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Fundada por Sean Parker e Shawn Fanning, criadores do Napster, empresa tem poucos usuários de seu serviço de vídeo

NYT

Isso parece uma receita de sucesso para uma nova startup: dois empreendedores famosos, milhões de dólares no banco e a aprovação de celebridades como Alicia Keys e Jim Carrey.

Mas o Airtime, festejado site de bate-papo por vídeo criado por Sean Parker e Shawn Fanning, a dupla por trás do serviço de compartilhamento de música Napster, acabou se mostrando nada garantido.

Parker e Fanning: fama não garantiu sucesso de nova empreitada
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Parker e Fanning: fama não garantiu sucesso de nova empreitada

O site tem apenas alguns meses, e a equipe está ajustando seus recursos para torná-lo mais atraente. Até agora, o tráfego do Airtime parece pouco maior do que zero. E as últimas notícias sobre a empresa – ela perdeu alguns funcionários importantes e demitiu outros – não trazem bons sinais para seu futuro.

A história ainda recente do Airtime reflete os desafios de qualquer startup, independentemente de seu pedigree, para conquistar usuários quando tantos outros sites, aplicativos e serviços disputam sua atenção. E demonstra como pode ser difícil criar a mágica viral a partir do nada.

Bing Gordon, membro do conselho do Airtime e sócio da Kleiner Perkins Caufield & Byers, uma das firmas de capital que apoiou a empresa, disse que os usuários tendem a ser volúveis, impacientes e duros de impressionar.

"O ciclo de vida médio de um aplicativo é bem curto", declarou Gordon. "As pessoas estão sempre prontas para escolher a próxima grande novidade."

No caso do Airtime, Gordon disse acreditar que o vídeo bidirecional se tornará um meio mais importante com o tempo, pois transmite emoções que uma mensagem de texto ou chamada telefônica não consegue capturar.

Ele acrescentou que Parker e sua equipe teriam apenas de continuar tentando até acertar: "Eles estão nessa jornada".

Parker rejeitou a ideia de que o Airtime estaria em dificuldades. Ele afirmou que existe um núcleo dedicado de pessoas que o usam regularmente, e apontou que a empresa ainda estava fazendo ajustes.

"Este é um estágio ridiculamente inicial para uma empresa", explicou Parker numa entrevista em outubro, em sua casa em Nova York. "Leva-se de seis a 12 meses para colocar tudo em funcionamento."

Parker disse que a empresa está movendo a maior parte de suas operações de São Francisco para Nova York, num esforço para rejuvenescer o negócio e fazer uso dos engenheiros e designers da Costa Leste. A empresa também está trabalhando numa versão móvel do serviço, além de recursos que permitirão conversas com diversos amigos simultaneamente, em vez de apenas um.

Algumas das críticas sobre a empresa vieram em resposta à sua apresentação exagerada – um evento num estúdio em Manhattan, repleto de estrelas e aperitivos chiques. Parker disse que queria atrair a atenção de tipos não tecnológicos, e conquistar um bom número de usuários curiosos no primeiro dia. O persistente escrutínio da empresa foi uma "consequência inesperada", explicou ele.

O Airtime se recusou a fornecer dados específicos sobre número de usuários, e declarou apenas que o tráfego inicial foi "bastante convincente". A AppData, serviço que coleta dados sobre sites e serviços conectados ao Facebook, indicou que o Airtime trouxe apenas 400 usuários por dia e 10 mil no curso de um mês – mas Parker e outros executivos da empresa sugeriram que esses números não refletiam a realidade. Nielsen e comScore, duas firmas analíticas independentes, declararam que o tráfego do Airtime era tão pequeno que nem havia aparecido em seus gráficos.

Segundo Parker, o Airtime está monitorando como as pessoas usam o serviço e acrescentando novos recursos, como a habilidade de publicar respostas gravadas em vídeo. Ele afirmou que isso é similar aos seus dias iniciais em outras empresas, incluindo Spotify, o serviço de contatos corporativos Plaxo e até mesmo o Facebook.

Mas parte do problema é que os usuários da internet não costumam esperar até que uma nova empresa descubra seu caminho – algo que Parker está lutando para combater. "Eu sabia que não teríamos um tremendo crescimento logo de cara com um serviço de conversa por vídeo", garantiu ele.

Usuários testam o Airtime durante evento da empresa. Startup tem dificuldade para se tornar popular
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Usuários testam o Airtime durante evento da empresa. Startup tem dificuldade para se tornar popular

Mas parte do problema é que os usuários da internet não costumam esperar até que uma nova empresa descubra seu caminho – algo que Parker está lutando para combater. "Eu sabia que não teríamos um tremendo crescimento logo de cara com um serviço de conversa por vídeo", garantiu ele.

