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Pequenas empresas cobram tarifas menores do que a de grandes instituições financeiras

NYT

Londres – Quando Hiroki Takeuchi entrou na McKinsey & Company, em 2008, ele ficou na fila do gargarejo da reviravolta financeira.

Depois da quebra do Lehman Brothers, Takeuchi, 26 anos, formado em Oxford, trabalhou em alguns dos maiores bancos do mundo tentando entender como se ajustar às novas regras e a um mercado modificado. Depois, ele se demitiu.

Takeuchi deixou consultoria para criar sua própria startup
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Takeuchi deixou consultoria para criar sua própria startup

Para Takeuchi, as lembranças de amigos criando startups bem-sucedidas na faculdade sobrepujaram a remuneração lucrativa oferecida por uma consultoria de primeira linha. Ele juntou forças com dois consultores da McKinsey e eles passaram a escrever febrilmente códigos na casa dos pais, com um orçamento mínimo, para abrir uma startup de tecnologia.

O resultado foi a GoCardless, empresa londrina que permite às pequenas empresas estruturar pagamentos mensais aos fornecedores por uma fração do valor cobrado pelos bancos. A firma foi assegurada por US$ 1,5 milhão em capital semente oriundo de vários investidores famosos, como a Y Combinator, antiga empresa norte-americana de capital de risco.

"Toda essa ideia de pagamentos bancários já era", disse Takeuchi no escritório da GoCardless num prédio malconservado nos arredores do distrito financeiro de Londres. "Existe uma oportunidade e estamos interessados em agarrá-la."

O mundo das startups londrino está tentando abalar o status quo financeiro. Conforme se deteriora a confiança dos consumidores nos bancos por causa de uma série de escândalos recentes, as jovens empresas chegam com tudo com as novas vantagens. As firmas estão oferecendo serviços extras como serviço de câmbio de baixo custo e outras maneiras para empresas pequenas tomarem empréstimos.

Apoiadas por empresas de capital de risco como a Index Ventures, as startups financeiras estão conquistando as empresas estabelecidas por intermédio da tecnologia, reduzindo os custos e melhorando a experiência do cliente. As autoridades locais não regulamentam diretamente muitas dessas firmas, mas as companhias jovens costumam utilizar bancos tradicionais e outras financeiras para as funções administrativas, como processar pagamentos, os quais são monitorados pelos reguladores britânicos.

"As startups estão tirando proveito da posição de Londres como centro financeiro global", afirmou Adam Valkin, sócio da companhia europeia de capital de risco Accel Partners. "Elas são inovadoras de um jeito que não é possível para os bancos."

O crescimento dos empreendedores financeiros acontece enquanto a comunidade de startups de Londres continua a florescer. Muitas regiões da zona leste londrina se transformaram numa versão miniatura do Vale do Silício, com companhias como o Google abrindo espaço comercial compartilhado para apoiar as que estão em formação. Startups dos setores de finança, tecnologia e moda conseguiram tirar proveito da grande oferta de profissionais jovens, talentosos e multilíngues ávidos por trabalhar nelas.

Muitas empresas seguem os passos da Wonga.com, financiadora online fundada em 2006 que buscou preencher um vácuo deixado pelos bancos ao oferecer empréstimos de curto prazo e juros altos a consumidores e pequenas empresas. A companhia foi criticada por cobrar taxas elevadas de clientes vulneráveis. A taxa de juros anual típica dos empréstimos concedidos por ela ultrapassa os quatro mil por cento, embora a Wonga.com afirme oferecer crédito por um máximo de 30 dias.

Para cortar os custos, ela se vale de dados online disponíveis publicamente para determinar se um requerente tem capacidade creditícia. Os empréstimos podem ser concedidos em apenas 15 minutos e a empresa passou a também emprestar ao mercado de pequenas empresas enquanto estas buscam alternativas aos bancos.

As táticas estão dando certo. Ano passado, a financeira online anunciou um crescimento de 269 por cento no lucro líquido, somando US$ 73 milhões, após o crédito ter quadruplicado na comparação com o ano anterior. Agora, a Wonga considera um lançamento de ações na casa de vários bilhões de dólares na Nasdaq, lucrando ao conceder empréstimos a clientes tidos como muitos arriscados para as instituições bancárias.

