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Companhias já contam com check-ins nas estações ferroviárias; parcerias aumentam lucros

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Sistema ferroviário do Canadá assinou contratos com aéreas: passagens e lucros divididos
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Sistema ferroviário do Canadá assinou contratos com aéreas: passagens e lucros divididos

Quem prefere viajar de avião no Canadá, na França, na Alemanha ou na Espanha pode acabar descobrindo que parte da viagem será feita por terra, já que as companhias aéreas passaram a trabalhar em conjunto com empresas ferroviárias e vender passagens para viagens interligadas.

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William Agius, professor da Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique e viajante frequente, disse ter reservado passagens na Air France, na Lufthansa e na Swiss que incluíam milhas por terra. "Durante o processo de reserva, você não percebe a diferença, e no final do processo você recebe uma mensagem o alertando para o fato de que esse serviço, em particular, será feito de trem e não de avião", explicou.

Uma combinação entre trens mais rápidos e a demora em atravessar os aeroportos lotados mostra que é possível haver uma competição entre as viagens sobre trilhos e as rotas aéreas com distâncias de três horas e meia até quatro horas e meia, disse Andrew Sharp, diretor geral da IARO (International Air Rail Organization), organização responsável por ligar linhas de trem aos aeroportos, com sede em Londres. Esse é especialmente o caso na Europa, onde muitas estações de trem estão localizadas dentro ou nas proximidades dos aeroportos internacionais.

Contabilizando-se o tempo gasto para ir e vir do aeroporto, fazer o check-in e entrar e sair do avião, "qualquer voo, mesmo um voo de 24 minutos entre São Diego e Los Angeles, leva três horas", disse Sharp. Até mesmo Agius, que trabalha no Centro de Aviação da Universidade e é um viajante ávido, disse que pegar o trem é uma boa opção, às vezes. "Eu pegaria o trem 100% das vezes, apenas por conveniência, se o tempo total de viagem de porta a porta fosse similar ao da viagem de avião", concluiu.

Há cerca de cinco anos, a viagem de 480 km de Estrasburgo, ao Leste da França, até Paris, levava seis horas. Em 2007, o sistema ferroviário francês (SNCF) começou a operar um trem-bala que completava a viagem até o aeroporto Charles de Gaulle em duas horas e meia. O serviço ferroviário acabou efetivamente com o voo de Estrasburgo da Air France, segundo um porta-voz, e então em 9 de dezembro, a companhia aérea vai eliminar seu serviço que funciona quatro vezes ao dia e passar a vender uma viagem a Paris de trem. "Os passageiros farão o check-in com funcionários da Air France em um guichê especial na estação de Estrasburgo", explicou a porta-voz Claire Jacobs.

Substituir uma rota aérea por trilhos é novidade para a Air France, mas o exemplo seguido é de 30 anos atrás quando a Lufthansa, na Alemanha, começou a vender passagens aéreas com números de voo em trens que operavam entre os aeroportos de Frankfurt e Düsseldorf. Ao eliminar esses voos, companhias aéreas como a Lufthansa e a Air France abrem espaço para rotas mais rentáveis – geralmente voos mais longos.

Fora da Europa, no entanto, parcerias comerciais entre operadoras de trem e operadoras aéreas continuam sendo algo fora do comum. Este ano, pela primeira vez, o sistema ferroviário do Canadá, o VIA Rail, assinou contratos com a Royal Jordanian Airlines e com a Air Transat, que permitem que as companhias vendam passagens umas das outras, coordenem itinerários e compartilhem lucros.

"Essa nossa iniciativa é mais para fazer com que a Royal Jordanian possa competir no mercado de Ontario, de onde nós não temos nenhum voo e onde nossas taxas acordadas com a Air Canadá são extremamente altas", contou Manouk Manoukian, chefe de operações da Royal Jordanian no Canadá.