O Airtime já adaptou sua abordagem várias vezes desde o lançamento. Ele foi inicialmente vendido como uma versão familiar do Chatroulette, que teve grande sucesso em 2009 ao conectar estranhos para uma conversa por vídeo – mas fracassou após ser inundado de nudez. Parker e Fanning estavam negociando para comprar o Chatroulette de seu criador, Andrey Ternovskiy (então com 17 anos), mas quando isso não deu certo, os dois decidiram construir sua própria versão, segundo Parker e Fanning. Ternovskiy não respondeu a um pedido de comentários.

O Airtime conseguiu seu primeiro financiamento em 2010, mas não gerou um produto viável até comprar a Erly, empresa de compartilhamento de fotos criada por antigos funcionários do Hulu. A primeira versão do site Airtime foi revelada em junho.

Neste ano, Parker substituiu Fanning como presidente. Fanning está no conselho e disse anda estar envolvido com a empresa, como consultor de produtos. "Depois de minha família, este é meu trabalho número 1", afirmou ele numa entrevista.

Depois que um usuário se cadastra no Airtime através do Facebook, o serviço analisa o perfil desse usuário e o coloca junto a estranhos que possuem interesses similares. Então eles podem conversar e assistir a vídeos do YouTube juntos. Desde sua introdução, o serviço rapidamente lançou novos recursos para permitir que os usuários deixem mensagens em vídeo uns aos outros e recebam reações em vídeo a itens postados.

Parker afirmou que a empresa reduziu sua equipe a menos de doze pessoas, mas não revelou quantos funcionários a empresa possuía na época do lançamento. Segundo ele, os demitidos eram quase todos do atendimento ao cliente, contratados como moderadores dos bate-papos por vídeo. A empresa também perdeu Eric Feng, fundador da Erly e ex-diretor técnico do Hulu, que supervisionou a construção do site do Airtime. Parker garante que sua partida estava planejada.

O Airtime levantou US$ 33,5 milhões com um estrelado grupo de investidores, incluindo Kleiner Perkins, Andreessen Horowitz, SV Angel, Founders Fund, Google Ventures e celebridades como Ashton Kutcher. Parker insistiu que a empresa continua bem financiada.

Para Parker, que tem a reputação de identificar grandes ideias e popularizá-las, há mais em jogo do que apenas o sucesso desta startup. Seu envolvimento inicial no Napster, Facebook e Spotify significa que as pessoas da indústria estão observando para ver se ele terá sucesso com o Airtime.

Parker reconhece que seu envolvimento aumentou a pressão sobre o Airtime. Ele insistiu que não está preocupado com sua estatura no mundo da tecnologia. "Se estivesse preocupado com minha reputação, eu não faria nada com startups", afirmou ele. "Iniciar uma empresa é sempre uma série de tentativas, é sempre doloroso."

Embora o Airtime não tenha atraído uma multidão instantânea, o bate-papo por vídeo vem ganhando terreno entre usuários jovens, viajantes e famílias que dependem disso para manter contato. Analistas acham que é apenas questão de tempo até que o serviço ganhe um apelo mais amplo.

"Toda a história da comunicação foi tentar aproximar a experiência de estar cara a cara quando os interlocutores não estão na mesma sala", explicou James McQuivey, analista da Forrester Research. "Mas o caminho para chegar lá é coberto de tentativas e fracassos."

Ainda há desvantagens na conversa por vídeo, incluindo que as pessoas precisam estar prontas para entrar num bate-papo e dar ao interlocutor sua atenção total – algo praticamente inédito numa era de comportamento multitarefa em smartphones.

Mesmo assim, existem alguns grandes sucessos no mercado. O Skype, serviço de chamadas de áudio e vídeo pertencente à Microsoft, afirma ter 254 milhões de usuários. O OoVoo, serviço gratuito que permite que até 12 pessoas conversem por vídeo ao mesmo tempo, teve 9,2 milhões de visitantes nos Estados Unidos em agosto, de acordo com a Nielsen.

Segundo McQuivey, da Forrester, logo será muito simples para todos conversarem por vídeo, em parte porque grandes empresas de tecnologia estão pressionando pela ideia. A Amazon está embutindo câmeras nos modelos mais recentes dos tablets Kindle Fire. A Apple oferece o FaceTime em seus dispositivos, e o Google possui uma ferramenta chamada Hangouts.

"Todos os titãs da tecnologia estão buscando isso, mas como um recurso em seus produtos existentes", explicou ele. "Você não precisa se cadastrar ou pagar pelo serviço – ele simplesmente faz parte da experiência."

Parker discordou de que conversa por vídeo seja apenas um recurso. "Para usá-la, você precisa de uma rede de pessoas", disse ele.

"Podemos ter surgido tarde demais ou até mesmo um pouco cedo", concluiu Parker. "Mas espero que sejamos como Cachinhos Dourados, e o momento esteja perfeito."


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