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Cotações devem permanecer em queda no mercado internacional, prejudicando receita das exportações brasileiras

A manutenção de uma pauta exportadora concentrada em produtos de baixo valor agregado, em sua maioria commodities, faz com que o Brasil seja mais vulnerável ao mau humor do mercado internacional. Com a queda das cotações neste ano, o valor das principais mercadorias vendidas recuam e, aliado à conjuntura de baixo crescimento nas economias desenvolvidas, ameaçam o desempenho do comércio exterior do país.

De acordo com projeções da RC Consultores, os preços internacionais seguem tendência declinante pelos próximos meses dada a continuidade da crise em grande parte dos países europeus, a desaceleração da China e a baixa taxa de expansão dos Estados Unidos. A estimativa é que a cotação média das commodities encerre o ano 12% abaixo da registrada em 2011. Só não recuará mais por causa de fatores climáticos (como a quebra da safra americana de grãos) e pelos movimentos especulativos nos mercados futuros.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) mostram que os dez itens mais vendidos pelo país neste ano são básicos. Aviões, um dos produtos mais caros e que carrega uma gama de componentes e processos industriais, entra apenas em 11º lugar no ranking (ver quadro).

“Faltam mais ‘aviões’ entre os principais produtos da nossa pauta exportadora”, ressalta Julio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e professor da Unicamp. Para ele, é uma falha estrutural que indica a falta de uma política nacional de inserção de manufaturados brasileiros no mercado externo.

“Estamos vendo desaceleração do saldo com o aprofundamento da queda das cotações nos últimos meses”, observa Rodrigo Branco, economista da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). “Se fosse mais equilibrado, ainda teríamos números melhores”, nota, lembrando que, quando comparados preço e quantidade exportada, os manufaturados têm apresentado variações de queda menores e, em alguns meses, positivas.

Branco chama a atenção para um ponto estrutural da economia brasileira que leva a essa composição atual: os custos. Com a alta das cotações, um processo que vem desde 2002, a exportação mais do que compensou. Já no ramo industrial ocorreu o inverso. “A indústria não teve essa vantagem externa e os custos de produção aqui frente a outros concorrentes não permitem uma boa rentabilidade nas vendas”.

Na avaliação de Almeida, essa lacuna no comércio exterior fará falta no futuro. Isso porque, explica, os países que mais exportam manufaturas são os que aumentam significativamente sua chance de acelerar o seu crescimento econômico. “É certo que nossos parceiros que compram mais industrializados, como Argentina e União Europeia, estão com problemas sérios, mas, podendo, é importante ter uma mescla entre básicos e industriais”.

O professor da Unicamp salienta que não existem críticas a fazer sobre as vendas de commodities, uma vez que o Brasil é competitivo e aproveitou bem o momento anterior de alta das cotações. No entanto, admite, a concentração nesse tipo de embarque atrapalha mais quando a conjuntura externa não está boa.

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