A Royal Jordanian tem um serviço que funciona duas vezes por semana de Montreal para Amã, e muitos viajantes do Canadá fazem transferências para outros voos nessa região ao chegarem na Jordânia. Grande parte da população árabe do Canadá está em Ottawa (a 200 km de Montreal) e em Toronto (a 480 km).

A parceria "é uma solução que vai nos ajudar a atingir um nível mais alto nas vendas", Manoukian explicou via e-mail.

Assim como outros combos, o que é feito entre a Royal Jordanian e a VIA permite que os passageiros comprem uma viagem completa de trem e de avião em qualquer uma das duas companhias.

"Desde o início, oferecer mobilidade de uma porta à outra tem sido o segredo do sucesso", disse Mohamed Bhanji, gerente de marketing e tecnologia da VIA. A companhia opera trens intermunicipais, regionais e transcontinentais, assim como ônibus, e Bhanji disse que seu plano principal era ligar as cidades canadenses a aeroportos principais nas fronteiras: por exemplo, Windsor e Ontario até Detroit e Vancouver até Seattle.

Em outros países, o desafio é fazer os passageiros que preferem voar pegarem o gostinho de viajar de trem. Essa foi a tarefa da Avianca Airlines na Colômbia este ano, quando a companhia aérea espanhola Spanair fechou as portas. A Spanair era responsável por transportar 10 mil passageiros para a Colômbia pela Avianca, e seu colapso deixou a transportadora colombiana com um problema na Espanha, disse o chefe de operações da companhia, Estuardo Ortiz. "Sem eles, não tínhamos fluxo", explicou.

Sem meios de reunir todos os viajantes da Espanha que queriam ir à Colômbia, ou de transportar colombianos para lugares além dos limites internacionais da Espanha, a Avianca procurou o sistema ferroviário da Espanha, o Renfe. O acordo com o Renfe, que passou a valer em abril, permite que a Avianca venda passagens para 15 destinos na Espanha saindo de trem dos aeroportos de Madrid e Barcelona.

"Muitos colombianos não veem o trem como uma opção", diz Ortiz. "Para algumas pessoas, saltar de um trem para um avião é uma coisa estranha. Acho que as pessoas precisam se acostumar com isso ainda."

Até mesmo em lugares onde viajar de trem é comum, as estações de trem precisam ser perto do aeroporto para que o acordo funcione, como na Europa, de acordo com um relatório da Sharp para sua organização, que recebe suporte de uma conexão por trilhos com o aeroporto Heathrow, o Heathrow Express. "Uma estação de trem no aeroporto é virtualmente essencial", dizia.

É por isso que nos Estados Unidos, a Amtrak tem apenas um acordo com uma companhia aérea – um contrato de 10 anos com a United Airlines de Newark, que fica perto de uma estação de trem-bala.

"O sistema ferroviário dos EUA cresceu de modo independente do sistema aéreo", disse Matt Hardison, chefe de vendas, distribuição e serviço ao cliente da Amtrak. "Esse é o desafio número 1 que temos que enfrentar."

Cerca de 24 mil pessoas pegam o Amtrak até Newark para fazer conexão com os voos da United, com 90 por cento deles vindos da Filadélfia, a apenas 127 km, segundo Hardison. Ainda assim, viajantes de Delaware, de Stamford e de New Haven, Connecticut, também podem reservar uma passagem mista pela Amtrak ou pela United.

"Escolhemos esses porque queríamos testar em cidades menos preparadas, lugares onde os trilhos teriam uma vantagem sobre os aviões", explicou Hardison. Mas, ele completou, os passageiros que viajam saindo de Connecticut passam por escalas de 15 a 20 minutos na Pennsylvania Station em Nova York, e isso está os afastando.

"Estamos nos negócios dos transportes, e tudo que queremos é dar opções ao público viajante", disse David Kinzelman, diretor de planejamento de parcerias da United. "Observe a população dos Estados Unidos. Não há uma aversão a pegar o trem até o avião, mas não é fisicamente possível em muitos lugares. É um paradoxo."

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