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Argentinos e israelenses se inspiraram nas ideias de Francisco Lopes e no Plano Larida, de Pérsio Arida e André Lara Resende, para antecipar ações que o Brasil adotaria quase uma década depois

Imagine-se na manhã de um sábado de 1986, indo à padaria comprar pãozinho, sem esquecer nenhuma das 19,965 bilhões de unidades de cruzado, a moeda recém-lançada pelo governo. Isso mesmo, a simples compra de um quilo de pão francês que você paga hoje em média R$ 7,26, segundo o Dieese, exigiria alguns bilhões em 86. A diferença unitária de moeda era fruto da vilã que por quase duas décadas fez do Brasil uma de suas principais vítimas, a inflação. “Há uma geração que não saberia hoje quanto dinheiro seria necessário para comprar um chiclete”, compara o professor da Ibmec-MG, Reginaldo Nogueira.

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A inflação, o aumento generalizado de preços com a perda do poder de compra pelo consumidor, estacionou no País no final dos anos 1970, refletindo o controle excessivo do Estado ditatorial sobre a economia – incluindo trapalhadas técnicas como a criação de indexadores para corrigir automaticamente os contratos de longo prazo e o uso do protecionismo para corrigir déficits nas contas externas.

A estabilização viria em 1994, com a criação do real. Um controle que nasceu de um conjunto de propostas de economistas como Francisco Lopes, que em 1984 sugeriu o congelamento de preços como primeiro passo para controlar a escalada de preços, o chamado “choque heterodoxo”. E que ganhou corpo em estudos do núcleo de economia da PUC-RJ a partir daí, com destaque para a Proposta Larida, de Pérsio Arida e André Lara Resende, contrários ao congelamento de preços.

Argentinos saem na frente

As ideias brasileiras, contudo, ganharam corpo inicialmente fora do País. Mais especificamente na Argentina, depois que um grupo de economistas liderado por Guillermo Rozenwurcel passou pela PUC-RJ e levou as propostas de estabilização para o país vizinho, em meio aos debates sobre a criação do Mercado Comum do Sul, o Mercosul.

A Larida propunha o controle inflacionário a partir da adoção de um indexador econômico que garantisse oscilações de preço por períodos mais alongados, acompanhado de uma política cambial na qual a moeda local não perdesse valor ante o dólar.

Arida e Resende sugeriam a criação de uma moeda que serviria de âncora a partir de correção diária com base na variação mensal das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN), criada para corrigir os títulos da dívida pública sem absorção da inflação real. O modelo seria parcialmente adotado em 1994, com a implantação da Unidade Real de Valor (URV), que por quatro meses assumiu o papel de peça de transição monetária do cruzeiro real para o real.

Casa Rosada em Buenos Aires: proposta debatidas no Brasil foram base do Plano Austral na Argentina
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Casa Rosada em Buenos Aires: proposta debatidas no Brasil foram base do Plano Austral na Argentina

A primeira investida nesse sentido foi feita em 15 de junho de 1985, quando o governo argentino anunciou o Plano Austral, que tinha como uma de suas metas o controle do déficit operacional do governo – ou seja, o objetivo de diminuir o gasto com o financiamento do setor público em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), realizado a partir da emissão de moeda, o que gerava maior liquidez a partir do excesso de dinheiro circulante que em função da alta quantidade se tornava barato. Foi assim que o Banco Central da Argentina anunciou que deixaria de emitir moeda para cobrir déficits da Casa Rosada.

O resultado foi uma queda na participação do gasto operacional sobre o PIB de 10,8%, em 1984, para 7%, em 1985, e 4,3% em 1986. A redução surgiu como fruto do congelamento de preços, acompanhada do lançamento de uma nova moeda, o austral – substituto do peso argentino.

Real avança como moeda do comércio globalizado

O controle cambial com o lançamento de uma moeda atrelada ao dólar foi apoiado pelo congelamento dos salários, aliado de primeira ordem para evitar que o ganho de força monetária fosse corroído pelo aumento da liquidez.

Por quase dois anos, a Austral funcionou bem. Mas a falta de política fiscal mais rigorosa aos pouco fez a inflação voltar. Isto porque, embora a Casa Rosada tenha se comprometido a não emitir moeda para cobrir o rombo de suas contas, o Banco Central transferiu o déficit para as instituições financeiras na forma de repasses de crédito líquido, que cresceram cerca de 150% entre junho e dezembro de 1985, conforme dados do banco central argentino.

O suporte foi fruto do medo da Casa Rosada de o consumidor argentino buscar liquidez para comprar produtos cujos preços haviam sido congelados. O medo tinha nome: crise sistêmica no setor bancário, a partir da fuga de reservas por meio de saques. O governo, então, liberou as operações de redesconto (crédito do banco central para cobrir déficit de caixa do setor bancário). Isso elevou a conta de regulação monetária em quase 1 bilhão de austrais no segundo semestre de 1985.

Pesou mais a necessidade de cobrir empréstimos tomados pelos governos estaduais em seus bancos estatais – mal que o Brasil coibiria mais tarde incentivando a privatização de bancos estaduais para evitar a farra de financiamento sem garantia de reserva. Na Argentina, a falta de controle das instituições financeiras das províncias resultou no descontrole monetário. Teve início um novo ciclo inflacionário. Em 1992, o austral cedeu lugar novamente para o peso como moeda oficial, cuja paridade ao dólar prorrogada pelo populismo sem controle fiscal resultaria depois na quebra do país em 2001.