Para muitos funcionários do setor de serviços financeiros de Londres, histórias de sucesso como a da Wonga transformaram a ideia de abrir um negócio numa opção cada vez mais atraente. Com o declínio das atividades dos bancos de investimento, as perspectivas de trabalho no setor permanecem baixas desde o começo da crise financeira e, estima-se, o setor financeiro deve perder 25 mil postos neste ano.

Anil Stocker viu as dispensas de perto. Stocker, 28 anos, formado em Cambridge, deixou o Lehman Brothers meses antes de sua quebra, em 2008. Um ano mais tarde, ele se demitiu do banco de investimento norte-americano Cogent Partners, para fundar a MarketInvoice com dois amigos que trabalhavam no JPMorgan Chase e no Goldman Sachs.

Stocker deixou setor financeiro para criar a MarketInvoice
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Stocker deixou setor financeiro para criar a MarketInvoice

A startup ajuda pequenas empresas a ganhar acesso ao capital vendendo com desconto, a investidores, as faturas dos fornecedores.

"O setor de financiamento terá de mudar por completo e nós mal começamos", disse Stocker.

A MarketInvoice deseja explorar um mercado pouco atendido no setor bancário. Conforme as empresas voltavam a fazer empréstimos, as pequenas não conseguiram crédito por serem consideradas um risco financeiro grande demais.

Para ajudar tais empresas a terem acesso ao dinheiro, Stocker e os sócios abriram um mercado online no qual as pequenas empresas podem leiloar os contratos de fornecimento de longo prazo a administradores de investimentos pelo preço mais alto. Várias faturas demoram até 90 dias para serem pagas, então as firmas estão dispostas a vendê-las com desconto para ter capital a curto prazo.

Começar o negócio não foi fácil. Os fundadores da MarketInvoice ainda trabalhavam para os bancos durante o processo de formação da startup e levaram quase um ano para criar o plano de negócios e outros seis meses para levantar US$ 1,4 milhão com investidores. A novata leiloou o primeiro contrato de fornecedor por 40 mil libras, no começo de 2011, mas somente chegou à marca de um milhão de libras nove meses mais tarde.

"Ninguém queria ser a primeira companhia a utilizar nosso sistema", afirmou Stocker. "No começo, você vive ou morre em função da reputação."

As startups financeiras de Londres também estão atraindo empreendedores com experiência no setor de tecnologia.

Taavet Hinrikus, estoniano de 31 anos, o primeiro funcionário do Skype, inventou sua empresa enquanto ainda trabalhava no serviço telefônico via internet. Em 2006, a empresa o transferiu de Tallinn, capital da Estônia, para Londres, onde se tornou diretor de estratégia do Skype. Contudo, Hinrikus ficava frustrado depois de perder cinco por cento do salário com tarifas bancárias toda vez que transferia dinheiro entre os dois países.

Após conhecer compatriotas em Londres interessados em transferir dinheiro para a Estônia, Hinrikus criou um sistema pela qual indivíduos eram capazes de passar dinheiro para suas contas. Segundo Hinrikus, ele economizou milhares de dólares em tarifas fechando um acordo de câmbio numa taxa fechada.

"Tivemos de encontrar um jeito de fugir das tarifas."

Com o sócio, Kristo Kaarmann, ex-consultor administrativo, Hinrikus criou um site para conectar pessoas interessadas em trocar libras esterlinas por euros. A startup, TransferWise, trabalha como intermediária das transferências monetárias e passou a operar com outras moedas europeias.

Nem tudo saiu como planejado. A startup precisou esperar 18 meses até receber a licença operacional dos reguladores britânicos.

Contudo, nos 12 primeiros meses, Hinrikus afirmou que a TransferWise ajudou pessoas a trocar cerca de US$ 10 milhões em moeda estrangeira que evitaram as caras tarifas bancárias. A firma também levantou US$ 1,3 milhão em capital semente de investidores, como Max Levchin, um dos fundadores do PayPal.

"Os bancos não estão se saindo bem em termos de inovação para os clientes", declarou Robert Dighero, sócio da Passion Capital, empresa londrina de capital de risco. "As startups estão abocanhando parte de seus negócios mais rentáveis."

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