimativas para o futuro seguem indicando um IPCA fora do alvo. De acordo com Serrano, entre 2010 e 2014, a inflação se mantém no mínimo em 5,5%. “Os países que seguem o regime têm metas bem mais baixas que a brasileira”, nota o economista do BES.

É por essa razão que há quem acredite que não é possível ficar por tanto tempo com o juro real nesse patamar. O estrategista chefe do West LB, Luciano Rostagno, crê que esse movimento altista terá início em meados do ano que vem. A expectativa é que o Copom volte a elevar a Selic, mas que isso não será suficiente para que a inflação recue para o centro da meta. “Não tem muita expectativa da inflação recuar. A tendência é de preços ainda pressionados”, afirma. A meta de inflação é de 4,5%, com variação de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

Na avaliação de Rostagno, é natural que com a retomada do aquecimento econômico, incluindo aí uma gradual melhora nas condições externas, o juro real caminhe para um patamar mais elevado, até um pouco acima do que é avaliado como a taxa de equilíbrio. Reforça, ainda, que o Brasil só conseguiu atingir um juro real abaixo de 2% porque nas principais economias do mundo esse parâmetro está no campo negativo — e com a retomada da atividade global, a taxa real também deve ficar mais alta nessas regiões.

A alta da Selic, aliada a uma possível retirada de alguns dos estímulos dados a economia, terá reflexo mais imediato na taxa de câmbio, atualmente considerada depreciada. “O governo está permitindo a variação só para um lado, enfraquecendo o real. Mas no ano que vem, com maior atividade, o governo vai ter que rever alguns estímulos e isso vai ajudar o câmbio a se apreciar”, avalia o estrategista chefe do West LB.

Nesse cenário, com elevação do juro real, Rostagno acredita em uma possível revisão dos planos de investimento e consumo, uma vez que empresas pensarão se é melhor poupar (em vista do maior rendimento) ou continuar a investir e consumir.

Luiz Otávio Leal, economista chefe do ABC Brasil, pondera que o governo federal irá se esforçar para manter o juro real na casa de 2% — na campanha presidencial, Dilma assumiu o compromisso de chegar a esse patamar ao final de seu governo, em dezembro de 2014. “O governo vai testar para ver se esse patamar é sustentável”, diz. Essa é uma das razões que faz com que acredite que a Selic continuará em 7,25% ao ano até o final de 2013.

Aqui e lá

Pelos cálculos de Agostini, da Austin, mesmo com a queda acentuada do juro real aqui, a diferença entre a taxa básica no Brasil e nos Estados Unidos continuava alta até o ano passado, ao redor de 6,5%.

De agosto do ano passado até a última reunião do Copom, a redução dos juros básicos no Brasil já havia sido de 5,25 pontos percentuais (de 12,50% para 7,25% anuais).

Nos Estados Unidos não houve um movimento de recuo, uma vez que a taxa estava próxima a zero desde 2008. Na Europa, a taxa básica estava em 1% até 2011 e só neste ano caiu para 0,75% ao ano.

Diante desses dados e considerando a inflação dessas economias, em torno de 2% enquanto no Brasil é acima de 5%, é que se chega ao diferencial de juros apontado por Agostini. Isso faz com que enquanto a taxa real no Brasil feche o ano a 2%, nos Estados Unidos e Zona do Euro o número será negativo — por sinal, essa é uma realidade que se repete nessas economias há três anos consecutivos.

“E esse nível de inflação no Brasil é em um quadro de crescimento econômico de 1,5%. Com a retomada, pode haver pressão inflacionária e, se o BC quiser ajustar para a meta, a taxa de juro real voltará a subir”, reforça Serrano.

No entanto, antes de aplicar um arrocho monetário tradicional, ou seja, subir os juros, o economista do BES espera que o governo opte primeiro por medidas macroprudenciais. “O risco é a inflação ainda persistir por um tempo, pois essa saída demora mais a fazer algum efeito.”

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