Israel: salvo pelas reservas internacionais

Em Israel, a inflação também se tornou problema a partir do choque do petróleo e o custo das guerras contra os palestinos. Após atingir o patamar anual de 444,879 %, em 1984, conforme série registrada pelo banco de dados holandês Global-Rates.com, composto por informações econômicas de diversos países, os israelense resolveram adotar as ideias econômicas de Michael Bruno.

O país criou, em julho de 1985, um plano para conter a inflação. A base do plano foi a mesma sugerida pelos brasileiros Pérsio Arida, Francisco Lopes e André Lara Resende: congelamento de preços, salários e câmbio.

O congelamento foi acompanhado por uma política de ajuste fiscal que permitiu a Israel zerar o déficit público que em 1984 havia sido de 18% do PIB. Para isso, cortou gastos do governo e eliminou subsídios. Mas, ao contrário da Argentina, controlou o crédito estabelecendo uma meta para a taxa nominal de 10% abaixo da inflação.

A medida foi acompanhada pela elevação do compulsório sobre depósitos à vista. Com isso, evitou que o congelamento de preços gerasse pressão por oferta de empréstimos pelo consumidor.

O fato de Israel ter à época um elevado nível de depósitos em moedas estrangeiras em seus bancos é apontado por economistas como um aliado importante. O sistema financeiro do país era constituído por 82% de moedas estrangeiras, enquanto a israelense shekels respondia por 18%, conforme o Banco de Israel. Esse colchão monetário permitiu levar a inflação de 185,175%, em 1985, para 19,635%, em 1987. Em 2011, a inflação israelense pontuou 2,178%.

Cruzado, a tentativa frustrada

No Brasil, a Proposta Larida seria parcialmente seguida pelo Plano Cruzado, em 1986, como parte da investida para controlar o salto inflacionário que havia saído de 79,42%, em 1979, para 250%, em 1985.

A equipe econômica do então presidente José Sarney adotou o congelamento de preços. Mas deixou de lado o atrelamento da nova moeda ao dólar. Para piorar, o arranjo econômico do Palácio do Planalto não foi acompanhado do congelamento dos salários. Com isso, os preços ficaram estacionados, enquanto o rendimento do trabalhador era corrigido com base nos índices de inflação, em ascendência.

O país passaria por mais quatro moedas nos próximos oito anos. Todas fracassadas pela falta de iniciativa do governo para eliminar os indexadores que corrigiam contratos de longo prazo com índices de curto prazo baseados na inflação.

Sem a desindexação, crescia a incerteza de quanto o país precisaria efetivamente pagar no final de alguns anos. A insegurança recaia sobre o desempenho de longo prazo da economia. Nascia assim a “inflação inercial”, uma roda alimentada por preços futuros corrigidos pela inflação passada, gerando um efeito natural de reinflação fortalecida sempre por correções monetárias de intervalos cada vez menores.

A desindexação foi colocada como o principal mote das políticas que se seguiram com os planos Bresser (1987), Verão (1989), Collor I e ll (1990 e 1991).

Real, a novidade cambial

O problema da indexação extremada só seria parcialmente resolvido em 1994, com o Plano Real. A nova moeda nascia com base no aperto da liquidez para diminuir o consumo e aumentar a poupança e a ancoragem cambial ao dólar, como sugerido pela Proposta Larida uma década antes. “Com a ancoragem cambial, o Brasil que só tinha um meio de pagamento passou a ter paridade com o dólar e isso deu valor ao real”, observa o professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-funcionário do Banco Central, Newton Marques.

A manutenção dos rendimentos pré-definidos, contudo, permanece um problema da economia brasileira – apesar da disposição do governo de reduzir o estoque da dívida atrelada a juros acertados em contrato e tenha iniciado campanha para retirar indexadores de contratos de energia. “Não faz sentido o Brasil ainda ter uma economia pré-fixada”, diz o presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), Heron do Carmo.

O economista também aponta a manutenção do sistema de metas de inflação anual de 4,5%, definida pelo Banco Central desde 1996, com a criação do Comitê de Política Econômica (Copom), como um mecanismo que precisa ser revisto. Carmo defende que o Brasil persiga uma meta de inflação de 2,5%. “Ainda temos uma inflação alta, comparada a países no mesmo patamar do Brasil. Isso se deve em parte porque nossa economia é muito indexada”, afirma.

O risco inflacionário não permanece como um “dragão” no horizonte do desenvolvimento brasileiro, observou recentemente Pérsio Arida. Mas segue alimentada pelo alto nível de indexação gerado em partes pela manutenção de juros altos e a falta de equilíbrio fiscal, segundo ele. “Não que temos a ameaça da volta do dragão inflacionário. A inflação hoje é normal, mas resulta do resquício de indexação", disse Arida.

Já Marques, da UnB, ainda enxerga o piso inflacionário como necessário até que o país atinja níveis mais elevados de distribuição de renda. “A inflação é um conflito distributivo e um país como o Brasil não pode querer colocar um pé 44 em um sapato 38”, diz.

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