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Banco para Compensações Internacionais  observou que  cumprimento de obrigações financeiras está no nível mais elevado desde o final dos anos 90

Agência Estado

O Banco para Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) observou que o crédito germinou em várias das grandes economias emergentes nos últimos anos, entre elas no Brasil. Em seu relatório anual, divulgado neste domingo, dia 24, o BIS observa que é difícil distinguir se a evolução do crédito poderia anteceder um risco no futuro ou se seria apenas um efeito da evolução natural e do aprofundamento do sistema financeiro do país.

Mesmo assim, o BIS destaca alguns indícios importantes que podem dar pistas sobre a qualidade do crédito nos países, entre elas a do nível de comprometimento das famílias e empresas com o pagamento da dívida. E no Brasil, segundo o banco, esse patamar está alto.

Segundo o BIS, o direcionamento de recursos das famílias e empresas do Brasil para cumprimento de obrigações financeiras está no nível mais elevado desde o final dos anos 90. "A proporção do PIB que as famílias e empresas do Brasil, China, Índia e Turquia estão alocando para o serviço da dívida está no nível mais elevado ou perto desse topo desde o final de 1990", destaca a instituição. "E essa medida pode subir ainda mais se as taxas de juros aumentarem em relação aos patamares baixos atuais", alerta o BIS.

"O crédito real na Turquia, Argentina, Indonésia e Brasil superou o ritmo do Produto Interno Bruto (PIB) e o crédito até se acelerou ao longo dos últimos três anos", observa. Na China, o crescimento do crédito real foi de quase 20% a cada ano nos últimos três anos, mas o ritmo de expansão se desacelerou recentemente.

"O crescimento rápido do crédito não é necessariamente ruim. Os sistemas financeiros de várias economias emergentes ainda estão relativamente subdesenvolvidos e várias famílias e empresas não têm acesso aos mercados formais de crédito", observa o BIS, considerado o Banco Central dos bancos centrais.

"Portanto, a expansão rápida do crédito pode refletir tanto desenvolvimento financeiro, como um excesso financeiro. E mesmo em economias desenvolvidas, o crescimento rápido de crédito não é por si só um precursor de vulnerabilidades financeiras", destaca o relatório, que está disponível no site da instituição.

O BIS alerta que o crescimento do crédito que suplanta a capacidade das instituições financeiras de avaliar e processar os empréstimos pode resultar em decisões ruins de concessão de crédito e estresse financeiro no futuro mesmo em circunstâncias nas quais a proporção do crédito em relação ao PIB é baixa.

A instituição observa que não há uma forma conclusiva para distinguir os desequilíbrios financeiros e o aprofundamento financeiro que evolui rápido, mas com crescimento sustentável de crédito. "Mas a expansão do crédito significativamente acima da tendência de longo prazo, abre o chamado gap de crédito e sempre antecede crises financeiras", alerta a instituição. No momento atual, vários, mas não todos os países com ritmo acelerado de crescimento do crédito têm gaps de crédito que superam 6%, níveis que no passado sempre sinalizaram um presságio de dificuldades financeiras.

Desequilíbrios

Os preços dos ativos também parecem cada vez mais pujantes em várias economias emergentes. "Em alguns mercados brasileiros importantes, os preços dos imóveis mais que dobraram desde a eclosão da crise do subprime (EUA)", citou o banco. Mas a apreciação real dos ativos imobiliários é ainda mais pronunciada na China, já que os preços do terreno em Pequim e Xangai quase quintuplicaram desde 2004.

"Em todos esses mercados emergentes, os desequilíbrios parecem que estão se formando, especialmente, dentro de determinadas regiões ou segmentos de mercado (como o de casas de alto padrão na China)", destaca o BIS.

Dilema

O banco observa que em um momento no qual as taxas de juros estão baixas na maioria das economia avançadas e os mercados emergentes estão recebendo fluxos de entradas intensos, a política monetária enfrenta um dilema. As taxas baixas de juros não vão claramente desacelerar o boom do crédito, mas as taxas de juros mais altas vão atrair ainda mais fluxo de capital e dar combustível para o boom doméstico de crédito, lembra a instituição.

Para combater isso, o BIS recomenda que as taxas de juros mais altas sejam acompanhadas de medidas macroprudenciais, como compulsórios mais altos ou condições mais apertadas na relação entre o valor do produto e o total que pode ser emprestado para sua aquisição. "E mesmo que essas ferramentas fracassem em desacelerar o crédito significativamente, elas devem, pelo menos, reforçar o sistema financeiro contra as consequências de um estourou do crédito." 

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