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Segundo relatório da Agência Internacional de Energia, Estados Unidos devem superar Arábia Saudita em 2017 e serão "praticamente autossuficientes" em termos energéticos

NYT

Os Estados Unidos irão superar a Arábia Saudita como principal produtor de petróleo do mundo até cerca de 2017 e passarão a exportar petróleo até 2030, de acordo com um relatório publicado este mês pela Agência Internacional de Energia.

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O aumento na produção de petróleo, aliado às novas políticas americanas para aumentar a eficiência energética farão com que os Estados Unidos se tornem "praticamente autossuficientes" em termos energéticos ao longo das próximas duas décadas – uma "diferença sensível em relação a outros países desenvolvidos", afirmou o relatório.

Campo de petróleo em Inglewood, Califórnia: EUA devem se tornar
Getty Images
Campo de petróleo em Inglewood, Califórnia: EUA devem se tornar "autossuficientes" em petróleo nos próximos cinco anos

"As bases dos sistemas energéticos globais estão mudando", afirmou Fatih Birol, economista chefe da organização sediada em Paris, responsável pelo relatório anual "Panorama da Energia Global", em uma entrevista.

Anteriormente, a agência que assessora nações industrializadas em relação a questões energéticas havia previsto que a Arábia Saudita seria o principal produtor mundial até 2035.

O relatório também prevê que a demanda energética aumente de 35 a 46% entre 2010 e 2035, dependendo da implementação das atuais políticas para o setor. Boa parte do crescimento ocorrerá na China, Índia e Oriente Médio, onde a classe média está crescendo rapidamente. As consequências são "potencialmente amplas" para os mercados e o comércio internacional de energia, segundo o relatório.

China será cliente do Oriente Médio

Birol acrescentou que o petróleo do Oriente Médio, que tinha público certo nos Estados Unidos, provavelmente será enviado para a China no futuro. Por sua vez, o carvão mineral produzido pelos Estados Unidos está perdendo demanda interna, mas os mercados europeus e chineses estão crescendo rapidamente.

Há uma série de componentes para a repentina mudança no fornecimento mundial de energia, mas o principal é o renascimento da produção americana de gás e petróleo, especialmente com a descoberta e a exploração do gás e do petróleo de xisto. A ampla adoção de técnicas como o fraturamento hidráulico e a perfuração horizontal tornou essas reservas muito mais acessíveis, causando uma queda drástica nos preços do gás natural.

O relatório prevê que os Estados Unidos superem a Rússia como principal produtor de gás natural em 2015.

As afirmações diretas e a especificidade das previsões feitas pela agência dão novo peso às tendências que se tornaram aparentes no ano passado. "Isso confirma diversas projeções recentes", afirmou Michael Levi, membro sênior de energia e meio ambiente no Conselho de Relações Internacionais.

Formada em 1974, após a crise do petróleo, por um grupo de países importadores, incluindo os Estados Unidos, a Agência Internacional de Energia monitora e analisa as tendências energéticas globais, para garantir fontes seguras e sustentáveis.

Levi afirmou que o relatório da AIE trazia "boas notícias" para os Estados Unidos, pois destacava as novas fontes de energia do país. Entretanto, alertou para o fato de que ser autossuficiente não significa que o país estaria isolado do aumento global de preços, uma vez que o valor do petróleo é estabelecido pelo mercado internacional. "O país talvez se torne menos vulnerável a mudanças repentinas de preço, mas isso não traz a independência energética comentada por tantas pessoas", afirmou.

Além disso, acrescentou, a projeção de autossuficiência feita pelo relatório presume que os Estados Unidos continuem a exigir um aumento na eficiência energética de carros, casas e aparelhos eletroeletrônicos. "É a oferta e a procura que causam esse incrível efeito", afirmou Levi.

Birol informou que 55% das previsões de uma maior autonomia energética nos Estados Unidos se devem ao aumento na produção de petróleo, enquanto 45% se devem ao aumento da eficiência energética no país, como consequência dos novos padrões automotivos de economia de energia instituídos pelo governo Obama. Além disso, Birol acrescentou que políticas de economia energética ainda mais radicais são necessárias nos Estados Unidos e em outros países.

O relatório afirmou que diversos outros fatores podem ter um grande impacto nos mercados energéticos globais ao longo dos próximos anos. Isso inclui a recuperação da indústria petrolífera iraquiana, que injetaria mais combustível no mercado, além da decisão de alguns países – especialmente Alemanha e Japão – de abandonar a energia nuclear após o desastre de Fukushima.

Energia mais barata

Segundo Birol, as novas fontes de energia ajudarão a economia americana, fornecendo um fluxo contínuo de energia barata. A AIE estima que os preços da eletricidade serão 50% mais baixos nos Estados Unidos do que na Europa, em grande parte por conta do aumento no número de usinas a gás natural, ajudando indústrias e consumidores americanos.

Mas a mensagem é menos tranquilizadora para o resto do planeta, em termos de aquecimento global . Ainda que o gás natural geralmente seja promovido como uma energia com baixa emissão de carbono em relação ao petróleo e ao carvão, o novo mercado energético global poderia dificultar ainda mais a prevenção do aquecimento global.

A redução no uso de carvão mineral por parte dos americanos faz com que o carvão seja utilizado em outros lugares, segundo o relatório. E o uso de carvão, a energia mais poluente que existe, continua a aumentar em outros locais. O relatório prevê que a demanda chinesa por carvão chegará ao topo em 2020 e permanecerá estável até 2035. Além disso, a Índia irá superar os Estados Unidos em 2025 como o segundo maior usuário de carvão.

Seguindo a recomendação de muitos cientistas, o relatório também informa que não mais de um terço das atuais reservas de combustíveis fósseis devem ser utilizadas até 2050 para que a temperatura média do planeta não aumente mais de 2 graus Celsius.

Esse tipo de restrição é impossível sem a assinatura de um tratado internacional até 2017, exigindo que países limitem o aumento de emissões, afirmou Birol, acrescentando que o avanço de tecnologias capazes de capturar e armazenar dióxido de carbono é fundamental.

"O relatório confirma que, em função das atuais políticas, passaremos com facilidade de todos os limites de emissão recomendados", afirmou Levi. "Isso acaba com a ideia de que o aumento no consumo de gás natural poderia resolver o problema."

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