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Na avaliação do economista que foi um dos formuladores do Plano Real, manutenção da estabilidade da economia deve estar sempre no foco, mas sob o comando de uma autoridade monetária que seja, de fato, autônoma

Após 18 anos de lançamento do Plano Real, que estabilizou a economia do Brasil e deu fim ao forte ciclo inflacionário, outros pontos como as questões fiscal e tributária, além de uma autonomia de fato para o Banco Central são os próximos desafios que devem ser enfrentados pelo governo e os formuladores de políticas econômicas, segundo o ex-presidente do Banco Central, no início do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, entre janeiro e junho de 1995, e um dos pais do real, o economista Persio Arida.

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Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central e um dos formuladores do Plano Real
AE
Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central e um dos formuladores do Plano Real

Na avaliação do economista, que também comandou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no período entre setembro de 1993 a janeiro de 1995, no governo do então presidente da Repúbica Itamar Franco, o momento de maior vulnerabilidade vivido pelo real foi verificado logo na largada, com as sucessivas crises no México, na Ásia e na Rússia, com reflexos no sistema bancário brasileiro, que culminaram com a maxidesvalorização em janeiro de 1999.

Formado pela Universidade de São Paulo (USP) e com doutorado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, Arida também foi um dos idealizadores do Plano Cruzado, implantado no Brasil em 1986, durante o governo do presidente José Sarney.

Para Arida, apesar de passados 18 anos da entrada em circulação do real, da conquista da estabilidade e da recuperação da confiança no País, é necessário manter as novas gerações atualizadas sobre os episódios de um passado ainda recente, onde a inflação devastava a vida da população. “É preciso mostrar para as novas gerações que nem sempre Brasil conviveu com um sistema econômico estável”, diz.

A seguir, trechos da entrevista concedida ao iG .

iG: Qual o maior legado do Plano Real?

Persio Arida: Entre os maiores legados estão a estabilidade do sistema financeiro e o controle da inflação, que permitiram, entre outros pontos, um melhor desenvolvimento do mercado de crédito com benefícios para toda a sociedade. O essencial para que o País saiba utilizar essa alavanca de crescimento é defender a estabilidade, mantendo-se fiel à responsabilidade fiscal e ao controle da inflação.

iG: Nos 18 anos do real, qual foi o período de maior vulnerabilidade?

Arida: O período de maior vilnerabilidade foi verificado entre 1995 e 1999, logo no lançamento, com as sucessivas crises, inclusive a crise bancária, que culminaram com a maxidevalorização em janeiro de 1999. Daí em diante, após esse período mais turbulento, o plano real se consolidou junto com a economia brasileira.

iG: A crise de 2008 foi, na sua avaliação, mais um teste para o real?

Arida: Foi um teste, mas graças aos erros e aos acertos das medidas aplicadas após o lançamento do real foi possível atravessar a crise com uma economia mais consolidada e mais bem preparada que no passado para esse cenário.

iG: A inflação ainda representa perigo para a economia do País?

Arida: Hoje temos um sistema financeiro em melhor estado e não temos os perigos de 1995 que ameaçavam a estabilidade da moeda e a economia do País. Não temos a ameaça da volta do dragão inflacionário. A inflação no atual patamar é normal, mas ainda resulta do resquício da indexação.

iG: Na sua visão, ainda faz sentido, após 18 anos, seguir comemorando o aniversário de lançamento do Plano Real?

Arida: Sim é importante manter essa lembrança porque foi uma conquista do País, conseguir debelar ciclo de inflação alta que afetava todo o desempenho da economia. Além disso, é preciso mostrar para as novas gerações que nem sempre Brasil conviveu com um sistema econômico estável.

iG: Quais os desafios importantes a partir de agora?

Arida: Acho que existem muitos desafios, a própria manutenção da estabilidade sempre estará na pauta. Mas eficiência no aspecto fiscal está entre os principais desafios porque a carga tributária aumentou de 25% quando foi lançado o Plano Real para 37% do Produto Interno Bruto (PIB) atualmente e os gastos públicos tiveram crescimento real ao longo do tempo. Um ponto importante seria um Banco Central totalmente independente. Isso representaria mais uma sinalização de avanço institucional da autoridade monetária do País. A maior tranparência, com a divulgação dos votos dos membros do Copom é um aspecto dessa evolução natural dentro desse processo.

iG: Onde o senhor estava em 1º de julho de 1994, primeiro dia de circulação do real como a moeda oficial do País?

Arida: Passei o dia em Brasília com uma agenda cheia. Tive encontros no Banco Central e no ministério da Fazenda e atendi a muito telefonemas.

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