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Para especialistas, se a economia chinesa desaquecer, desaceleração do PIB do Brasil pode se intensificar nos próximos trimestres

Apesar do avanço de 0,4% no segundo trimestre na comparação com o primeiro trimestre do ano, quando a economia ficou praticamente estável (0,1%), o Brasil teve um desempenho bem inferior quando comparado com países da América Latina como o México que teve crescimento de 0,9%, e o Chile com avanço de 1,6%.

Economia brasileira cresce 0,4% no 2º tri

Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, o Brasil cresceu, no segundo trimestre de 2012, muito menos que os outros países emergentes que compõem o grupo dos Brics fomado também pela Rússia, a Índia, a China e a África do Sul.

Enquanto o Brasil registrou um crescimento de 0,5%, as China cresceu 7,6% e a Índia, 5,5%. Já a economia russa apresentou crescimento de 4%, enquanto o PIB da África do Sul teve alta de 3,2%

A maior economia do mundo, os Estados Unidos, registrou crescimento de 1,7% no segundo trimestre.

Linha de montagem de automóveis: problemas crônicos de produtividade afetam desempenho da economia
AE/ROBSON FERNANDJES
Linha de montagem de automóveis: problemas crônicos de produtividade afetam desempenho da economia

Segundo o professor de Economia do Ibmec/MG, Reginaldo Nogueira, os problemas de produtividade da economia brasileira são crônicos, e conhecidos há um bom tempo. "Infelizmente, as últimas reformas estruturais da economia foram realizadas há uma década. Isso faz com que o potencial de crescimento da oferta seja limitado, o que é um entrave ao crescimento sustentável do País", diz.

Com indústria enfraquecida, agropecuária mais uma vez puxa desempenho do PIB

Na avaliação de Nogueira, essa questão ficou mascarada em períodos recentes pela expansão da demanda externa, que possibilitou um crescimento do PIB brasileiro pelo lado do consumo. Mas com a piora do cenário externo os problemas estruturais ficaram novamente evidentes. "Atuar sobre a questão tributária, sobre o marco regulatório, sobre a infraestrutura e sobre o nível educacional médio da população é absolutamente fundamental se o País quiser voltar a crescer de maneira robusta e prolongada", acrescenta.

Para o economista e professor da escola de negócios Trevisan, Claudio Gonçalves, a desaceleração da economia brasileira pode se intensificar nos próximos anos. “Se a China se desaquecer, ficará muito pior. O governo tem que fazer reformas amplas para que a economia volte a ser competitiva.”

Gonçalves lembra ainda que, ao criar o termo Brics, o banco Goldman Sachs projetava um crescimento médio de 5% para o Brasil entre 2010 e 2020, de forma que o País se transformasse em uma potência em 2050. “Esse crescimento mirrado acabará nos levando a sair do grupo.

Na opinião do economista, o "desempenho pífio" da economia nacional acabará por favorecer o México, que tem grandes chances de ocupar a posição do Brasil no Brics.

Na comparação com o trimestre anterior, a economia mexicana cresceu 0,9% no segundo trimestre de 2012. Já o Brasil creceu apenas 0,4%. "Mais um pouco e o B será substituído por um M", diz Gonçalves.

A economista do IBGE, Rebeca Palis, gerente de contas nacionais, ponderou que os “Brics têm características semelhantes, mas são países muito diferentes”. Segundo ela, se olharmos o PIB per capita, por exemplo, percebemos que Brasil e Rússia estão à frente de países como a própria China. “Sendo assim, é 'mais fácil' para esses países crescerem, porque eles estão com uma base menor do que a nossa”, diz.

Rebeca reconhece, entretanto, que há três ou quatro trimestres o Brasil registra uma taxa de crescimento inferior ao dos outros países do grupo de economias emergentes. “Mas, se compararmos com outros países, como no caso de nações da Europa, registramos crescimento, ao passo que eles tiveram queda."

Para o economista e especialista em finanças pública Amir Kahir, para crescer é necessário produzir para exportar ou para abastecer o mercado interno. Mas segundo Kahir, como existe muita oferta e a concorrência é muito forte, várias portas de fecham para os produtos brasileiros no exterior. "Além disso, o mercado interno já mostra sinais de saturação em alguns segmentos", diz o economista.

Na avaliação do especialista, as medidas macroprudencias, adotadas pela equipe econômica no fim de 2010, também colaboraram para abortar o ritmo de crescimento da economia do Brasil. "Um dos objetivos com as medidas era combater, naquela época, um efeito maior da elevação nos preços das commodities sobre a taxa de inflação. Mas isso provocou uma ruptura no ritmo positivo da economia", acrescenta.

O economista-chefe do Espírito Santo Investment Bank, Jankiel Santos, não se pode ignorar a série de estímulos que foram dados pelo governo nos últimos meses. "No segundo semestre, os dados podem  deixar mais claro os efeitos desses estímulos sobre o consumo, a produção e os investimentos", diz.